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Setembro amarelo, seja um sol para alguém na primavera

Se você precisa de ajuda, ligue para o Centro de Valorização da Vida pelo telefone 188 ou procure-os na internet

| Especial para ACidade ON

Seja um sol para muitos girassóis. Arte da minha sobrinha Giovanna Barreto. 

Setembro Amarelo, mês mundial de prevenção do suicídio. Falar sobre isso ainda é um tabu. Eu mesma fiquei indecisa se escrevia ou não, ainda mais na estreia. Também porque sempre ouvi que falar isso põe em risco pessoas debilitadas, que estejam considerando esse ato extremo. Enfim...acho que me entendem..., mas decidi que não posso ter melindres quando busco a inclusão. E que o meu e o seu silêncio não impedem suicídios de acontecerem. Ao contrário, apenas o esconde de nossas vistas e o enterramos, no sentido literal e doloroso.  

Coincidência ou não, meus olhos se prenderam a uma postagem em uma rede social de um amigo querido, o jornalista Marco Antônio. Era uma lembrança de um post publicado em 11 de setembro de 2018, mas que, segundo ele, se mantinha atual: "Continuo pensando da mesma forma." Nunca pensei que ele tivesse um dia pensado em cometer tal ato. E o que inclusão tem a ver com isso? Tudo!

Existe uma linha tênue entre a depressão e o suicídio. E a inclusão nos torna mais fortes para enfrentar as frustrações com a própria vida, mais respeitados, mais aceitos diante da pressão social pelo sucesso e nos dá a sensação de pertencimento. Sentir-se parte de um grupo faz toda a diferença. Por isso, a inclusão no sentido mais amplo é a cura para muitos males, porque muda vidas.

Voltando ao meu amigo, não soube o que escrever ao bater os olhos no texto, mas queria ajudar de alguma forma. Então, pensei, posso divulgar a sua postagem e, com isso, tentar ajudar outras pessoas, como eu. Sim, eu. Nunca sofri depressão. Tive momentos de tristezas como muitas pessoas. Alguns deles demoraram um pouco mais para passar, como os que aconteceram com as perdas de meu pai, minha mãe, de um de meus irmãos e de uma tia querida.

Mas, eu, ali, diante do texto do meu amigo, fiquei sem saber o que fazer. Então, resolvi falar com ele e pedir a sua autorização para publicá-lo aqui, o que me foi concedido. Às vezes, queremos ajudar, mas não sabemos como. Então, como disse o meu amigo abaixo, "ofereça um pouco do que há de melhor em você e vai ver o quanto isso se transforma em muito".  

Mensagem do jornalista Marco Antonio sobre o Setembro Amarelo

De fato, estender a mão ajuda?  

Esse "pouco" pode fazer a diferença, como disse o meu querido amigo? Será que o simples gesto de estender a mão pode ajudar? Isso porque, além dos aspectos psicológicos e sociais e de uma possível condição de saúde limitante, existem as doenças mentais, como a depressão, o transtorno bipolar, os transtornos mentais relacionados ao uso de álcool e outras substâncias, o transtorno de personalidade e a esquizofrenia. Por isso, fui buscar a ajuda de um profissional habilitado para continuar a escrever este texto.  

Coordenador do Comitê Permanente de Prevenção ao Suicídio da Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas (SMCC), o psiquiatra Fábio Martins Fonseca explica que o perigoso é não perguntar se perceber que a outra pessoa está com dificuldade, desesperançosa ou depressiva. "Perguntar não estimula o suicídio e é preciso dar fim a essa ideia equívoca", afirma. "A primeira coisa, ao perceber algo errado, é perguntar se a pessoa está bem e ir fazendo perguntas cada vez mais específicas."  

E, sim, segundo o psiquiatra Fonseca, esse olhar e cuidado ao próximo ajudam a eliminar ideias negativas. "A depressão tem causas multifatoriais; não é só químico ou uma pré-disposição genética. E o suicídio não é acarretado por um único fator." Por isso, estender a mão a quem sofre tem, sim, um valor inestimável, diante da grandeza da valorização da vida.
"Segundo estudo realizado pela Unicamp, 17% dos brasileiros, em algum momento, pensaram seriamente em dar um fim à própria vida e, desses, 4,8% chegaram a elaborar um plano para isso. Em muitos casos, é possível evitar que esses pensamentos suicidas se tornem realidade." O texto faz parte da cartilha Falando Abertamente sobre Suicídio, elaborada pelo Centro de Valorização da Vida (CVV). Clique aqui para ter acesso. 

Segundo esta cartilha, "a média brasileira é de 6 a 7 mortes por 100 mil habitantes, bem abaixo da média mundial entre 13 e 14 mortes por 100 mil pessoas." O CVV alerta que o problema é que, "enquanto a média mundial permanece estável, esse número tem crescido no Brasil". Afirma ainda que o maior aumento de suicídios é registrado entre jovens entre 15 e 25 anos. E vai além: "É preciso perder o medo de se aproximar das pessoas e oferecer ajuda".

Enfim, não precisamos esperar alguém ficar triste em um canto ou fazer um ato desesperado para que tomemos alguma atitude. A prática do bem é um exercício a ser feito diariamente, como o ato de um bebê que busca dar os seus primeiros passos. Afinal, somos seres humanos e precisamos domar nossas vaidades, disputas e até a nossa falta de autoestima.

Ajuda para crianças de 4 a 7 anos fragilizadas

O Departamento de Psiquiatria da Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas (SMCC) através do Comitê Permanente de Prevenção ao Suicídio na Campanha Setembro Amarelo deste ano realizou várias ações. A novidade foi a abordagem inédita voltada para a proteção de crianças e jovens adolescentes, além do enfoque na fase adulta e envelhecimento. Foi feito o lançamento de um livro infantil voltado para crianças de 4 a 7 anos, abordando o tema valorização da vida e enfrentamento de adversidades de uma maneira lúdico-pedagógica.

O objetivo da publicação é ajudar crianças, pais e profissionais a tratarem da importância de seguir adiante, buscando recursos e superando as adversidades. O título é "A Fada do Dente em uma Missão Possível". Teve, inclusive, lançamento de um vídeo da personagem, apresentando o tema de maneira bastante lúdica e afetiva Clique aqui.  

A autora do livro é a docente no ensino superior, especialista em Gestão de Pessoas e Psicopedagogia com ênfase em Educação Inclusiva, graduada em Pedagogia, Maibí Fernanda Chesi Mascarenhas. Acesse o livro aqui

Voltando à imagem do post  

Ao retomar o olhar à foto do post de meu amigo, uma mão segurando uma florzinha amarela, me veio à cabeça a imagem de um campo repleto de girassóis, mas cada flor tinha o rosto de uma pessoa desconhecida, com pétalas ao redor, e uma outra em pé, como se fosse a extensão do sol, regando a sua flor. Queria ser um desses regadores... Melhor, tentarei ser!
Tentarei porque, na correria do dia a dia, respondemos no automático. Eu me sinto assim, não sei você...  

Com essa pandemia da Covid-19, houve uma mudança significativa na vida de todos. Estamos longe, mas, ao mesmo tempo, perto por conta da tecnologia. Talvez, por isso, eu mesma não visualize rostos conhecidos nos meus girassóis ou é uma defesa porque não quero que ninguém que eu conheça passe por isso, mesmo sabendo que existe.  

Minha própria negação me leva a crer que é preciso mais do que nunca falar sobre depressão e suicídio. Preciso dar uma pausa e pensar nos meus familiares e amigos, e até em mim. Eu posso e quero ser o sol de muitas pessoas. Quero que o Setembro Amarelo seja apenas a explosão da primavera. Então, se você pensa como eu, seja um sol para alguém. Ficarei na torcida para que aceite minha sugestão. Até a próxima!

OBS: Se você precisa de ajuda, ligue para o Centro de Valorização da Vida pelo telefone 188 ou procure-os na internet. Peça ajuda para a sua família, amigos, em alguma ONG da sua cidade ou onde você se sente confortável em conversar. Você não está sozinho.

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