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CampinasLazer e culturaÓpera O Guarani completa 155 anos como obra imortal de Carlos Gomes

Ópera O Guarani completa 155 anos como obra imortal de Carlos Gomes

Espetáculo idealizado pelo campineiro estreou no Teatro alla Scala de Milão, na Itália, em 19 de março de 1870

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155 anos, o Brasil dava o que seria um de seus passos mais importantes no cenário da música internacional. Foi no interior luxuoso do Teatro alla Scala de Milão, na Itália, no auditório em forma de ferradura, revestido de veludo vermelho e decorado com estuques dourados, que o campineiro Carlos Gomes tirou de cena conflitos e tragédias mitológicas para dar lugar ao Brasil. Em 19 de março de 1870, estreava a ópera O Guarani, sob título traduzido em italiano “Il Guarany”.  

No mesmo ano em que a cidade de Roma iria ser dominada pelo Reino da Itália e a França entraria em guerra com a Prússia, a alta sociedade europeia aplaudia de pé ao espetáculo baseado no romance homônimo de José de Alencar, de 1857, que retrata a história de amor impossível entre o indígena Peri e a jovem filha de um português, chamada Ceci.   

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Esta é a primeira da série de três reportagens do acidade on intitulada “Ecos dO Guarani: a obra-prima de Carlos Gomes 155 anos depois”, para resgatar a importância da obra do campineiro e seus reflexos nos dias atuais.   

De Campinas para a Itália  

Não foi de um dia para o outro que o jovem Antônio Carlos Gomes conseguiu levar sua música para o outro lado do Oceano Atlântico. Filho de Manoel José Gomes, mestre de música e banda, aprendeu a tocar diversos instrumentos aos 10 anos, idade em que também iniciou os seus estudos musicais.   

Após compor missas e até um hino acadêmico, mudou-se para o Rio de Janeiro aos 24 anos, para seguir seus estudos no Conservatório de Música. Na capital carioca, ele apresentou suas primeiras óperas: “A Noite do Castelo” (1861), com libreto de Fernando Reis, e “Joana de Flandres” (1863), com libreto de Salvador de Mendonça.   

Foi com esta última que ele conquistou uma bolsa de estudos para dar seu primeiro passo do que viria a ser uma longa caminhada pela Europa. Com apoio de Dom Pedro II, viajou para Milão, na Itália, berço da arte operística na época. Depois de ter aulas com o maestro Lauro Rossi, obteve o título de Maestro no Conservatório de Milão, em 1866.  

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O nome do campineiro começou a reverberar no solo italiano com a escrita de duas operetas, ou ‘pequenas óperas’: Se sa minga e Nella luna. O burburinho foi o suficiente para que Gomes tomasse coragem para se arriscar a apresentar seu primeiro trabalho à comissão do renomado Teatro alla Scala.  

A origem de O Guarani  

Contam os registros que, certa tarde, em 1867, passeando pela Praça del Duomo, Gomes ouviu um garoto ecoando: “Il Guarani! Il Guarani! Storia interessante dei selvaggi del Brasile!” (em tradução “Guarani! Guarani! História interessante dos selvagens do Brasil!”). A tradução do romance de José de Alencar teria atraído de súbito o maestro, que logo a apresentou a Antônio Scalvini, quem mais tarde escreveria o libreto da ópera.  

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A arte e literatura brasileiras já atravessavam a era do Indianismo, escola literária com raízes no Romantismo e que originou outras obras como Iracema e Ubirajara, todas de José de Alencar. Mas, se esse tema já estava batido em solo tupiniquim, o contrário acontecia entre os europeus.  

“Ele pega esse enredo porque uma das razões para O Guarani é que estava muito em voga essa coisa do exotismo. E o que que ele tinha para apresentar? Era ser diferente. Ele queria ser diferente, então ele pegou um texto falando de indígenas”, afirma a musicóloga e docente do IA (Instituto de Artes) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Lenita Waldige Mendes Nogueira.  

A inspiração para compor alguns trechos de sua primeira grande obra também é carregada de misticismo, de acordo com Jorge Alves de Lima, acadêmico da ACL (Academia Campinense de Letras). Um dia em sua janela, na residência dele no Largo Maggiore, “sob o luar intenso e com o vento que trazia o perfume das flores”, Antônio Carlos Gomes se inspirou para uma das canções do segundo ato.   

“Ele viu, teve uma intenção, de uma mulher com um vestido branco, com um cismo, a voar pelas sombras, e que imprimiu a vista. E as flores, a água estrelada, os ventos chorosos, os raios de luz, cantaram meigamente aos seus ouvintes e estavam. A mocidade, o amor, a tambor, o cervejo e as esperanças foram em nós. Nós é que inspiramos. E Antônio Carlos Gomes traduziu para o papel o que diziam os mistérios da noite”, conta Jorge Alves de Lima em um trecho da biografia sobre o músico campineiro.   

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Com uma narrativa inusitada para a época, e aproveitando o hiato do músico italiano Giuseppe Verdi, nome então de destaque no cenário operístico, Carlos Gomes conseguiu solo fértil para atrair os olhares ao seu espetáculo sobre o romance entre um indígena e a filha de um europeu.   

Um Brasil “italiano”  

Com a aprovação da comissão do Teatro alla Scala, Carlos Gomes obteve o aval necessário para tirar o espetáculo do papel. Dividida em quatro atos, a ópera O Guarani se passa no Brasil de 1560, em uma cidade próxima ao Rio de Janeiro, na esplanada diante da fortaleza, onde vive o velho fidalgo português Dom Antônio de Mariz e sua filha Cecília.  

A jovem é cobiçada pelo aventureiro espanhol Gonzales e Dom Álvaro, nobre português. Por engano, um dos caçadores subordinados a Dom Antônio mata uma jovem indígena da tribo do Aimorés, o que faz o grupo desejar vingança. Por pouco, ela é salva por Peri, da tribo guarani, por quem se apaixona e passa a viver uma história de amor impossível, no estilo “Romeu e Julieta”.  

Apesar da narrativa essencialmente brasileira, que se passa em solo brasileiro e é escrita por um brasileiro, a apresentação foi totalmente encenada pelo elenco italiano do teatro e com instrumentos clássicos do universo operístico. Com a ópera toda falada no idioma europeu, restou a música para entoar alguma ‘brasilidade’.   

Gomes contou com apoio de tambores e outros instrumentos como o oboé, segundo Jorge, para transmitir, de certa forma, os “sons da natureza” como uma imersão na floresta brasileira.   

“Era uma ópera assim de uma escrita musical muito diferente do que era feito, na Europa, que seguia um padrão até então. Não que ele fuja desses padrões, mas ele dá um toque diferente. Ele teve muita experiência com música de banda, então ele dá um toque mais metálico, digamos assim”, conta Lenita.   

Quando a primeira cena terminou, Antônio Carlos Gomes foi quase arrastado para o palco, onde o público o acolheu com estrondosas palmas em todo o teatro. Depois desse primeiro ato, o campineiro foi chamado sete vezes ao palco.  

O escritor, advogado e diplomata Luiz Guimarães Júnior, falecido em 1898, foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e amigo íntimo de Carlos Gomes. Testemunha da estreia do músico campineiro no Teatro alla Scala de Milão, Guimarães relatou em depoimento que naquela noite o colega estava apavorado, com medo de ser vaiado, já que não sabia como seria a repercussão.  

Ao terminarem as palmas, Gomes partiu do teatro “como uma bala de um fuzil”.  “Ele foi para a casa dele, deitou e ficou lá, estático. E todo mundo procurando ele. Coisa de artista”, brinca Jorge Alves de Lima.   

Obra imortalizada  

Na noite de 2 de dezembro de 1870, seria a vez da ópera O Guarani chegar em solo brasileiro. Durante o aniversário de D. Pedro II, em grande gala, foi estreada a ópera no Teatro Lírico Provisório, no Rio de Janeiro.  

Mesmo com todo o sucesso até hoje atrelado à obra O Guarani, Carlos Gomes não colheu os frutos da maneira esperada, já que acabou vendendo os direitos do espetáculo, segundo Lenita Nogueira. 

Ainda no século XIX, a ópera rodou pelas Américas e por países como Itália, Inglaterra, Polônia, Bélgica, Malta, Egito, Rússia, Suíça, Espanha, Portugal e Alemanha, de acordo com levantamento feito pela musicóloga da Unicamp.

Na atualidade, mesmo que o livro de José de Alencar sobreponha o conhecimento sobre a obra de Carlos Gomes, é difícil encontrar um brasileiro que não reconheça o trecho inicial da ópera, que até hoje faz parte da música de abertura do programa radiofônico “A Voz Brasil”.   

“Para mim, foi um grande precursor do sucesso musical brasileiro na Europa, sim. Começou como um ponto de partida. Tanto é verdade que o Verdi, na época, era o primeiro compositor levado à cena no Scala de Milão. O segundo era Carlos Gomes”, declarou Jorge Alves Lima.   

O outro lado de O Guarani  

Apesar do reconhecimento indiscutível sobre a ópera de Carlos Gomes, cada vez mais se fala sobre a representação indígena feita pelo músico na época, assim como o idealismo heroico retratado em Peri, aspecto trazido do texto de José de Alencar.   

Como forma de repensar a obra nos dias atuais, uma nova versão foi concebida pelo líder indígena, filósofo e Imortal da Academia Brasileira de Letras, Ailton Krenak, com direção musical de Roberto Minczuk e direção cênica de Cibele Forjaz. Com um elenco totalmente composto por atores e músicos indígenas, a nova versão estreou em 2023 e chegou a ser premiada internacionalmente, no ano passado, como “Melhor produção de ópera latino-americana” pela associação Ópera XXI da Espanha.   

O espetáculo voltou ao palco do Theatro Municipal de São Paulo para a temporada de 2025, ano do 155º aniversário da ópera original. O acidade on conversou com Ailton Krenak para abordar a importância de se repensar uma produção dessa grandiosidade. A entrevista vai compor a última matéria da série, que vai ao ar na sexta-feira (28). 

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Vitória Silva
Vitória Silva
Repórter no ACidade ON Campinas. Formada em Jornalismo pela Unesp, tem passagem pelos portais Tudo EP e DCI, experiência em gravação e edição de vídeos, produção sonora e redação de textos, com maior afinidade com temas que envolvem cultura e comportamento.

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