Publicidade

Blogs e colunas   -   alma inclusiva

A música promove inclusão, transformação e desenvolvimento 2ª parte

Ela tem o mesmo papel da intuição porque nos ajuda a compreender o que está em volta de uma maneira que não sabemos como, diz a maestrina Cinthia Alireti, regente titular da Orquestra Sinfônica da Unicamp

| ACidade ON - Circuito das Águas -

"Aprender a fazer as próprias vibrações. É saber criar a cola para juntar os cacos". Trecho do poema "O último exílio", do músico e cantor Matheus Cuelbas. Foto: Ri Butov por Pixabay
Viver! / E não ter a vergonha / de ser feliz / Cantar e cantar e cantar / A beleza de ser / Um eterno aprendiz... / Ah meu Deus! / Eu sei, eu sei / Que a vida devia ser / Bem melhor e será/ Mas isso não impede / Que eu repita / É bonita, é bonita / E é bonita 

Esse trechinho da música "O que é, o que é?", de Gonzaguinha, me faz voltar no tempo de infância. Tenho a imagem nítida na memória: minha mãe na pia, lavando a louça, e cantarolando, dando ênfase neste trecho da canção. Na verdade, ela cantava isso aos quatro ventos. Por isso, às vezes, me pego cantando, especialmente nos momentos de dificuldades. Aprendiz nessa vida, sinto-me ligada por essa música à minha mãe, minha estrela que brilha no universo há 22 anos. O mesmo sente o meu irmão Nilson. 


Por isso, penso que a música é um elo de amor. É inclusiva. Nos abraça em vários momentos, seja de felicidade ou de dor. É um sonho mágico. E isso me faz lembrar das palavras da maestrina Cinthia Alireti, regente titular e co-diretora artística da Orquestra Sinfônica da Unicamp (OSU). "A minha sensação regendo uma orquestra é sempre de estar realizando o meu sonho... o sonho que já tive, um sonho que tenho, um sonho que continuarei tendo porque é um processo, uma busca por um ideal sonoro, de sentimento."  

Maestrina Cinthia Alireti, regente titular e co-diretora artística da Orquestra Sinfônica da Unicamp (OSU). Fotos: Amaury Simões e Marilia Vasconcellos
Desde pequena, Cinthia se sentiu rodeada pelos instrumentos musicais apresentados por seu pai, que os faziam parecer brinquedos. Pelo rádio, ouvia de tudo. Mas, entre 10 e 11 anos, começou a dar atenção especial à música orquestral que vinha em filmes e apresentações. Formada em regência, composição e musicologia, Cinthia só conheceu sinfônica e ópera anos mais tarde.

Na adolescência, tomou conhecimento da profissão de maestro. "Eu era muito pequena e menina e achava que isso não era coisa para mulheres. Mas, cresceu como um sonho porque reger uma orquestra é a minha maneira de fazer a minha música, que sempre é uma atividade compartilhada. O maestro simplesmente mostra qual o batimento cardíaco da música e os músicos se harmonizam com essa pulsação." Para ler a entrevista completa de Cinthia, clique aqui

Pulsação

"A música pode despertar uma gama sem fim de sentimentos, memórias e afetos", lembrou Fernando Gorodski Reisler, educador do Programa Curumim do Sesc Campinas. Atua desde 2006 como educador e músico popular e é graduado em Educação Musical pela UFSCar. "Pode ser um canal de expressão das profundezas da alma ou representar fruição estética desvinculada de suas questões particulares; algumas são produzidas especificamente para dançar, há ainda as que, na outra extremidade da questão, são concebidas para serem apreciadas sem disputar nossa atenção com qualquer outro estímulo", explicou-me.

Reisler ainda me lembrou outros exemplos em que a canção estabelece outro tipo de relação. "As vinhetas comerciais ou de programas dos meios de entretenimento, o fundo musical´ das salas de espera, elevadores e supermercados, as trilhas sonoras de filmes ou seriados, etc., são exemplos nos quais existe uma relação indireta, a música ocupando um segundo plano, sem deixar no entanto de influenciar o estado das coisas."

A pandemia nos forçou a ficar longe de shows e espetáculos, mas, desde o início da quarentena, Reisler lembrou que o Sesc Campinas vem oferecendo gratuitamente em seus canais de comunicação virtual e redes sociais espetáculos relacionados a diferentes linguagens artísticas, espaços formativos sobre temáticas diversas, atividades esportivas e muitas outras iniciativas que contemplam todas as faixas etárias. "Não deixem de conferir e participar em nossos canais de comunicação: portal sescsp.org.br/campinas; facebook.com/sesccampinas; instagram.com/sescspcampinas; youtube.com/sesccampinas e no twitter.com/sesccampinas." Para ler a entrevista completa de Reisler, clique aqui

Música nunca te deixa só

Aos 13 anos, o estudante Matheus Cuelbas deixou a música entrar de vez em sua vida. "Foi durante a volta de uma viagem que meu pai resolveu colocar um CD da trilha sonora da novela Caminho das Índias", lembrou. "Na segunda faixa, conheci Raul Seixas através da música Eu nasci há 10 mil anos atrás. Fiquei fascinado pela letra, já que gostava muito de escrever e das aulas de história." No início, Matheus achou que Raul era um indiano que falava português. Por sua mãe, logo descobriu que se tratava mesmo era de um baiano.  

Matheus Cuelbas. Fotos: Montagem de arquivo pessoal
"Foi um choque! Já que no CD dizia bem claro que os Caminhos eram das Índias e não da Bahia. Eu entendia as coisas de uma forma bem literal. Alguns falam que era algo comum nos Aspergers, diagnóstico que teria pouco tempo depois", recordou. A partir daí, começou a pesquisar tudo sobre Raul. No meio dessa efervescência pelo "Maluco Beleza", descobriu Legião Urbana, que os pais adoravam. "Foi Renato Russo o cara que me fez tentar compor músicas. Porém, era algo impossível, já que não sabia fazer um único acorde no violão."

Um mês depois de se encantar com o CD Caminho das Índias, resolveu traçar o seu próprio caminho musical, voltou a aprender violão. "Eu já havia tentado, entretanto fiquei traumatizado com a pestana - o professor passava os acordes nas posições mais difíceis e desconfortáveis para meus dedos de novato." Em dezembro de 2014 , achou a escola perfeita, onde está até hoje. "Meu professor é um sujeito incrível: um músico fora de série, um cara que sabe te ouvir quando você está com algum problema e uma pessoa que sempre me encorajou na minha jornada para tentar compor canções. Ele até me propunha temas."

Incrível mesmo! Ainda mais Matheus, hoje com 20 anos, me contando que o professor e o dono da escola foram as primeiras pessoas que pôde chamar de amigos. Emocionei-me. "Eu era bem solitário. Na escola, sempre ficava sozinho. Sempre que alguém roubava meu lugar, eu ia lanchar no banheiro. Não conseguia olhar ninguém nos olhos", contou. Música, escrita e terapia foram e são suas grandes aliadas. "Algo novo que me ajudou a levantar meu astral foi a formação da minha primeira e única banda: Soldado Azul. Foi fantástico, já que estava tocando com dois moleques. Mesmo com a diferença de idade, entramos em sintonia. Chegamos até a fazer uma apresentação de 15 minutos e a gravar um esboço de uma composição minha no home estúdio de outro amigo que a vida me trouxe: meu professor de canto."

Perguntei ao Matheus, então, qual o papel da música em sua vida. E ele me respondeu: "A música fez um papel de um amigo que me trouxe outras preciosas amizades. Sem dúvida, a música salvou minha vida. Por mais que a escrita seja bem importante, é uma atividade bem solitária, enquanto que a música me tirava dessa silenciosa zona de conforto. Ela me faz mexer o corpo, querer dançar e fingir que estou no palco, tocando e cantando para milhares de pessoas..." Para conhecer as músicas de Matheus, clique aqui. Não podia perder a oportunidade e fui logo pedindo uma poema para ele sobre a sua música. 

Poema de Matheus Cuelbas

Supera barreiras e aproxima  

O músico Bruno Caruso Caldatto tem 26 anos, toca violão e piano e conclui seu curso de Licenciatura em Música na Unis, em Varginha (MG). "A música sempre foi presente na minha vida, desde os 7 anos. Através dela, consegui superar minhas dificuldades de interação social", revelou. "O TEA (Transtorno do Espectro Autista) sempre foi um desafio. Mas, com a música, consegui superar muitas barreiras."  

Bruno Caruso Caldatto Foto: Arquivo pessoal.
Bruno lembrou que, no Ensino Fundamental, junto com um grupo de amigos, ao fazer um trabalho de português, fizeram uma paródia de uma música. "Eu me destaquei no grupo com minha voz. E assim, começamos a ensaiar e montamos uma banda: a Banda FLIP." Eles já fizeram vários shows beneficentes, como na Adacamp, Hospital Boldrini, Ateac, Ong Sonhar Acordado e até programas de TV (Acesso MTV e Point 21 Oficina). Ainda gravaram um CD com músicas autorais.  


No Ensino Médio, a banda continuou com as apresentações. "Nessa época, comecei a me preparar para a o vestibular, com a ajuda de meus professores e tutores, fui aprovado na Unis, em Varginha/MG, no curso de Licenciatura em Música, onde concluí o curso em 2016", contou Bruno, que já gravou o CD solo Bruno Caruso - Inspiração Dos Meus Sonhos e fez um canal com seus clipes no YouTube. As músicas da banda podem ser acessadas em outro canal, clique aqui. Atualmente, está com novo projeto e novo CD. "A música sempre foi minha grande paixão."

Paixão dentro da família

Não tem como falar de música e eu não me lembrar de meu primo Rodrigo Thomaz Caballero Moraes, de 40 anos. Natural de Campo Grande (MS), é músico, cantor, compositor e educador social. Aos 8 anos, já tocava teclado, reproduzindo músicas ao ouvi-las. Aos 15 anos, montou a banda Maia Blue, no bairro Arnaldo Estevão de Figueiredo, com os integrantes que mais tarde, em 98, formariam a banda Loa Loa.   

Rodrigo Thomaz Caballero Moraes Foto: Montagem de arquivo pessoal

Em 97, Rodrigo Moraes formou dupla com o cantor e percussionista CaduNahas, tocando no Mister Grill, que hoje é a Cachaçaria Água Doce, em Campo Grande. Também formou um trio com o baterista da banda Vaticano 69, Alex Kundera, que tocava timba, e com o cantor Carlos Mona.  

Em 98, formou a banda Loa Loacuja. Essa banda apresentou em muitas cidades do Estado de Mato Grosso do Sul. Em 2003, no Festival de Inverno em Bonito foi considerada a melhor banda local do evento, abrindo shows como O Rappa, Zé Ramalho, Los Hermanos, Cássia Eller e outros renomados músicos nacionais. No final de 2002, meu primo deixou a banda Loa Loa e montou a banda Caballeros e gravou o CD Dentro da minha Cabeça, trabalho autoral onde a música de mesmo título foi uma das mais tocadas na 104.7 FM Rádio Educativa neste ano.

Ufa! É estrada. Tem mais de 60 músicas autorais e é influenciado por Zé Ramalho, Renato Russo, Djavan, O Rappa, Pink Floyd, Capital Inicial e Geraldo Roca. Hoje, Rodrigo é cantor gospel, mas realiza produções e trabalhos autorais em todos os estilos. E o mais legal, meu primo participa de um projeto de inclusão social, chamado Revitalize Agora.  

"Este projeto visa inserir jovens que perderam tudo, no mercado de trabalho e convívio social", contou. Segundo Rodrigo Moraes, a música é um fator influenciador na vida do indivíduo.

"Na experiência que tenho na luta contra dependência química, vejo muitas pessoas se abrirem a uma nova realidade de mudança de vida, através do efeito que a música exerce na mente da pessoa", disse Rodrigo Moraes. "Hoje, tenho a música como minha principal arma na luta contra dependência química, seja ela em forma de adoração a Jesus Cristo ou a música meramente tida como entretenimento." Ficou curioso para conhecer o trabalho da banda Caballeros? Clique aqui para assistir ao clipe da música A espera da Maré. 

"Sentimento oceânico que nos habita"   

Rafael Barzagli Oliveira, coordenador do grupo de Dança do CCA/PROEXT da PUC-Campinas

O poder da música é "enorme" para o trabalho e vida do professor e dançarino de dança contemporânea Rafael Barzagli Oliveira, coordenador do grupo de Dança do CCA/PROEXT da PUC-Campinas, onde também atua como coreógrafo. "Sendo arte, ela é a manifestação que dá sentido às percepções ancoradas no corpo e refletidas em nossa psiquê. Talvez seja a música o som do sentimento oceânico que nos habita."

Apesar de artes distintas, dança e música têm relação muito próxima. Mas, segundo Rafael, é preciso ficar atento porque dança também acontece sem música. "Aquele que acredita que a dança está para música como as ovelhas estão para o pastor, se engana. Se a dança fosse mesmo uma concretização da música, não seria dança, mas sim música concreta", disse. 

"Ora, a música é abstrata, o corpo é concreto, talvez as duas instâncias sejam complementares. Com o intermédio do fenômeno dança, ação possivelmente perpetrada pelo tal corpo concreto, podemos quem sabe fruir a música não somente na chave racional, e de julgamento precipitado, calcado no parâmetro único, exclusivo e pobre do gosto." Clique aqui para ler a entrevista completa de Rafael.  

Inclusão, transformação e magia

Na 1ª parte da abordagem sobre o poder da música, o músico Luccas Soares, coordenador geral e fundador do Instituto Anelo, mostrou que a música tem o poder de transformação, inclusão e de criar laços. Não é à toa que a Anelo tem belas histórias como a do professor de violão Levi Macedo, que entrou como aluno na Anelo aos 12 anos. Hoje, com 27 anos, busca ensinar para que outras pessoas "experimentem o bem que a música faz". Assista o depoimento de Levi abaixo:  

 

Chegamos ao fim de mais uma abordagem sobre o poder da música, que leva, muitas vezes, a nos desperta o sentimento de amor. E quer mais beleza que um pai fazer uma música aos seus recém chegados gêmeos Rebecca e João? Luccas diz não ser compositor, mas a inspiração bateu e não podia perder a oportunidade. 

 

Então, pensei em terminar essa abordagem na próxima terça, indo para a terceira parte. Isso só para terminar com música, ou seja, não falando sobre ela, mas cantando e tocando, como um agradecimento a esta arte, que nos une, nos inspira e nos inclui no sentido mais amplo da palavra. Convite feito a algumas pessoas para composições sobre o poder da música. Aguardo ansiosa. Ops! Abro também o convite a quem quiser enviar um vídeo com uma composição própria sobre o poder da música. Até a próxima sexta-feira.


Sobre o Blogueiro

Alma Inclusiva

Nice Bulhões é jornalista, disléxica e mãe azul. Pantaneira, nasceu em Corumbá (MS) e mora em Campinas (SP) há mais de 20 anos. Passou por redações de jornais impressos nos dois estados e atualmente faz assessoria de imprensa. No blog, trata de assuntos referentes a todas as formas de inclusão.


Publicações


Facebook


Publicidade

Publicidade