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A dislexia, que embaralha letras e as confunde com os sons, faz pensar fora da caixinha

É preciso focar e aprimorar os pontos fortes de um disléxico para ver o quão criativo ele é. Afinal, uma pessoa que vive criando estratégias, exercita muito a imaginação

| ACidade ON - Circuito das Águas

Muitos não sabem, mas assim como o autismo, a dislexia também é classificada em diferentes graus, normalmente descritos como leve, moderado e severo. Imagem de Gerd Altmann por Pixabay
Com a pandemia de Covid-19, eu voltei a revisitar minhas memórias de infância. Meu apelido era Cebolinha, personagem da Turma da Mônica. Isso porque trocava letras, como falar teto para dizer dedo. Eu tinha de reler muitas vezes um mesmo trecho de um texto para entender. Mas, como adorava ler e fui persistente na leitura e isso me ajudou muito , acabei absorvendo as formas corretas de escrita.

Mas, ainda hoje, quando estou cansada ou sob algum estresse, volto a trocar letras, falar uma palavra querendo dizer outra, e até mesmo tenho de reler várias vezes um mesmo trechinho de escrita para entendê-lo. Isso acontece porque faço um grande esforço cognitivo quando estou sobrecarregada. Quem me explicou isso foi a fonoaudióloga Fernanda Caroline Pinto da Silva. Você sabe por que isso acontece comigo? Caso não saiba, sou disléxica.

Minha sorte é que minha mãe que tinha dificuldade de pronunciar a letra L sempre focou mais nas minhas qualidades do que nos meus erros. Falar outro idioma é uma missão impossível para mim. Era péssima em inglês e hoje consigo pronunciar algumas frases e palavras na língua do Tio Sam. Então, por isso, foco naquilo que consigo fazer para buscar me aprimorar. E o mais importante é que procuro me aceitar como sou, porque ninguém é igual a ninguém e todos temos habilidades. Não significa cruzar os braços, mas buscar potencializar o que consigo executar e treinar o que não consigo.

Dificuldade em distinguir letra versus som

A Dislexia do Desenvolvimento (DD), segundo a fonoaudióloga Fernanda, do Centro de Investigação da Atenção e Aprendizagem (Ciapre), que fica em Campinas, "é mais do que uma dificuldade de aprendizagem, que pode ser explicada por variáveis pedagógicas, psicossociais, deficiências e transtornos neurológicos ou genéticos". Acrescenta que "os transtornos de aprendizagem possuem uma origem biológica, decorrente da interação de fatores genéticos, epigenéticos e ambientais, cuja principal característica é a presença de disfunção no sistema nervoso central".

Mestre e doutoranda em Saúde, Interdisciplinaridade e Reabilitação, pela Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, e vice coordenadora do núcleo regional Campinas da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil e Profissões Afins (Abenepi), a fonoaudióloga Fernanda explica que o disléxico tem "dificuldade de realizar a correspondência grafema x fonema (letra x som) das palavras e que essa dificuldade prejudica a fluência e a compreensão de leitura, fazendo com que o indivíduo disléxico tenha um baixo desempenho nas habilidades de leitura e escrita, com grande discrepância em comparação às demais habilidades escolares."

Hoje, segundo a fonoaudióloga, a dislexia atinge entre 3% e 7% da população. O diagnóstico precoce é muito importante. "A DD é uma condição que permanece por toda a vida, acarretando diferentes níveis de demandas ao indivíduo, de acordo com os níveis de escolaridade (do processo de alfabetização ao ensino universitário) e contextos sociais. Por este motivo, é importante o desenvolvimento de políticas públicas que garantam a inclusão desses indivíduos em todos os contextos sociais, assim como a eliminação das barreiras existentes." Clique aqui para ler o texto enviado pela fonoaudióloga Fernanda, que trata sobre a dislexia, seu diagnóstico e leis em vigor.  

Se você quer saber mais sobre dislexia, recomendo que conheça o site do Instituto ABCD), uma organização social sem fins lucrativos que se dedica, desde 2009, a gerar, promover e disseminar conhecimentos que tenham impacto positivo na vida de brasileiros com dislexia. Outro site interessante é o da Associação Brasileira de Dislexia (ABD), que foi fundada em 1983, por um pai que, em meados de 1980, recorreu à British Dyslexia Association para encontrar respostas para as dificuldades que seu filho vinha apresentando na escola. No início era apenas um ponto de estudo, de encontro, troca de informações e divulgação da Dislexia com apoio de entidades internacionais. 

     Disléxicos são muitos criativos 

Muitos não sabem, mas assim como o autismo, a dislexia também é classificada em diferentes graus, normalmente descritos como leve, moderado e severo. O grau de dislexia é geralmente categorizado baseado na severidade das dificuldades apresentadas. Eu mesma me enquadro dentro do leve. Vale ressaltar que não tive um diagnóstico médico porque meus pais acreditavam que eu apenas tinha preguiça ou era mesmo desligada. Diante das minhas dificuldades, pesquisei muito para saber o que eu tinha, já que minha memória, por exemplo, também é afetada como esquecer datas, seja de consultas ou aniversários. Por isso, desenvolvi a técnica de anotar e deixar recados para eu mesma. Dislexia é um dom? Clique aqui para ter acesso a um infográfico.   

Segundo Nadine Heisler, cofundadora da Domlexia, uma plataforma online sobre dislexia e outras dificuldades de aprendizagem, a dislexia também traz grandes vantagens de raciocínio e habilidades. "Os disléxicos costumam ter uma forte habilidade criativa, raciocínio interconectado, visão ampla tanto para problemas como para objetos, etc", explica. "Por isso, a intervenção, normalmente conduzida por fonoaudiólogo e psicopedagogo no início de vida escolar, na etapa da alfabetização, é fundamental para que barreiras sejam superadas e as habilidades possam florescer."

Nadine dá algumas dicas de como os pais podem ajudar nesse processo. Uma delas é essa: "A criança precisa perceber que é inteligente e capaz, sua dislexia o atrapalha em algumas coisas, mas facilita outras. Isso pode ser feito através de exemplos como o de alguém que gosta de correr mas tem pernas curtas, isso não quer dizer que ele não possa correr, apenas seu biotipo torna essa atividade mais desafiadora quando se quer ganhar velocidade." Quer saber mais, clique aqui.   

Vale apena conhecer o Domlexia. No site, você encontra conteúdo, cursos, aplicativo, grupo de conversa, testes indicativos e muitos materiais, trazendo conhecimento e soluções para disléxicos, professores, terapeutas, pais e escolas. O que mais gosto é o joguinho online que a Domlexia desenvolveu e que pode ser baixado gratuitamente nas lojas de aplicativos. Chamado "Dom e as Letras", o jogo trabalha a consciência fonológica (relação fonema-grafema, som-escrita). Ele é recomendado para crianças de 6 a 8 anos em fase de alfabetização. O projeto Domlexia já ganhou diversos prêmios nacionais e internacionais, como o Prêmio de Inovação na Educação, no Congresso Internacional de Dislexia de Lisboa, e foi finalista do BIG Festival na categoria Educação.

Blogs que podem ajudar
 


O blog que mais gosto é do Felipe Ponce, o Pippo, empresário do vídeo acima, e que se chama DislexClub. Pippo descobriu que era disléxico aos 10 anos, "depois de muito sofrer durante a alfabetização". Desde 2014, ele mantém o DislexClub no ar a fim de ajudar disléxicos e suas famílias que estão em busca de apoio.

Outro blog legal é Eu e a dislexia. Ele é administrado por Maria Silvana Alves da Silva, professora de Língua Portuguesa e Literatura no Ensino Médio e psicopedagoga clínica nos espaços AMEE e Sinapses em Santo Antonio de Posse (SP). Para criar o blog, Maria Silvana se inspirou, durante as férias de dezembro de 2019, no filme indiano Taare Zameen Par (Como estrelas na Terra, toda criança é especial).

Por isso, termino dizendo que a inclusão dos disléxicos deixa o mundo mais criativo e alegre. E, se você é disléxico como eu, saiba que muitos grandes pensadores foram, como Albert Einstein. Clique aqui para conhecê-los. Por isso, aprimore os seus pontos fortes e aceite que a dislexia faz parte de você. Para te inspirar, como o fez com a blogueira Maria Silvana, termino te convidando a assistir ao filme indiano Como estrelas na Terra, toda criança é especial.  



Ops, já ia me esquecendo, rs. A fonoaudióloga Fernanda me enviou a cartilha que saiu esta semana sobre a correção diferenciada do Enem. "É a primeira vez que temos essa cartilha no Enem!! Super bacana!!!", festejou Fernanda. Clique aqui para ler o material.

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