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Adoção: Que tal realizar o sonho de quem quer ter alguém pra desejar um simples boa noite?

Adaptando o tema da campanha Adote um Boa-Noite do TJ-SP para dizer que 5 mil crianças e adolescentes aguardam uma família no Brasil

| ACidade ON - Circuito das Águas

""O maior presente para crianças em casa de acolhimento ou um abrigo é uma família. A grande maioria delas expressa de forma verbal o desejo de pertencer a uma família", diz Sara Vargas, presidente da Angaad. Foto: Amor foto criado por freepik - br.freepik.com

Qual o melhor presente para uma criança? A indagação surgiu repentinamente no último dia 12, quando se comemorou o Dia das Crianças. Mas, ao invés de brinquedos e roupas, pensei de cara: uma família amorosa. E o pensamento não veio à toa. Estava ainda revivendo uma cena da novela reprisada "Totalmente Demais", quando a personagem Carolina (Juliana Paes) consegue adotar o personagem Gabriel (Ícaro Zulu), soropositivo.  

Pensei nas mais de 5 mil crianças e adolescentes à espera de adoção no país, segundo o Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Neste dia 12 de outubro, mais de 30 mil crianças e adolescentes estavam em situação de acolhimento em 4.544 unidades em todo o país. Deste total, precisamente 5.151 estavam aptas a serem adotadas. Os números mudam diariamente. Clique aqui para ver a situação hoje. 

Primeiro, é preciso lembrar que uma criança ou um adolescente é encaminhado a um abrigo ou casa de acolhimento "ao se detectar uma situação de risco, negligência, abandono, maus-tratos, entre outras violações de direitos", de acordo com o CNJ. Ainda segundo o Conselho, a "medida tem caráter temporário, até o retorno da acolhida, por adoção ou reintegração familiar, considerando o interesse da criança e do adolescente".  

Todos queremos ser amados  

Eu mesma cheguei a fazer uma matéria, em Campinas, com autorização da Vara da Infância e Juventude e seguindo suas orientações, em um desses locais de acolhimento institucional no Dia das Crianças. O responsável havia conseguido uma parceria e todos atendidos haviam ganho roupas e brinquedos. Foi uma linda festa! Todos ficaram felizes, é claro. Mas, nem precisava conversar com elas para perceber o que mais queriam: uma família que as amassem.  

Afinal, todos queremos ser amados e pertencer à nossa primeira unidade organizacional, a família, onde acontecem nossos primeiros intercâmbios emocionais. "Crianças desejam e precisam estar em família, pois é nesta que se constrói afeto", afirma a assistente social e escritora Lilia Monteiro, adotada aos sete dias de vida.  

Blogueira e colunista do site "O Segredo" e da revista "Statto", Lilia lembra que "são vidas que já sofreram danos com a perda da família de origem a qual aprenderam a amar". E, fala diretamente a quem tem interesse em adotar: "Quando essas crianças vão para uma nova família, inicia-se ali uma nova construção de afetos. Então, é preciso ser paciente, perseverante e sobretudo sincero. As relações, quaisquer que sejam, devem ser construídas baseadas na verdade."  

Ela mesma conta - veja o depoimento dela clicando aqui. - que a descoberta tardia, na adolescência, de que tinha sido adotada, foi difícil de ser aceita. "Foram momentos difíceis em que nada fazia sentido." Sua entrada na universidade para o curso de Serviço Social a libertou. Hoje, fala abertamente sobre o tema com a intenção de incentivar a adoção com consciência.  

Ao pesquisar o tema sob o prisma do filho adotivo, deparei-me com o livro "Vida de Adotivo: A adoção do ponto de vista dos filhos", lançado pela Physalis Editora e organizado por Alexandre Lucchese, jornalista e filho adotivo. A publicação reúne 12 relatos de filhos por adoção em idade adulta. Os entrevistados revisitam o passado e avaliam como ter sido adotado influenciou seu modo de ver o mundo no presente. Tentei falar com Alexandre, mas não consegui. Uma pena! Mas, quem tiver interesse em adquirir o livro é só clicar aqui. Todo o recurso arrecadado é doado para entidades ligadas à causa. 

Não é tabu falar sobre adoção  

Para o psicólogo Jairo Uryu Silva, com especialização em Neuropsicologia pela Unicamp, "nos casos de adoção nos primeiros anos de vida, é recomendado que o assunto seja introduzido o quanto antes no desenvolvimento da criança, de forma lúdica e natural, para que ela possa assimilar a questão com maior tranquilidade e compreender que falar sobre isso não é um tabu."  

Com o passar do tempo, acrescenta, as explicações deverão ser mais concretas para acompanhar o desenvolvimento da criança. "Estimule o diálogo e afirme a importância da criança e a afetividade envolvida na relação entre vocês", recomenda o psicólogo. Na tentativa de contribuir, fiz algumas perguntas a ele: 1) Com qual idade contar?; 2) Como falar com a criança após a adoção?; 3) Como evitar que se desenvolvam sentimentos de inferioridade, vergonha e preconceito em relação à adoção?; e 4) O que fazer se a criança quiser buscar os pais biológicos?. Clique aqui para ver as respostas do especialista.   

 Agilidade para as adoções 

A implantação do SNA trouxe um inédito sistema de alertas, com o qual os juízes e as corregedorias podem acompanhar todos os prazos referentes às crianças e adolescentes acolhidos e em processo de adoção, bem como de pretendentes. Ele passou a ser obrigatório para os tribunais desde outubro de 2019, fazendo buscas automáticas de famílias para as crianças em qualquer região do país. Com ele, é possível ter hoje o retrato da adoção e do acolhimento no Brasil.  

Em entrevista ao Notícias CNJ, o presidente da Associação Brasileira dos Magistrados da Infância e da Juventude (Abraminj) e desembargador do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS), José Antônio Daltoé Cezar, disse que o Poder Judiciário tem implementado uma visão integral no acolhimento. "Temos observado um grande esforço judicial, desde audiências on-line até a busca por capacitação dos agentes de direito, para que a criança tenha seus direitos como indivíduo respeitados. O próprio CNJ, com uma iniciativa de aprimorar os cadastros de adoção para dar celeridade ao processo, contribui para esse contexto mais ágil e buscando sempre a melhor condição para a criança", disse o desembargador ao Notícias CNJ.  

Quanto mais velho, menos chance de adoção  

Procurei o DAIJ 2.4 - Serviço de Cadastros e Informação da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, que me respondeu que mais informações sobre adoção poderiam ser obtidas no site www.adotar.tjsp.jus.br e que os trabalhos continuam remotamente por conta da pandemia de Covid-19. Leia matéria sobre o assunto aqui.  

Uma das campanhas do Tribunal é o "Adote um Boa-Noite". Você já pensou que hoje são mais de 5 mil crianças e adolescentes na espera para serem adotados no Brasil, apesar de haver mais de 35 mil pretendentes à adoção? Deveria, então, ter zerado essa fila dolorosa e agoniante de espera, não é?  

Mas, isso não acontece porque a grande maioria das crianças e adolescentes prontos para serem adotados tem mais de 7 anos, enquanto aqueles que estão na fila para adotar desejam crianças mais novas. E, adaptando uma frase usada pelo TJ-SP pergunto: - Que tal "realizar o sonho de quem quer ter alguém pra desejar um simples boa noite"?  

Imagino o nervosismo e a ansiedade de um adolescente nesse abrigo institucional às vésperas de seu aniversário de 18 anos, quando precisam deixar o acolhimento, sem muitas vezes terem as reais condições para a sua efetiva emancipação. Alguns conseguem entrar em uma república administrada pelo acolhimento, mas precisam estar trabalhando ou estudando. Entretanto, nem todos se encaixam nesse perfil. Tenho um amigo, muito querido, que passou por isso e é, para mim, um exemplo de superação e luta. Pena que não consegui falar com ele!  

Ajuda de grupos  

Os Grupos de Apoio à Adoção (GAAs) são formados, na maioria das vezes, por iniciativas de pais adotivos que trabalham voluntariamente para a divulgação da nova cultura da Adoção, a adoção legal, prevenir o abandono, preparar adotantes, acompanhar pais adotivos e para a conscientização da sociedade, principalmente sobre as adoções necessárias (crianças mais velhas, com necessidades especiais e inter-raciais).  

Muitos deles são ligados à Associação Nacional de Grupos de Apoio à Adoção (Agaad) e à Associação dos Grupos de Apoio a Adoção do Estado de São Paulo (Agaaesp), que visam promover debates sobre adoção e ser um canal de apoio para famílias e pessoas que adotaram, além de proporcionar uma formação para pretendentes. Confira aqui as leis sobre adoção, separadas por regiões do Brasil, no site da Agaad. 

Sara Vargas, presidente da Angaad. Foto: Divulgação

Para a presidente da Agaad, Sara Vargas, "conversar com a sociedade a respeito da adoção de crianças reais e promover situações seguras de encontro entre os postulantes à adoção e as crianças reais que precisam de família, segundo preconiza o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), são estratégias importantes para que esses adotantes ampliem o seu perfil de forma mais segura". Ao mesmo tempo, segundo ela, a preparação devida desses postulantes e o apoio adequado depois que chega essa criança ou adolescente é muito importante."  

E afirma: "O maior presente para crianças em casa de acolhimento ou um abrigo é uma família. A grande maioria delas expressa de forma verbal o desejo de pertencer a uma família." Ouça o depoimento da presidente da Angaad, que explica a ação da Associação e aborda o tema adoção.   


GAA Diálogos sobre Adoção funciona em Campinas  

Em Campinas, o Grupo de Apoio à Adoção é formado por voluntários: pais que querem adotar ou que já adotaram, e demais pessoas que se interessam pelo tema. "Nas reuniões, compartilhamos experiências e discutimos assuntos ligados a esse tema com o intuito de preparar futuros pais e de partilhar conhecimentos relacionados à adoção", explica Diego Gallet, pai e integrante do GAA Diálogos sobre Adoção.  

Depois de ficar na fila por quase dois anos, Gallet, que é solteiro, adotou um menino em 2019. Seu filho tem 9 anos. Ele mesmo mudou o perfil do filho adotivo, já que antes queria uma criança com até 7 anos. Mas, participando do GAA e conhecendo outras crianças adotadas, alterou a sua ficha de interesse na Vara da Infância e Juventude para até 9 anos.  

"E ao ser chamado para conhecer o meu filho, fiquei muito feliz e a cada dia tenho mais certeza que era ele mesmo que eu tinha de encontrar, de ser o seu pai. É uma família pequena, com uma rede de apoio, como meus pais e amigos", conta Gallet.  

Para ele, muitos confundem adoção com caridade. "Talvez, a pessoa até entre com esse pensamento, mas depois percebe que, na verdade, a gente está fazendo o bem também para nós mesmos, já que gera benefícios mútuos."  

Seja numa família biológica ou adotiva, a criança está para satisfazer a sua vontade de paternidade e maternidade, segundo Gallet. "Na adoção, acredito que temos mais tempo de nos preparar. É um processo bem demorado e precisa ser assim." Ele frisa a importância da adoção legal para dar mais segurança, especialmente à criança ou adolescente adotado.  

O GAA Diálogos sobre Adoção está com um projeto novo, "o Tá na hora da história!" Isso porque as crianças conseguem se expressar melhor pelo lúdico e as histórias acabam sendo "gatilhos" para muitas conversas, trazendo leveza a assuntos delicados. A explicação está na página do Facebook do GAA. As histórias estão no Canal Diálogos sobre Adoção no YouTube. 

Quem quiser entrar em contato com o GAA Diálogos sobre Adoção pode fazer isso pelo Facebook, pelo Instagram e e pelo e-mail: dialogossobreadocao@gmail.com.   




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