Aguarde...

Eles também podem usar cabelos compridos

Aquilo que sai do que é considerado normal acaba sendo visto com olhos de desaprovação, afirma a psicóloga Priscila Ribeiro Manzoli

| ACidade ON - Circuito das Águas

Imagem ilustrativa de kaleido-dp por Pixabay
Precisamos desconstruir estereótipos e dar fim a crenças sexistas, que foram criadas e legitimadas pela sociedade no intuito de manter papéis sociais relacionados com os sexos, como "homem tem que ter cabelo curto e não pode chorar" e "mulher tem de ter cabelo comprido e precisa ser delicada e recatada". Para isso, vestimos com camisas-de-força nossas crianças, já que o preconceito nasce dos adultos e é repassado a elas.  

Falo dessa visão diante da recente notícia do estudante Pietro Augusto Alves Falcão, de 11 anos, morador da cidade de Aquidauana (MS), que deixou o cabelo crescer por um ano para doar a pessoas com câncer. O gesto nobre, que não é único - basta fazer uma busca pela internet para ver outras notícias semelhantes -, trouxe momentos de tristeza para esse menino generoso.  

Mesmo diante do preconceito e do bullying, Pietro persistiu e deu uma lição de paciência, amor, resiliência e empatia. Ao invés de escrever, pedi para Pietro e sua mãe Suene de Melo Alves que contassem essa história. Confira o vídeo.  


Não ao preconceito

Mesmo que Pietro simplesmente quisesse ficar com o cabelo comprido por gostar, seria um direito dele. É uma falácia dizer que as madeixas compridas confundem a cabeça dos meninos, como se esquecêssemos que em outras épocas da história os homens tinham cabelos compridos e, ao longo do tempo, encurtaram devido a estratégias de batalhas.  

O personagem bíblico Sansão tinha a sua força em seus cabelos compridos. E a imagem que temos de Jesus Cristo, como é mesmo? Então, por que precisamos ser tão cruéis com meninos de cabelos compridos? Caímos na armadilha de transformar convenções sociais em valores absolutos, na minha avaliação.  

A sociedade muda os costumes, mas parece que elegemos o que é certo ou errado. Fico, cada dia, mais perplexa com a intolerância de algumas pessoas em relação ao modo de vida dos outros, especialmente quando atinge crianças. E as piores frases saem da boca de adultos. Precisamos nos lembrar que as crianças aprendem pelo exemplo. Que sociedade queremos deixar? Questiono isso a todo momento. Por isso, precisamos debater para acabar com essa visão sexista e preconceituosa de mundo.

Bullying, não!

"O bullying não envolve somente agressão física, mas também psicológica", explica a psicóloga Priscila Ribeiro Manzoli. Foto: Divulgação
A psicóloga Priscila Ribeiro Manzoli, analista do comportamento que há 15 anos trabalha com psicologia clínica e atualmente atende crianças e famílias na Clínica Comportare, em Campinas, explica que "bullying é todo tipo de comportamento agressivo, cruel, intencional e repetitivo nas interações, que envolve sempre uma pessoa que é a vítima e aquele valentão, aquele que intimida a vítima." Segundo Priscila, o bullying não envolve somente agressão física, mas também psicológica, como foi o caso de Pietro.

Mestre em psicologia e especialista em psicologia clínica, Priscila explica que o bullying ainda acontece porque grande parte das pessoas não consegue lidar com a diferença. "Aquilo que sai do que é considerado normal acaba sendo visto com olhos de desaprovação", diz. "Para lidar com situações como a do menino Pietro, é preciso ter suporte, seja da família ou de outras pessoas significativas, para enfrentar a situação. E com certeza o apoio da família foi significativo para o menino conseguir se manter no propósito diante de tanta pressão."

Na hora, lembrei da Suene, a mãe de Pietro. Ela se descontruiu, enfrentou a pressão da família e deu todo apoio ao filho. É difícil mesmo enfrentarmos valores, comportamento e crenças tão arraigados dentro da gente. Para muitos, o cabelo comprido em homens é algo tão simples e banal, enquanto para algumas comunidades é um valor absoluto. Mas, voltando ao bullying, a psicóloga Priscila explica que, "quando prolongado e sem que haja nenhuma intervenção para que cesse, traz prejuízos importante para a pessoa que sofre, inclusive o desenvolvimento de transtornos como ansiedade e depressão".

"O pinguim azul de Miguel"
Capa do livro. Reprodução feita a partir do site da Editora Quatro Cantos
O intertítulo acima é título de um livro que apresenta de forma natural e sem conflitos alternativas aos estereótipos de gênero, além de outros aspectos da diversidade humana. O personagem Miguel é inspirado no filho da autora, Rosana Martinelli, que, como ele, tem lindos e longos cabelos, e muitas vezes já foi confundido com uma garota. Segundo descrição da Editora Quatro Cantos, "os pequenos leitores vão descobrir com o relato do dia a dia do personagem que as pessoas podem ser naturalmente bem diferentes do que a gente é acostumado a ver e pensar". A publicação é muito colorida e as ilustrações são de Mariana Belém. Assista aqui a história do Miguel.   

Que surjam mais Pietros! Vamos quebrar estereótipos e respeitar a todos! Viva as diferenças!



Mais do ACidade ON