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Por um país no qual nenhuma mulher sofra sozinha

Slogan do Mapa do Acolhimento conclama psicólogas e advogadas para atendimento voluntário a mulheres vítimas de violência

| ACidade ON - Circuito das Águas


Arte da campanha do Mapa do Acolhimento
A cada hora, uma mulher vítima de violência doméstica pede hoje ajuda ao Mapa do Acolhimento, uma rede de solidariedade que conecta mulheres que sofrem ou sofreram violência de gênero a psicólogas e advogadas dispostas a ajudá-las de forma voluntária. O número de solicitações aumentou por conta da Covid-19. Antes, sofria variação e agora se tornou uma constante, segundo a psicóloga Larissa Schmillevitch, coordenadora do Mapa do Acolhimento.

De acordo com Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, 1,3 mil queixas de violência contra mulher foram registradas de 14 a 24 de março deste ano. Para não deixar nenhuma mulher sofrer sozinha, o Mapa do Acolhimento lançou uma campanha para conseguir, urgentemente, 5,5 mil novas voluntárias nos 27 Estados do Brasil.

As palavras gritaram da mensagem do meu e-mail, recebida do Mapa do Acolhimento. Pareceu-me um sinal porque tinha acabado de ler a notícia de que a 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) havia mantido, em 30 de setembro passado, a absolvição de um homem que tentou matar a ex-mulher a facadas diante da suspeita de traição conjugal por parte da companheira.

O que alegou o acusado para se defender? "Legítima defesa da honra." O caso foi julgado por um júri em 2017, que, por unanimidade, aceitou essa defesa dos tempos do Brasil Colonial. Com isso, é como se, ao se justificar desta forma, o homem agressor ganhasse um salvo-conduto para matar a companheira adúltera ou até suspeita de cometer adultério, considerando a mulher como ser inumano. Para os ministros do STF, a decisão do tribunal do júri é soberana e não pode ser modificada.

É preciso a INCLUSÃO do tema no debate para acabar com essa ideia de que a mulher é um objeto, fruto de um processo histórico-discursivo proveniente de um conservadorismo do poder patriarcal vivido na Idade Média. Perguntei ao pessoal do Mapa do Acolhimento: Por que ainda juridicamente o Brasil continua a usar "a legítima defesa da honra" para defender agressores? Para Larissa, do Mapa do Acolhimento, a violência contra mulher é estruturante no nosso país, assim como o racismo. Quando o agressor é um homem negro, acrescenta - o tratamento é diferente.  

"O sistema de Justiça é muito patriarcal e machista para manter privilégios de homens brancos, que são a maioria", analisa Larissa. Segundo ela, apesar da existir, a Lei Maria da Penha ainda não foi aplicada na sua totalidade. "Muitos juristas não compreendem a importância de garantir cada vez mais a integralidade da aplicabilidade dessa Lei. Isso significa defender os direitos das mulheres e também a perda de privilégios dos agressores."  

A própria Larissa questiona: "O quanto o Judiciário capacita seus profissionais para lidar com a violência de gênero?" Segundo a psicóloga, muitas vezes, as varas criminal e de família não dialogam. "Mulheres que têm medidas protetivas contra um agressor estão em uma audiência de guarda, por exemplo, se esse casal tem filhos." Para ela, é preciso olhar essa mulher na sua totalidade. "Não dá para tratar família e violência contra mulher em âmbito separado."   

Arte da campanha do Mapa do Acolhimento

Voltemos à campanha
O debate é importante, mas preciso focar neste momento na campanha. Isso porque a meta para conseguir a inscrição de 5,5 mil terapeutas e advogadas é traçada para até 30 de outubro próximo. Como diz o Mapa do Acolhimento, essa força-tarefa é "por um país no qual nenhuma mulher sofra sozinha". "A plataforma foi lançada em 2016 e já tem mais de 1.500 voluntárias ativas para ajudar a mulher que sofreu ou sofre algum tipo de agressão", diz Larissa. "E já encaminhamos mais de 6 mil pedidos de ajuda no país todo."  

Como ajudar e preciso de ajuda  

Quem se inscreve realiza atendimento voluntário a essas vítimas, seja presencial ou on-line. Tanto quem quer ajudar como quem precisa de ajuda deve preencher um formulário. Além do apoio terapêutico e jurídico, o Mapa também mostra onde ficam os serviços públicos disponíveis em cada cidade para atendimento das vítimas.  

Se você é advogada ou psicóloga, agora é a hora! Para fazer parte dessa rede nacional de acolhimento, basta clicar em: https://www.queroacolher.mapadoacolhimento.org. Primeiro, a voluntária preenche um o pré-cadastro pelo link acima. Tem um específico para advogada e outro para psicóloga. Ao fazer sua pré-inscrição on-line, você deve clicar em continuar, próximos passos, para ser direcionada ao formulário de triagem, com diretrizes do Mapa, algumas perguntas sobre atuação profissional e com o termo de voluntariado. A partir daí, uma equipe vai analisar as respostas e fazer a checagem das informações.

Para quem precisa de ajuda, basta clicar em: https://www.queroseracolhida.mapadoacolhimento.org. A interessada preenche um cadastro, onde terá de registrar um e-mail seguro e alguns dados cadastrais, como localização, tipo de ajuda, se é maior de 18 anos, se sofreu algum tipo de violência de gênero, se está no Brasil e se não tem condições de pagar pelo atendimento, estando em situação de vulnerabilidade.

Em poucos minutos, receberá uma resposta no e-mail sobre a voluntária disponível mais próxima. O sistema automatizado busca por tipo de acolhimento e disponibilidade de voluntária, encaminhando o contato da profissional. Assim, poderá buscar ajuda. Em caso de não haver ainda voluntária próxima, receberá informações sobre serviços públicos para que consiga ser acolhida.

Quer saber mais sobre essa campanha? Confira a live feita na noite desta quinta (8 de outubro) no facebook do Mapa do Acolhimento. Assista aqui

Isa.bot

De acordo com pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, houve um crescimento de 22,2% de feminicídios entre março e abril deste ano em relação a 2019. Uma outra ferramenta que pode ajudar a mulher vítima de violência é a Isa.bot

Ela é uma robô programada para oferecer informações e acolhimento, para que todas as mulheres saibam o que fazer, como e onde buscar ajuda em casos de violência doméstica ou online. Para receber orientações, basta chamá-la no inbox do Facebook ou no Google Assistente (Falar: Ok, Google, falar com Robô ISA).  

Ela foi desenvolvida com o apoio do Facebook, Google e ONU Mulheres, pelo Conexões que Salvam, da ONG Think Olga, e pelo Mapa do Acolhimento, do Nossas.org, projetos que apoiam mulheres que sofrem ou sofreram violência de gênero na internet e fora dela! Assista o vídeo.  

Disque 180

A Central de Atendimento à Mulher funciona 24 horas. A ligação é gratuita, anônima e disponível em todo o país. É outro serviço para ajudar as vítimas. Além de denúncias de violência, como a doméstica e familiar, o serviço compartilha informações, recebe reclamações sobre a rede de atendimento e acolhimento à mulher em situação de violência e orienta as mulheres sobre seus direitos e sobre a legislação vigente.  

O serviço, de acordo com o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, também fornece informações sobre os direitos da mulher, como os locais de atendimento mais próximos e apropriados para cada caso: Casa da Mulher Brasileira, Centros de Referência, Delegacias de Atendimento à Mulher (Deam), Defensorias Públicas, Núcleos Integrados de Atendimento às Mulheres, entre outros.  

O Disque 180 atende todo o território nacional e também pode ser acessado em outros 16 países. Duas cartilhas feitas pelo Ministério também podem ajudar. São elas: Enfrentando a violência doméstica e familiar contra a mulher Mulheres na Covid-19.

Que o Outubro Rosa, que tem como objetivo principal alertar a todos a respeito do câncer de mama e da importância de um diagnóstico precoce, também se amplie para alertar a todos sobre a violência contra a mulher. Que a energia da cor rosa traga equilíbrio emocional e nos faça refletir sobre a importância de lutarmos contra a violência às mulheres. E que nenhuma justificativa desumana nos sirva de salvo-conduto para aceitarmos a violência, especialmente os feminicídios. "Por um país no qual nenhuma mulher sofra sozinha", como conclama o Mapa do Acolhimento. 


**** Vale ressaltar que mulheres cis, mulheres transexuais e homens transexuais maiores de idade, de qualquer parte do Brasil e que não possuam renda para pagar pelos atendimentos, podem buscar atendimento no Mapa do Acolhimento. Quem quiser APOIAR financeiramente a iniciativa, basta clicar aqui. Os recursos arrecadados são necessários para desenvolver tecnologia que irá automatizar os encaminhamentos e implementar uma grande estratégia de cadastro e formação gratuita de milhares de novas voluntárias.  

 

 Sugestão de pauta e contato: almainclusiva@gmail.com
 



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