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A música promove inclusão, transformação e desenvolvimento - 1ª parte

Acontece nesta sexta (30) e sábado (31) o Festival do Anelo e na próxima quarta (4) e quinta (5) simpósio da Unicamp. Todos gratuitos e on-line

| ACidade ON - Circuito das Águas -

Luccas Soares, coordenador geral e fundador da Anelo, segurando uma escaleta na viela onde passou a infância no Jardim Florence
 Se a música é o alimento do amor, não parem de tocar. Dêem-me música em excesso; tanta que, depois de saciar, mate de náusea o apetite. 
William Shakespeare 
 
Viva a música, que nos alimenta do amor! Gosto muito da frase de Shakespeare, que está acima. As notas e os ritmos sempre estiveram presentes em minha vida. Até o silêncio é música, com sua pausa. Presente no nosso dia a dia. Poesia cantada e que nos encanta, que proporciona inclusão. Como, sem falar e entender sequer uma palavra de outro idioma, por exemplo, canto e danço junto com pessoas provenientes de continentes diferentes? A música nos une, nos aproxima e nos eleva, gerando um poder de transformação. Esta é a primeira parte da abordagem sobre o poder da música em nossas vidas.

Luccas Soares é a prova real do poder da música em sua vida e na de centenas de pessoas que passam ou já passaram pela ONG que criou, o Instituto Anelo. Associação civil e sem fins lucrativos que oferece aulas gratuitas de música na região noroeste da cidade de Campinas (SP), completa 20 anos e como parte de sua programação festiva realiza entre esta sexta (30) e sábado (31) seu primeiro festival, o Transforma 2020 - Música & Cidadania. A formatação on-line se deve à pandemia do novo coronavírus.
 
Programação do festival Transforma 2020 - Música & Cidadania
 O evento é online, pelo YouTube. Para chegar até o canal é só clicar aqui e para ter a programação completa clique aqui para ter acesso ao release da ONG. O Anelo começou a projetar a realização do próprio festival após o início da parceria com o Arcevia Jazz Feast, na Itália, seminário anual de jazz e improvisação do qual a instituição campineira participa desde 2015. 

Mas, voltemos à história de Luccas, que está diretamente ligada à do Anelo, palavra que significa "inspiracao, desejo, vontade". Eu já conhecia a história da entidade. Afinal, em 2018, a ONG foi apresentada nacionalmente pelo Luciano Huck, em seu programa Caldeirão do Huck. Para assistir ou relembrar essa participação, clique aqui
 
"Música transforma e cria laços"

O intertítulo entre aspas acima é porque a frase é do Luccas. Autodidata, aprendeu sozinho a tocar teclado, comprado com o trabalho de seu suor. Desde os 8 anos, trabalhava vendendo salgados, sorvetes... o que aparecesse. Praticava a atividade de ambulante no contraturno escolar, pois queria ajudar a mãe nas despesas da casa.

Afinal, com ela, aprendeu a importância de compartilhar. "Lembro-me de minha mãe, um dia, ter deixado de comer parte de seu almoço na casa da patroa para poder dar a janta para mim e minhas irmãs." Sua mãe, que reencontrou aos 7 anos porque foi morar com o pai aos 3, após a separação do casal, foi empregada doméstica. Conseguiu uma casinha, de madeira e lona em uma das vielas da Rua Carlos Roberto Pereira, antiga 149, do Jardim Florence I.  
 
Luccas e seus amigos da Banda Anelo, embrião do Instituto
Foi lá que, aos 16 anos, investiu seu dinheiro na compra de um teclado e decidiu que seria o primeiro músico da família, que recebeu a notícia sem muita empolgação. Junto com amigos, criou a Banda Anelo, que tocava pelas ruas do bairro em cima de um caminhão, com dinheiro pago pelos comerciantes locais em troca de anúncios comerciais. Assim, nasceu o embrião do Anelo.

Hoje, com 40 anos, casado e pai de gêmeos, lembra das aulas de música individuais e gratuitas que começou a dar na viela onde morava, depois passou para um imóvel alugado e hoje está em uma sede própria. "Comecei com 30 alunos e hoje estamos com 500 alunos, em média, de idade entre 5 e 70 anos", contou Luccas. O estudante que falta três vezes no semestre perde a vaga.

E, desde 2011, os professores do Anelo passaram a receber como Microempreendedor Individual (MEI). Mas, continuam a fazer o serviço voluntário dentro da ONG. Confira abaixo o infográfico sobre a história do Anelo.   

Infográfico do site do Anelo
Quer conhecer a história do Luccas, contada por ele mesmo? Confira o vídeo abaixo do TEDxCampinas, postado em seu canal do YouTube. Em tempo, Luccas quer voltar a morar no bairro, onde passou a infância e construiu a sua bela história. 
 
 
As notas da sua partitura de vida

O menino negro, tímido e que tinha vergonha de onde morava, virou referência por causa da música. Luccas escreveu, escreve e escreverá notas nas partituras de vida de cada participante, que compõem sua história com sons, vibrações e ritmos próprios, influenciados pelos ensinamentos do Anelo. Um desses acordes humanos é o estudante Felipe Gomes Gondim (nome artístico Gomesz), hoje com 16 anos e que começou a ter aulas de musicalização na entidade aos 6 anos.

E tudo começou porque professora particular de piano de Felipe pediu a Luccas que seu aluno se apresentasse em um recital do Anelo. Lá, ficou. Aprendeu percussão, percussão com o corpo, ritmos, notas musicais... e muito mais. Continuou com as aulas de piano particular, mas também no Anelo. "Minha mãe me levava duas vezes por semana para treinar piano, podia fazer chuva ou sol", lembrou Felipe.

Depois, entrou na aula de escaleta, teclado de sopro com som de gaita ou acordeão, instrumento muito usado no reggae. "Fiquei por um bom tempo nessa aula e até cheguei a comprar uma escaleta", disse Felipe. Depois, fez aulas de práticas de banda com 8 anos, o mais novo em sala de aula no início, passando por vários professores, como Alê Petrônio, que morreu em setembro de 2013, Dorival Oliveira e Tércio Pereira, sendo que este último "cobrava muito a responsabilidade de estudo, como cuidar e montar o seu instrumento".

Até este momento, Felipe contou que achava as aulas "chatinhas". "Nenhuma criança gosta de estudar nada; isso que é a verdade", disse Felipe. É aí que surge a figura de Elizangela Maria Gomes dos Santos em seu papel de mãe.

"Minha mãe determinava uma hora diária de estudo de piano em casa. Nessa época, eu tinha um pianinho. Como não tinha estante, suporte, colocava o instrumento em cima do balcãozinho da cozinha. Minha mãe, que decorava os exercícios, lavava a louça e eu, de costas para ela, ficava tocando. Eu só podia brincar quando terminasse de estudar. Agradeço hoje muito a minha mãe porque ainda é um sonho meu dar certo com a música, mas tinha preguiça na infância", recordou Felipe.

Valorização da sua história, da sua origem

Segundo Felipe, o Anelo estimulou o gosto de estudar os instrumentos musicais, mostrando o quanto é terapêutico estudá-los. "Além do desenvolvimento intelectual, lógico do cérebro, a música proporciona também desenvolvimento psicológico, porque consegui ter mais autocontrole e aprendi a me conhecer melhor por causa dela."

Dos 12 aos 14 anos, frequentou a prática de banda do professor Rômulo de Oliveira, onde aprendeu música brasileira, como Tim Maia e Djavan. "Foi quando eu encontrei meu gosto musical." Foi nessa época que o Anelo fez a primeira viagem para a Itália. Hoje, é o maior sonho de Felipe participar desse projeto da ONG. "Quero estudar música na Itália, por isso estudo mais ainda."  
 
Felipe Gomes Gondim (nome artístico Lipe Gomesz), aluno da Anelo, lançou "Sobre nós" e diz que música "é mágica"
Também passou a compor música. Pedi para ouvir seu último trabalho, chamado "Sobre Nós". Eu simplesmente adorei! Quer ouvir a música? Basta clicar aqui. "Consegui colocar a minha arte para fora, a minha releitura dos fatos", contou Felipe. Depois, entrou na prática de banda do professor Josimar Prince, considerada a mais "puxada e avançada". "Eu amo as aulas dele e anoto tudo." Ele também teve aulas com Deivyson Fernandes Araújo, hoje voluntário da entidade. "Ele me ensinou a fazer estúdio em casa para gravar as minhas músicas."

Então, tudo que aprende, leva agora para o seu quarto. "Eu era muito escondido dentro de mim, preso, e com o Anelo tive mais facilidade de me expressar e de conviver com gostos e culturas diferentes." Desde 2019, venceu sua timidez e passou a cantar em público. Fez aula de canto com a professora e coordenadora musical Marisa Molchansky, também conhecida como Brisa (seu nome artístico).

"O Anelo me ajudou a valorizar de onde eu vim, a aceitar de maneira positiva de onde eu vim", reconheceu Felipe, referindo-se ao bairro Jardim Florence. "Mesmo faltando coisas em casa, meu pais sempre fizeram de tudo para que eu e meu irmão estudássemos em escola particular, porque era prioridade." E contou o que ouvia na escola particular:

"Sempre enfrentei o preconceito no espaço escolar por ser da periferia. Eu falava que era da região do Campo Grande, do Florence. E o pessoal dizia para os outros terem cuidado porque eu morava na favela. Em aula, vi pessoas desvalorizarem o talento da periferia e a enxergarem apenas como local de violência, mas têm muita coisa boa a ser mostrada. É uma visão superficial e passei a ter vergonha de onde morava. Mas o Anelo me fez enxergar que a periferia é um lugar rico de talentos e foi uma libertação para eu ter orgulho de onde venho. A música me libertou. É mágica!"

Música é libertação

A música me transmite hoje sensações como eu nunca senti antes. Ela me libera de mim mesmo, ela me separa de mim mesmo como se eu me olhasse, como se eu me percebesse de muito longe: ao mesmo tempo ela me fortalece, e sempre após uma noite musical (...) a minha manhã transborda ideias e pensamentos corajosos. É como se eu estivesse mergulhado num elemento mais natural. A vida sem a música é simplesmente um erro, uma tarefa cansativa, um exílio. O trecho foi escrito pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche, em Cartas a Peter Gast, em 15 de janeiro de 1889. Era apaixonado por música e ganhou uma playlist no aplicativo do Spotify.  
 
Adriana Tozzo e suas irmãs, donas da escola Allegretto
Para a pedagoga e musicista Adriana de Fátima Tozzo Silveira, formada em música pelo Conservatório Carlos Gomes e com licenciatura pelo Claretiano, a música faz muito bem ao ser humano. "Se pararmos para pensar, ela está presente em todos os lugares, seja de trabalho, lazer ou estudo", disse. "Muitas pessoas a têm como uma forma de terapia e bem-estar. Ela trabalha a concentração, autoestima, socialização, comunicação, entre outros benefícios." 

Professora de música da escola Allegretto, da qual é proprietária desde 1992 com as irmãs Andreia e Aline, e do Colégio Axis Mundi desde 2005, Adriana lembrou que, neste tempo de pandemia, muitas pessoas tiveram a iniciativa de tentar aprender um instrumento musical. "Com o isolamento social a que fomos sujeitos, a música se tornou, ainda mais, um grande meio de comunicação. Tivemos acesso, por exemplo, a várias lives de bandas e cantores diversos. Por aí, também podemos ver a grande influência que ela tem perante à sociedade."  

A professora Adriana também faz parte do Retreta, um projeto desenvolvido pela Corporação Musical 24 de Junho, famosa 'Banda' de Artur Nogueira, coordenado pelo maestro Ricardo Michelino. O projeto incentiva o início e a prática da musicalização entre pessoas de todas as idades, tendo como prioridade alunos da Rede Municipal de Ensino. Clique aqui para conhecer o Retreta.). Ela ainda faz parte da Orquestra Sinfônica Jovem de Artur Nogueira. Assista aqui uma apresentação da orquestra. 
 
Estimula as percepções humanas  

Mas eu queria saber mais sobre o poder da música. Então, procurei o compositor e matemático Jônatas Manzolli, pesquisador sênior do CNPq e professor titular do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ele combina criação musical contemporânea e cognição musical com foco no diálogo entre música e ciência. "A música é um fenômeno complexo que estimula vários campos da percepção humana", explicou Jônatas.  

"Quando o termo pensar a música ocorre, é mais provável que para maioria das pessoas esse pensar seja o estímulo mental produzido pelos padrões sonoros de uma música, quando é tocada", explicou o professor. "Provavelmente, nos engajamos no ato de cantar em grupo ou, pelo menos, cantando no chuveiro, dançamos ao som da música ou acompanhamos um ritmo com o corpo."  

E completou: "Qualquer que seja nosso nível de especialização e interação com a música, a processamos como padrões auditivos que são escutados ou produzidos por nós". "Também incorporados numa variedade de interações multimodais, ou seja, não apenas vocais, mas motora, tátil e visual." Essas ideias expostas acima podem ser encontradas, em mais detalhe, em dois capítulos que escreveu em 2013 junto com um grupo de pesquisadores no livro: Music, Language and the Brain: a mysterious relationship, editado pelo neurocientista Michel Arbib.  
 
Caso queria se aprofundar no assunto e adquirir o livro, clique aqui.  Você encontra aqui as respostas dadas do professor a duas perguntas feitas pelo Alma Inclusiva.   
 
Simpósio de música  
 
Cartaz do simpósio Identidade Brasileira na Música de Concerto, que acontece entre 4 e 5 de novembro, totalmente gratuito e on-line
 Com o objetivo de oferecer uma reflexão sobre as diversas brasilidades da música de concerto nacional e os caminhos para sua difusão, a Orquestra Sinfônica da Unicamp (OSU) e o Centro de Integração, Documentação e Difusão Cultural (CIDDIC) realizam, entre 4 e 5 de novembro, o Simpósio Identidade Brasileira na Música de Concerto. "Os debates e palestras oferecem uma oportunidade ao público de redescobrir e repensar o que é brasileiro e universal, o que é música popular e música de concerto, para assim, podermos promover com mais carinho o nosso produto cultural", ressaltou, por meio de assessoria de imprensa, Cinthia Alireti, maestrina da OSU e organizadora do Simpósio.  

Se você é fã de música como eu, não pode perder este evento gratuito e on-line. As inscrições podem ser feitas pelo www.bit.do/simposioidentidade e mais informações podem ser obtidas pelo http://bit.do/musicadeconcerto. O evento reunirá compositores, intérpretes, pesquisadores, editores e embaixadores da música brasileira. O release do evento pode ser acessado aqui.  
 
E não se esqueçam, teremos a segunda parte sobre a importância da música em nossas vidas na próxima sexta, dia 6 de novembro. Uma das entrevistadas será a maestrina Cinthia. Convido vocês a nos unir agora por meio da música e não percam o festival do Anelo e o simpósio da Unicamp.
 


Sobre o Blogueiro

Alma Inclusiva

Nice Bulhões é jornalista, disléxica e mãe azul. Pantaneira, nasceu em Corumbá (MS) e mora em Campinas (SP) há mais de 20 anos. Passou por redações de jornais impressos nos dois estados e atualmente faz assessoria de imprensa. No blog, trata de assuntos referentes a todas as formas de inclusão.


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