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Robótica educacional promove inclusão e mais oportunidades

Um exemplo é o desempenho na Olimpíada de Robótica de alunos do Grupo Primavera, entidade que atende jovens em situação de vulnerabilidade social

| ACidade ON - Circuito das Águas -

Alunos de Robótica do Grupo Primavera com a "mão na massa". Foto: Divulgação

Ao ver a robô Rosie, empregada doméstica da família dos Jetsons, clássica animação dos anos 60, em propaganda de um banco privado, refleti o quanto estamos imersos em tecnologias mecânicas automáticas e controladas por circuitos integrados, a chamada robótica. E pensei nessas gerações mais novas que amam tecnologias e inovações. Como seria bom que todos tivessem acesso à robótica pedagógica, pois ela promove inclusão sócio-digital e a democratização do conhecimento.

O grande problema é o alto custo da robótica, o que dificulta o acesso. Mas, quando é proporcionada, ela faz muito mais do que oferecer conceitos multidisciplinares, como física, matemática, geografia e raciocínio lógico. Ela faz com que haja interação entre os alunos, trabalho em equipe e, o mais importante para mim, cria maiores oportunidades. "Eu nunca havia participado de um curso de robótica e, na verdade, embora eu conhecesse o termo robótica eu não fazia ideia do que se tratava ou o que era feito", contou Aline Teixeira Ramos, de 17 anos, estudante de escola pública.  

A estudante de escola pública Aline Teixeira Ramos, de 17 anos, faz aulas de robótica no Grupo Primavera
Ela está entre os 11 alunos do curso de Robótica do Grupo Primavera que participaram da Modalidade Prática Virtual da Olimpíada Brasileira de Robótica (OBR), realizada em outubro deste ano. Divididos em quatro grupos, os alunos obtiveram pontuação máxima de 390 pontos, mais que o dobro do ano passado, quando o Grupo Primavera estreou na Olimpíada, participando da etapa regional no Colégio Técnico de Campinas (Cotuca). O desafio na Olimpíada foi realizar o resgate de vítimas de uma situação de desastre, utilizando robôs virtuais em um ambiente simulado.

O Grupo Primavera é uma Organização da Sociedade Civil (OSC) que atende crianças, adolescentes e jovens de 6 a 18 anos, em situação de vulnerabilidade social, moradores da região dos Amarais, principalmente os do entorno do Jardim São Marcos, em Campinas (SP), em programas de educação complementar, cultural e profissional. "Hoje em dia, um curso de robótica, mesmo que seja básico, é muito caro. Se eu tivesse interesse em fazer fora do Grupo Primavera, não teria condições de pagar", afirmou Aline.  

Saiba mais sobre o Grupo Primavera. Foto: Montagem
Democratização do conhecimento

Estudante do 2º ano do Ensino Médio na Escola Estadual Profª Castinauta de Barros Mello e Albuquerque, no Jardim Campineiro, em Campinas, Aline passou a frequentar o Grupo Primavera aos 10 anos. "Foi lá que eu floresci, tive meu desenvolvimento pessoal e aprendi valores que são levados para o resto da vida." Participou de várias atividades em diversas áreas e, em 2019, passou a frequentar as aulas de robóticas, oferecidas gratuitamente pela entidade.

"No início, eu me senti um pouco perdida", relembrou Aline. Acredito que toda a turma se sentiu assim, já que era algo novo, mas, embora estivéssemos um pouco confusos, não estávamos desamparados, os professores sempre tiveram muita calma e paciência ao explicar o conteúdo, e sempre nos incentivaram a compartilhar nossas dúvidas." Perguntei, então, como está hoje. "Tenho mais facilidade em absorver o conteúdo, mas, ainda assim, quando surge alguma dúvida, os professores continuam atenciosos e pacientes, sempre procurando a melhor maneira de explicar."

Eu quis saber quais aprendizados a robótica está lhe proporcionando. "Dos muitos aprendizados que tive, o trabalho em equipe é o principal. Tudo que a gente fez ocorreu em equipe. Duvido que o resultado fosse tão bom se fosse de forma individual. Saber lidar com o não ganhar foi um aprendizado e tanto. Também consegui ser mais atenta aos detalhes, me preparar e organizar antes de participar de qualquer atividade, ser mais paciente e me comunicar melhor com os outros." 

A estudante Aline Teixeira Ramos durante uma competição de robótica. Foto: Divulgação
Na avaliação de Aline, a turma do Grupo Primavera evoluiu muito. "Mesmo diante da situação atual de pandemia, nós nos adaptamos. Nossas pontuações nas competições foram superiores às do ano anterior e a nossa interação como equipe foi fantástica; embora não tenhamos conseguido passar para a próxima fase da competição. Mas, isso não foi motivo de tristeza e, sim, de motivação para, no próximo ano, participarmos novamente e darmos o nosso melhor."

Acesso gera oportunidades

Para o professor de robótica do Grupo Primavera, Rony Deikson Macedo Santana, que também é economista e está cursando Ciências Naturais e Matemática, o curso é "uma oportunidade para os jovens e adolescentes adquirirem conhecimentos de Robótica (eletrônica e programação), aliados às habilidades de trabalho em equipe, planejamento, cooperação, diálogo, pesquisa e tomada de decisões". Ele explicou que o curso é dividido em dois módulos, sendo o primeiro com temática mais voltada ao lúdico, com kit Lego® Education, e o segundo, com a plataforma Arduino, para aprofundar mais os conhecimentos técnicos e dar uma formação básica para projetos de automação e tecnologia.

Perguntei ao professor como as crianças e adolescentes conseguem chegar até o curso. "Divulgamos o curso nas escolas da região e convidamos a comunidade para participar, mais especificamente os jovens de 14 a 16 anos, em situação de vulnerabilidade social, moradores da região dos Amarais. Após isso, no início do ano, promovemos uma reunião de apresentação do projeto e os alunos interessados passam por uma entrevista socioeconômica com nossas coordenadoras." Ele explicou que os materiais usados são os kits Lego® e Arduino e outros itens diversos, como papelão, cola, embalagens plásticas reutilizadas, dentro outros, além da sala de informática do Grupo Primavera.

Apoio da iniciativa privada

Este ano, o curso tem como patrocinadoras as empresas Ci&T, TozziniFreire Advogados, Pastifício Selmi, DHL e SolEnergia, por meio de projeto de incentivo fiscal da Lei Rouanet. Sem esse apoio, a instituição não teria como oferecer o curso, que existe há cinco anos. Seria maravilhoso que mais empresas apadrinhassem outras instituições e que continuassem a ajudar o Grupo Primavera para que o projeto tenha vida longa. Os empresários reclamam tanto de falta de mão de obra especializada e essa é uma ótima oportunidade para ajudar no desenvolvimento de pessoas e das cidades.

Nas aulas de robótica do Grupo Primavera, os alunos fazem projetos de automação e outros mais lúdicos, sempre aliados com uma base teórica, segundo o professor Rony. "No ano passado, por exemplo, um grupo de alunos construiu um projeto de automação de irrigação da horta do Grupo Primavera, utilizando a plataforma Arduino, junto com alguns pedaços de mangueira e braçadeiras, deixando uma herança para a instituição. Assim a horta poderia ser irrigada sempre que o sistema detectasse o solo seco."  

O professor de robótica do Grupo Primavera, Rony Deikson Macedo Santana, dando aulas aos alunos. Foto: Divulgação
Na avaliação do professor Rony, esse exemplo mostra que, por meio da construção de projetos como esse, os alunos percorrem uma trilha de conhecimento e aprendizado rica e repleta de experiências positivas e adquirem conhecimentos práticos. "Os materiais principais foram adquiridos pela instituição junto às empresas e entidades parceiras do projeto. Mas, em diversos projetos, nós também utilizamos materiais recicláveis e reutilizados, às vezes, trazidos pelos próprios alunos. Em 2019, por exemplo, um grupo de alunos construiu uma mão biônica com papelão e um tubo de caneta Bic."

Efeitos na sociedade e da pandemia de Covid-19

As aulas sempre foram presenciais, no próprio Grupo Primavera, com uso da plataforma educacional Google for Education para dar suporte e armazenar os conteúdos. "Este ano, devido à pandemia, fizemos 100% das aulas on-line pelas plataformas Discord e Google Meet", explicou o professor Rony. Mesmo assim, participaram da Olimpíada. Quer saber mais sobre essa participação? Clique aqui para ler o release do Grupo Primavera. "Essas competições de robótica geram engajamento e reforçam diversas habilidades que valorizamos durante o projeto."
 

"Fornece aos jovens a oportunidade de trabalharem tais habilidades desde cedo, o que, certamente fará toda diferença na hora de realizarem projetos maiores em suas vidas,  
ou mesmo, quando ingressarem no mundo do trabalho." 
- Professor de robótica do Grupo Primavera, Rony Deikson Macedo Santana  
 
Na avaliação do professor, o impacto da robótica educacional oferecida no Grupo Primavera é real e importante na vida dos jovens atendidos. "Atendemos uma comunidade com muitas situações de vulnerabilidade causadas por problemas sociais e que, fora do projeto, encontram pouquíssimas oportunidades como essa que estamos oferecendo." E o aluno ganha o poder de questionar, pensar e procurar soluções ao sair da teoria para a prática, usando ensinamentos das oficinas.

E o professor vai ainda além: "O curso possibilita que os jovens e adolescentes desenvolvam capacidade para formular e equacionar problemas. Isso proporciona uma interação dos jovens com novas tecnologias, desenvolvendo o espírito cooperativo e estimulando o crescimento individual através da troca de ideias. Nesse sentido, o projeto, além de incluir crianças e adolescentes no universo tecnológico, também desempenha papel social fundamental ao gerar atividades extracurriculares, distanciando alunos das situações de risco e levando-os a conhecer o mundo acadêmico, bem como criar oportunidades para optarem pela área tecnológica no futuro. Por isso, criamos caminhos para esses jovens vencerem diversas dificuldades impostas em suas realidades cotidianas."

Robótica inclui sim

Para o matemático e professor de robótica Fabiano de Abreu, que dá aulas na Escola Sistema Educacional Realidade (Escola SER), em Campinas, quem trouxe a interação e a inclusão para a robótica foi a Lego®. "O material da Lego® proporciona uma cadeia de atividades, já que cada aluno precisa fazer uma parte do processo e, com isso, a equipe se forma com cada um dando a sua contribuição." Ele explicou que nenhum aluno tem todas as habilidades que a robótica exige, mas cada um tem uma habilidade muito boa em algo e, ao juntar essas habilidades, a equipe se completa.

"Todas as pessoas são diferentes e especiais, cada uma com as suas dificuldades e habilidades. A inclusão é necessária com todos os alunos. Nós adultos, escondemos as nossas falhas, mas a inclusão também é feita com a gente e, na maioria das vezes, nem percebemos. Todos nós temos dificuldades", avaliou o professor Fabiano. "Por isso, a robótica educacional é inclusiva porque cada equipe de quatro alunos age de uma maneira e, ao mesmo tempo, um precisa cooperar e compartilhar com o outro para que o robô se forme e funcione."   

O matemático e professor de robótica Fabiano de Abreu diz que quem trouxe a interação e a inclusão para a robótica foi a Lego®. Foto: Divulgação
Com Ensino Fundamental feito no Sesi de Valinhos e o Ensino Médio concluído na Escola Estadual Vitor Meirelles, em Campinas, o professor Fabiano fez graduação em Matemática na Universidade São Francisco de Itatiba, onde fez curso de robótica em engenharia. Especialista em Modelagem Matemática pela Unicamp, realizou várias palestras sobre "A presença da matemática no nosso cotidiano". Lecionou em várias escolas e, além de dar aulas na Escola Ser, leciona também na Escola Estadual Coriolano Monteiro, desde 89.

"Amo fazer parte desse processo de inclusão. Eu, como professor de matemática, enxergo em cada aluno um talento nato dentro da minha matéria e respeito as dificuldades; valorizo as habilidades de cada estudante, visando ajudá-lo a superar barreiras", explicou o matemático Fabiano. "A robótica desenvolve tudo, principalmente a parte de raciocínio lógico e a interação social, com respeito mútuo ao saber ouvir e falar. Sem contar que a aprendizagem fica mais fácil com o uso do material da Lego® ao reforçar a teoria."

Ajuda pedagógica

A chamada "cultura maker" abriu espaço para o surgimento de negócios que unem tecnologia e educação. A VIAMAKER® Education, uma empresa brasileira com atuação em todo território nacional e especializada em integrar novas tecnologias à educação, com sede em Sorocaba, é uma das iniciativas do setor. Segundo Gabriel Nascimento Gomes, orientador pedagógico da VIAMAKER®, o aprendizado da robótica na infância traz inúmeros benefícios. "Além de capacitar a criança para um futuro tecnológico, a robótica educacional ajuda a desenvolver habilidades sensíveis, como liderança, organização, trabalho em equipe e comunicação, as quais são diferenciais no mercado de trabalho."

Hoje, a VIAMAKER® assiste o Educandário Bezerra de Menezes, ONG que fica em Sorocaba. Fundada em 1953 e que tinha como objetivo ajudar crianças abandonadas pelos pais como um internato, alterou seu atendimento em 96 por conta de mudanças na legislação. Hoje, os atendidos recebem atividades lúdicas e recreativas, atividades esportivas, pintura, artes, rodas de conversa, educação ambiental, música, teatro, entre outras, baseadas nos fundamentos cristãos, ampliando sua jornada escolar. Atualmente, o Educandário atende crianças entre 6 e 14 anos, possibilitando seu desenvolvimento humano e social.

"A VIAMAKER® fez a doação dos kits tecnológicos Lego® para o Educandário e treinou os educadores a aplicar uma metodologia ativa STEAM (que une os conceitos de ciência, tecnologia, artes, engenharia e matemática nos projetos educacionais para provar que a interdisciplinaridade pode ajudar no desenvolvimento do aluno) para o ensino da robótica em forma de oficina", contou orientador pedagógico Gabriel. "Esses educadores são assessorados regularmente pela VIAMAKER® para verificar o trabalho que estão fazendo e prestar ajuda pedagógica."

Esse empenho mútuo resultou na premiação da equipe de Robótica do Educandário no último Festival de Robótica, segundo orientador pedagógico Gabriel. Acrescentou que as aulas de robótica ajudam no desenvolvimento das habilidades em torno do pensamento computacional, como raciocínio lógico, decomposição de problemas, ou seja, dividi-lo em pequenas etapas, abstração por reconhecer prioridades e padrões de soluções. "O exercício do pensamento computacional permite a solução de problemas do dia a dia com mais facilidade", explicou.    

Segundo Gabriel Nascimento Gomes, orientador pedagógico da VIAMAKER®, o aprendizado da robótica na infância traz inúmeros benefícios. Foto: Divulgação
Ensino lúdico com Lego®

A robótica também funciona como uma iniciativa científica, fazendo com que o aluno se interesse pela área de tecnologia e ciências, de acordo com orientador pedagógico Gabriel. "Além disso, o estudante passa a entender mais sobre algumas matérias por fazer experimentos práticos de alguns assuntos trabalhados nelas. Por exemplo, através da robótica consegue-se demonstrar porque a fórmula do movimento uniformemente variável é uma equação do segundo grau. Isso não se limita a matérias da área de exatas, uma vez que a robótica trabalha a multidisciplinaridade."

O uso do Lego® para aplicação da robótica possibilita trabalhar a criatividade do aluno de uma maneira lúdica e sua habilidade motora. "Muitos alunos com problemas de socialização e aprendizagem são ajudados pela robótica", explicou orientador pedagógico Gabriel. "O professor tem liberdade de criar diferentes desafios para os alunos, fazendo com que eles vençam suas dificuldades num ambiente descontraído e participativo. O teor mão na massa facilita o entendimento de muitos que possuem dificuldades de absorver conceitos trabalhados em sala de aula de maneira passiva. A Robótica descentraliza o aprendizado, dando a todos os alunos a oportunidade de criar e colaborar com seus colegas, partilhando do seu conhecimento e muitas vezes surpreendendo o professor."

Quem nunca quis uma robô Rosie dos Jetsons para fazer os afazeres domésticos ou quis ter um carro que se transformasse em um robô, assim como em Transformers? Parece sonho de criança, né? Muitas inovações já fazem parte do nosso dia a dia ou existem, mas ainda com preço bem salgado. O fato é que quem não estiver antenado a elas poderá ter menos chance no mercado de trabalho e na realização de atividades triviais no futuro. Por isso, o ensino da robótica precisa ser ainda mais ampliado, com a ajuda da iniciativa privada. Só assim, estaremos promovendo a inclusão sócio-digital e a democratização do conhecimento a todos! Que a robótica chegue a todas as escolas!  


Sobre o Blogueiro

Alma Inclusiva

Nice Bulhões é jornalista, disléxica e mãe azul. Pantaneira, nasceu em Corumbá (MS) e mora em Campinas (SP) há mais de 20 anos. Passou por redações de jornais impressos nos dois estados e atualmente faz assessoria de imprensa. No blog, trata de assuntos referentes a todas as formas de inclusão.


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