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"Nossa deficiência não nos define", afirma mensagem de atletas paralímpicos brasileiros

A frase consta no manifesto do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) e visa sensibilizar e fomentar uma reflexão a respeito dos desafios enfrentados pelas pessoas com deficiência no dia a dia. Associação Paraolímpica de Campinas apoia ação

| ACidade ON - Circuito das Águas -


Uma das fotos do ensaio fotográfico, produzido pela fotógrafa do CPB, Alessandra Cabral, visando a valorização dos corpos dos atletas com deficiência
"Nossa deficiência não nos define". Esta é mensagem do vídeo "Manifesto Paralímpico", lançado no último dia 3 pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) em comemoração ao Dia Internacional das Pessoas com Deficiência. A data foi estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1992. Assisti somente esta semana ao vídeo, quando tive conhecimento da manifestação. Leia a versão impressa aqui. Minha admiração só aumentou por esses atletas paralímpicos fora e dentro das quadras, das pistas, das piscinas, enfim... de seus espaços esportivos de competições. Confira abaixo o vídeo do CPB. 

 

O manifesto, segundo matéria do CPB, "tem como objetivo sensibilizar e fomentar uma reflexão a respeito dos desafios enfrentados pelas pessoas com deficiência no dia a dia, e como transformar a infraestrutura e os serviços em ambientes sustentáveis, seguros e acessíveis". Além do texto e do vídeo, foi feito ainda um ensaio fotográfico, produzido pela fotógrafa do CPB, Alessandra Cabral, visando a valorização dos corpos dos atletas com deficiência. Clique aqui para ter acesso a todo esse material e ser direcionado ao site do Comitê.  

E, nesta sexta-feira (11), em uma parceria inédita, o CPB e o Tik Tok, rede social voltada para vídeos de curta duração, realizam mais uma live. Desta vez, é com o lançador de dardo Jair Henrique, com o tema "Esporte paralímpico com humor". Jair possui nanismo e compete na classe F40. Em 2019, ele conquistou a medalha de ouro no lançamento de dardo e bronze no arremesso de peso nos Jogos Parapan-Americanos de Lima. A live acontece às 19h30 no perfil oficial do Comitê na plataforma (@cpboficial). 

Pessoas com deficiência no Brasil

O poder transformador do esporte, além de contribuir nas partes física e psicológica, promove a inclusão das pessoas com deficiência na sociedade. Mas, quantas pessoas com deficiência há no país? De acordo com o último Censo Demográfico do IBGE, 45,6 milhões de pessoas declararam ter pelo menos uma deficiência, seja do tipo visual, auditiva, motora ou mental/intelectual. Esse contingente representava 23,9% da população brasileira em 2010, com dificuldade em ouvir, enxergar e caminhar ou subir escadas, mesmo contando com facilitadores como aparelhos auditivos, lentes de contato e bengalas.

Entretanto, esse número de pessoas com deficiência sofre uma redução quando aplicada uma linha de corte, recomendada para assegurar a comparabilidade internacional entre os países membros do Grupo de Washington (GW) de Estatísticas sobre Deficiência, vinculado à Comissão de Estatística da ONU, conforme nota técnica do IBGE. Clique aqui para ter acesso ao documento. 

Com a aplicação dessa linha de corte, o Brasil passa ter 12.748.663 pessoas com deficiência, ou 6,7% do total da população registrado pelo Censo Demográfico 2010. Veja quadro abaixo para entender a diferença entre as análises e clique aqui para ter acesso ao material completo, disponibilizado no site da Câmara dos Deputados. Esse número com corte se aproxima mais da divulgação sobre pessoas com deficiência da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2013. 

Reprodução do site da Câmara dos Deputados
Independente da tipo de análise dos dados coletados, as pessoas com deficiência precisam de políticas públicas específicas. Fui atrás, então, de informações para saber como as prefeituras atendem esses cidadãos. Segundo a Pesquisa de Informações Básicas Municipais (Munic) de 2014, também do IBGE, a maioria das prefeituras não promove políticas de acessibilidade, tais como lazer para pessoas com deficiência (78%), turismo acessível (96,4%) e geração de trabalho e renda ou inclusão no mercado de trabalho (72,6%). Antes de serem atletas paralímpicos, são cidadãos.

Dificuldades, persistência e luta

Os dados são ótimos para planejamento e implantação de políticas públicas. Mas, queria saber como era o dia a dia de um atleta paralímpico. Buscando pela internet, caí em uma matéria da Fundação Feac (leia aqui a matéria que li) e descobri a Associação Paraolímpica de Campinas (APC).  

Entrei em contato com Luiz Marcelo Ribeiro da Luz, gerente de Projetos da APC, que me indicou para falar com Gisele do Nascimento Pacheco, que tem perda total da visão e é atleta paralímpica na categoria natação S11, para nadadores com baixa acuidade visual sem percepção da luz. Liguei quase na hora dela ir para a aula de pilates. Ela já tinha conhecimento do manifesto do CPB. "É isso aí, queremos o respeito e a empatia das pessoas", disse. Hoje, é uma das três melhores no país em sua categoria S11, às vezes no 100 peito ou 200 Medley. Mas, compete em todos os estilos.  

Gisele do Nascimento Pacheco, que tem perda total da visão e é atleta paralímpica na categoria natação S11, mostrando as suas conquistas
Desde 2011, Gisele está na APC. Como qualquer atleta de alto rendimento, treina muito. "Antes da pandemia de Covid-19, treinava de segunda a sábado, sendo 1 hora e meia na academia e 2 horas na piscina por dia. Com o isolamento social, os treinos passaram a ser on-line, oferecidos pela APC, que ainda realiza acompanhamento nutricional e psicológico", explicou Gisele. "Estou ansiosa porque todos os calendários de competições foram suspensos e espero que saiam logo, em janeiro de 2021, para eu poder planejar melhor o meu treinamento."

Para ela, a principal dificuldade está na mobilidade urbana. "Todo mundo se lembra, primeiramente, da falta de patrocínio, mas antes disso precisamos chegar ao treino. A falta acessibilidade ainda é um problema enfrentado diariamente por nós. Ela tira chances reais de um futuro grande atleta. Ele pode ser excelente na sua categoria, mas, se não consegue se locomover para chegar ao treino, não terá como participar de competições." Um exemplo, segundo ela, é o ônibus ser equipado para receber um cadeirante, mas o elevador não funcionar.

Outra grande dificuldade é o fato de os ônibus em muitas cidades, como Campinas, não terem mais a função do cobrador e ainda terem reduzido o espaço próximo ao motorista, retirando os bancos, de acordo com Gisele. "No caso dos cegos, esses bancos eram importantes por conta da comunicação com o motorista, que parava no local falado e podia ver a pessoa descendo, reduzindo qualquer risco de acidente, como uma queda. E agora os cegos dependem da ajuda de outras pessoas até para puxar a campainha."

E ainda há a dificuldade de entrar no ônibus certo. "Até tem aplicativo que te avisa que seu ônibus está chegando, mas quando param dois ou mais no ponto, em qual entrar? Esses dias, eu fui avisada do ônibus chegando pelo aplicativo e dei sinal, mas parei um caminhão de lixo. Não tinha ninguém no ponto. E só descobri porque o motorista do caminhão falou e disse que o meu ônibus estava vindo." Os treinos de Gisele na piscina acontecem no Sesi Santos Dummont, em Campinas. Já o do pessoal do atletismo é realizado no Centro Esportivo de Alto Rendimento.  

Atleta Cleiton Lopes e o seu guia João Giovanni durante prova do Campeonato Brasileiro de 2019. Foto: APC
Atleta paralímpico Alan Fonteles durante prova do Campeonato Brasileiro de 2019. Foto: APC
Associação Paraolímpica de Campinas

Como qualquer outro atleta de alto rendimento em nosso país, os atletas paralímpicos deveriam ser admirados pelas conquistas diárias. "O problema é que não somos reconhecidos, nem chegamos perto ao reconhecimento dado a um jogador de futebol, por exemplo", disse Gisele. Para Luiz Marcelo, gerente de Projetos da APC e doutor em Educação Física Adaptada pela Unicamp, os atletas paralímpicos "necessitam de reconhecimento, respeito e apoio." Por isso, segundo ele, a APC apoia o manifesto do CPB.  

Luiz Marcelo Ribeiro da Luz, gerente de Projetos da APC: "Os atletas paralímpicos necessitam de reconhecimento, respeito e apoio." Foto: Arquivo pessoal

De acordo com Luiz Marcelo, no período de 2007 a 2020, a APC atendeu aproximadamente 1.300 alunos/atletas ligados às modalidades natação, atletismo, judô, rugby, goalball, futebol de cinco e bocha. Eles competiram e representaram o município, o Estado e o país em Campeonatos Mundiais, jogos Parapan-Americanos, meetings, campeonatos brasileiros, estaduais, Circuito Brasil Loterias Caixa e nos Jogos Regionais e Abertos do Interior, "sempre com destaque e ótimos resultados nas principais competições".

Mas, com a pandemia de Covid-19, a entidade está atendendo de maneira reduzida, em torno de 40 atletas/alunos. "Por sermos uma Associação sem fins lucrativos, é sem dúvida a manutenção financeira dos projetos que dão apoio aos atletas e possibilitam a contratação de profissionais." Quer conhecer um pouco mais da APC e saber os contatos para ajudar? Clique aqui e tenha leia a entrevista completa de Luiz Marcelo.  

Atleta Thiago de Oliveira e o técnico Maurício Duran durante treino. Foto: APC
Você sabia que o Brasil é uma potência no esporte paralímpico? De acordo com o CPB, a participação brasileira "nos Jogos Paralímpicos de 2016, quando ocupou o oitavo lugar no quadro geral de medalhas, demonstrou novamente a força do país no paradesporto." Para Tóquio 2021, o objetivo do CPB é que o Brasil fique entre as 10 primeiras colocações no quadro geral de medalhas. Então, é hora de a sociedade reconhecer e dar mais apoio a esses atletas. Viva o esporte paralímpico como inclusão e motivo de orgulho para os brasileiros!




Sobre o Blogueiro

Alma Inclusiva

Nice Bulhões é jornalista, disléxica e mãe azul. Pantaneira, nasceu em Corumbá (MS) e mora em Campinas (SP) há mais de 20 anos. Passou por redações de jornais impressos nos dois estados e atualmente faz assessoria de imprensa. No blog, trata de assuntos referentes a todas as formas de inclusão.


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