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Os desafios da inclusão digital na educação em tempos de Covid-19

Brasil ainda tem 4,8 milhões de crianças e adolescentes - entre 9 e 17 anos - que vivem em domicílios sem acesso à Internet, segundo pesquisa TIC Kids Online Brasil 2019

| ACidade ON - Circuito das Águas

O tempo médio dedicado pelos alunos de 6 a 15 anos às atividades escolares foi pouco mais de duas horas por dia - quase metade da jornada mínima recomendada por lei, segundo pesquisa da FGV Social.  | Imagem de Gerd Altmann por Pixabay 
Alunos tendo que ficar próximos a casas de vizinhos para usar o wi-fi ou tendo de dividir o único aparelho celular da família para assistir as aulas on-line e fazer os deveres escolares. E ainda há aqueles que sequer têm aparelho para entrar nesse mundo virtual. A pandemia de Covid-19 escancarou as desigualdades na educação. E isso não é apenas uma impressão minha. "Pesquisa da FGV Social apontou que a pandemia acentuou o abismo educacional", diz matéria veiculada na edição da última terça-feira (20) do Jornal da Globo. Clique aqui para assistir.   

Eu já havia escolhido o tema "os desafios da inclusão digital em tempos de Covid-19" quando vi a reportagem. Mas, levei um susto enorme com um dado da pesquisa: o tempo médio dedicado pelos alunos de 6 a 15 anos às atividades escolares foi pouco mais de duas horas por dia - quase metade da jornada mínima recomendada por lei, afetando principalmente alunos de baixa renda familiar. Achei importante abordar este tema para que juntos possamos pensar no assunto e cobrar políticas púbicas de inclusão digital, que estão ligadas à renda da população.

Pense que a merenda escolar é, muitas vezes, a única refeição diária completa de alguns alunos e que eles futuramente serão lançados ao mercado de trabalho, que paga melhor quem tem o maior nível de escolaridade. Sem contar que as eleições municipais estão a todo vapor. E os municípios têm papel fundamental nesse processo de democratização do acesso à internet. Mas, vamos voltar ao acesso às ferramentas digitais, que é foco de mais um assunto sobre inclusão.

Com filhos de 4, 14, 18 e 20 anos e que estudam na rede pública de ensino na cidade de São Paulo, Juliana dos Santos Betiner lembra que nem todo mundo tem celular de última geração e um bom plano de internet. "A dificuldade que meus filhos encontram é que a internet trava muito e não conseguimos acessar o class room, porque nossos aparelhos não são tão modernos", contou.

"Outra coisa, o aluno acessa no site toda a lição, precisa copiá-la no caderno e fazer. Mas, como fazer se não consegue assistir a aula on-line? Eu me pego perguntando como fazer, se na própria aula presencial, têm dificuldades com a dispersão da atenção? Agora, imagina em casa e eu tendo de trabalhar, ou seja, não consigo acompanhá-los", desabafou Juliana. A situação complica ainda mais se o aluno tem alguma deficiência. E ela quadruplica se ele for pobre, sem qualquer acesso à internet.  

O professor de História Rodrigo Ferreira tem um filho de 12 anos. Morador também em São Paulo, explicou que o filho não conseguiu acompanhar as aulas remotas devido ao fato de que os poucos aparelhos da casa estavam sendo usados no trabalho home-office. "Temos poucos aparelhos de celular e, quando tinham as aulas, eu estava usando o meu e o meu filho não tinha como assistir as aulas."

Democratização ainda exige luta 

Um dos slides da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2019
É preciso lembrar que o Brasil ainda tem 4,8 milhões de crianças e adolescentes - entre 9 e 17 anos - que vivem em domicílios sem acesso à Internet, segundo pesquisa TIC Kids Online Brasil 2019, divulgada em junho deste ano. Se você quiser ver os principais resultados dessa pesquisa, realizada com 2.954 crianças e adolescentes e 2.954 pais/responsáveis entre outubro de 2019 a março de 2020, clique aqui. Com a pandemia, este cenário pode até ter piorado, o que só iremos saber a partir das próximas pesquisas.

O país estava tendo avanços em termos de inclusão digital. "Apesar de muitas salas de informática terem sido implantadas nos últimos anos, fora da escola estabeleceu-se a crença de que, por meio do crédito, as famílias teriam acesso a dispositivos digitais, como celulares, tablets e computadores. Isso em parte ocorreu, visto que os dados da PNADC 2018 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE) mostram mais 135 milhões de brasileiros com acesso à internet", analisou César Augusto Gomes, professor de Língua Portuguesa e Literatura pela PUC-Campinas, especialista em Educomunicação e Midialogia pela Unisal e mestrando em Divulgação Científica e Cultural pela Unicamp.

O problema, segundo ele, é que, na maioria das vezes, as camadas mais pobres da população só consegue custear planos básicos com acesso apenas às mídias sociais. "No entanto, como se percebeu com a pandemia, isso não é suficiente para incluir o cidadão no mundo digital", afirmou Gomes. Perguntei a ele, então, qual medida a médio-longo prazo deve ser feita para tentar ao menos amenizar essa triste realidade?

E Gomes me respondeu: "As principais medidas envolvem o poder público e as empresas de telefonia (privatizadas com o pretexto de universalizar a comunicação), num projeto para levar internet de qualidade à toda a população, inclusive a dos bairros mais distantes. Em paralelo, é preciso oferecer formação para o uso da tecnologia tanto para professores quanto para alunos, formação essa que deve fazer parte da jornada do professor (isto é, dentro da carga horária de trabalho) e dentro da grade escolar do aluno, como disciplina obrigatória." Leia a entrevista completa com Gomes clicando aqui.   

Não é um modelo de EaD (Ensino a Distância)

Para a pedagoga, psicopedagoga, mestre e doutora em Educação, Fernanda de Oliveira Soares Taxa, a pandemia de Covid-19 escancarou o cenário da exclusão digital no país. "E, não se trata apenas da falta de condições de conectividade e de competência digital da rede pública, pois assistimos a várias instituições escolares privadas que passaram por apertos significativos; mas é claro, a falta de conectividade na rede privada não é tão expressiva quanto na pública, mas em se tratando de o que e como trabalhar de maneira remota, ambos (público e privado) sofreram um golpe certeiro com este momento tão particularmente caótico advindo da covid-19", refletiu.

"Em uma perspectiva de análise da complexidade, como me inspira Edgar Morin, este é um típico momento em que as incertezas aumentam e que nos colocam em um sistema profundamente perturbado e, ou bem criamos uma situação inovadora ou seremos obrigados a regredir ao passado", avaliou Fernanda. Ela é docente da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) no curso de Pedagogia e cursos de Licenciatura e assessora pedagógica do Departamento de Desenvolvimento Educacional (DDE) da PUC-Campinas. Também é responsável pelo blog IncluEduca&LigaMente.  

"Aos que pensam que o que estamos vivendo é o modelo de ensino a distância, me parece que estão equivocados, pois o que se instalou foi um modelo emergencial de aulas e atividades remotas e não um modelo em EaD", avaliou Fernanda. "A educação a distância também requer um aprendizado planejado, tal como ocorre em situações presenciais. Ocorre em espaço diferente de sala de aula e se constitui uma modalidade que exige técnicas específicas de criação, instrução e encaminhamento de atividades. É processo intencional e planejado e não prevê existência a toque de caixa." Leia aqui a entrevista completa com Fernanda, que ainda dá dicas de plataformas totalmente gratuitas para ajudar professores.  

Podcast para alunos da pré-escola  

Para ajudar as crianças em idade de frequentar a pré-escola e em processo de alfabetização (anos iniciais do Ensino Fundamental), em especial as mais vulneráveis, o Unicef lançou o "Deixa que Eu Conto", podcast diário e gratuito para crianças e suas famílias, em tempos de coronavírus. O objetivo é que esse público tenha acesso a atividades que permitam a continuidade das aprendizagens em casa, além de complementar o que escolas e professores já estão fazendo.
Cada programa tem, em média, 30 minutos, e há diferentes opções para acessá-los. Quem tem Spotify pode seguir o canal gratuito do Unicef na plataforma. Outra opção é acompanhar os episódios diariamente no YouTube.  

Como não é preciso fazer download ou ter um app instalado, o canal do YouTube pode ser acessado facilmente mesmo por quem tem um pacote simples de internet.

Como estão professores?   

Reprodução do site Todos Pela Educação

A organização Todos pela Educação divulgou em seu site a pesquisa 'A situação dos professores no Brasil durante a pandemia", realizada pela Nova Escola entre os dias 16 e 28 de maio de 2020. Entre os principais desafios apontados pelos educadores na pesquisa estão a adaptação ao formato, o crescimento da demanda de atendimento individual às famílias e a falta de capacitação, de infraestrutura e de contato direto com os alunos.  

Procurei a Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo) para falar deste cenário sob o ponto de vista dos docentes, mas não houve retorno. O Ministério da Educação (MEC) também foi procurado por e-mail e não respondeu.  

Estado com o maior número de matrículas na educação básica , com 10.018.115 inscrições na Educação Infantil e nos ensinos Fundamental e Médio, segundo Resumo Técnico do Estado de São Paulo - Censo da Educação Básica 2019, do Inep/MEC leia o estudo clicando aqui ou veja aqui planilha em excel detalhada, São Paulo, logo no começo da pandemia, iniciou o trabalho com aulas não presenciais e mediadas pela tecnologia, usando o Centro de Mídias de São Paulo, uma iniciativa da Secretaria Estadual da Educação (Seduc-SP).

"Um dos pontos importantes de garantia de acesso (...) é que os aplicativos podem ser acessados por meio de dados patrocinados, ou seja, são gratuitos para o aluno e para o professor. Mesmo que ele não tenha a franquia de internet, consegue navegar livremente pelo aplicativo e ver todos os conteúdos", explicou Bruna Waitman, coordenadora do Centro de Mídias SP. Acrescentou que essa foi uma das ações estratégicas pensadas para garantia de acesso.

"Além disso, a gente sabe que a televisão é um meio de acesso bem democrático, está em quase todos os domicílios aqui do Estado. Por isso, o conteúdo também é veiculado por meio de dois canais de televisão digital aberta, para ampliar o acesso", explicou Bruna. Clique aqui para ver a entrevista completa da coordenadora do Centro de Mídias SP e quais os investimentos feitos pela Seduc-SP.

Inclusão se faz urgente

O fato é que a internet deixou há muito tempo de ser artigo de luxo. Hoje, é uma necessidade. A pandemia só revelou que esse acesso havia ampliado, mas em baixa qualidade. O fato de uma pessoa ter um celular não a torna conectada, se o aparelho não tiver memória e um bom plano de internet. E o uso das tecnologias digitais na educação, acredito que vieram para ficar. Mas, é preciso também formação. Eu mesma tenho dificuldades porque o mundo virtual se atualiza muito rápido. Então, é preciso olhar para o aluno e para o professor com carinho porque estão sob pressão, na minha opinião.

Para você o ano está perdido para seu filho? Repense. Todos os entrevistados afirmaram que não. Para eles, o maior aprendizado foi "a própria capacidade mobilizadora do ser humano", como disse a docente Fernanda Taxa. Paramos um pouco para pensar em nós mesmos e nos idosos, ou ao menos deveríamos. Por outro lado, a pandemia trouxe ainda à tona esse abismo educacional com relação ao quesito da democratização do acesso à internet e às tecnologias digitais.

Com essas aulas on-line, as escolas terão de sofrer uma transformação também porque ou avançamos ou retroagimos. Entramos atrasados na revolução industrial, mas podemos embarcar a tempo na Revolução Digital, que já introduz novas tecnologias disruptivas, como big data, inteligência artificial (IA), nuvem (cloud computing), machine learning, internet das coisas (IoT), blockchain e outras. Então, convido todos a lutar pela inclusão digital e tecnológica como política pública.

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