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Deus não é nomenclatura de igreja e nem de direita ou esquerda

Boicote à Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021 é desserviço a fiéis

| ACidade ON - Circuito das Águas -

Arte da Campanha da Fraternidade Ecumênica | Divulgação

Com o início da Quaresma, 40 dias que antecedem a Páscoa, e o lançamento da 5ª Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE) 2021, no último dia 17 (Quarta-Feira de Cinzas), me deparei com algumas postagens em redes sociais que pregam o boicote à CFE e propagam, inclusive, fakenews. O mais estranho é que o tema da campanha é "Fraternidade e diálogo: compromisso de amor".  

Então, por que afinal isso está acontecendo? Por que abordar problemas sociais ou de pobreza deixaram de ser assuntos do âmbito teológico e passaram ser considerados restritamente comunistas ou de esquerda? É como se as pessoas ligadas à direita não se preocupassem com os mais pobres. Lembrando que quando falamos de direita e esquerda, nos referimos mais pontualmente à maior ou menor intervenção do Estado na economia.

Sem entrar nessa armadilha de direita e esquerda, conceitos ideológicos já vencidos e que voltaram à tona recentemente, fazendo com que a gente revisite a história da revolução francesa até antes do fim do governo soviético de Mikhail Gorbachev, é preciso lembrar que a opção preferencial pelos pobres nasceu com o cristianismo, com o menino Jesus nascendo em uma manjedoura. E a Bíblia, tanto no Novo como no Velho Testamento, trata da pobreza espiritual e material.

Voltando aos ataques à CFE 2021, vários posts em mídias sociais reproduziram um mesmo texto com 11 pontos que atacam a CFE. Confira a imagem abaixo e clique aqui para ampliá-la.

Reprodução do texto que circula na internet e que ataca a CFE 2021.
CFE  

Antes de comentar os pontos de ataque, é preciso explicar que, este ano, a Campanha da Fraternidade, organizada pela Igreja Católica, é construída de forma ecumênica, ou seja, sua construção conta com a contribuição de várias igrejas cristãs, pertencentes ao Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), do qual a Igreja Católica do Brasil também pertence.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) decide quando a campanha ecumênica vai acontecer e coincidentemente aconteceram a cada cinco anos até o momento. Mas, não existe documento estabelecendo esse prazo.

O Texto-Base ficou sob a responsabilidade da pastora luterana Romi Bencke, que passou a ser atacada na internet por conta desse documento. O interessante é que ela também foi responsável em 2016 pela Campanha, quando a única reclamação de católicos e protestantes era de que não queriam uma ação conjunta, como se Deus não fosse único e pregasse o amor entre irmãos, independente, inclusive, de serem cristãos ou não.

Mas, voltando a Romi. Ela assinou o pedido de impeachment do presidente Jair Bolsonaro. Uma semana depois, vieram os ataques à CFE, o que muitos consideram, no mínimo, "uma triste coincidência". A Romi já se mostrou, na mídia, criticando a postura de Bolsonaro quanto ao enfretamento da Covid-19 e defende as mulheres e a população LGBTQI+.  

Para os cristãos conservadores, essas três defesas dela, que encontraram apoio nos outros integrantes da Comissão Ecumênica (formada por representantes das igrejas-membro do CONIC - Aliança de Batistas do Brasil (ABB), Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR), Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), Igreja Presbiteriana Unida (IPU) e Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia (ISOA) , além da Igreja Betesda de São Paulo, como igreja observadora, e o Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e à Educação Popular (Ceseep), como membro fraterno), são uma afronta. Mas, por quê?

Para alguns católicos há um outro problema grave: o Texto-Base não faz referência ao nome da Virgem Maria, Nossa Senhora, mesmo sabendo que o texto precisa ser ecumênico. Então, um católico ou um evangélico que não concorde com o texto deve se manifestar sim, mas precisa promover ataques às instituições religiosas pela internet? Será esse o ensinamento deixado por Jesus Cristo? E quanto ao tema da campanha: existe algum diálogo de amor promovido dessa maneira?

Clique aqui para conhecer o site do Conic e ter acesso à íntegra do Texto-Base. Não é preciso pagar para ter acesso ao texto, como alguns andaram propagando. Antes de julgar ao ler qualquer coisa na internet, sugiro que conheça o documento. Já clicando aqui você pode conferir a nota da presidência da CNBB sobre os ataques. Confira abaixo o vídeo da CFE 2021.   

 Confira abaixo, mensagem final de Dom João Inácio Müller, Arcebispo Metropolitano de Campinas, na coletiva de imprensa da Campanha da Fraternidade Ecumênica deste ano.  


Os ataques  

O primeiro ponto dos ataques se refere ao fato de que a pastora Romi é a favor da descriminalização do aborto. Essa opinião é pessoal dela e não está sequer mencionada no Texto-Base. Com relação aos itens 2 e 3, avalio que alguns católicos se julgam os escolhidos de Deus porque precisam ser os protagonistas e consideram a sua religião a certa. A mesma avaliação vale a alguns protestantes diante das manifestações na internet.

O 4º item é ainda mais absurdo, na minha avaliação, porque foram citadas as mortes de várias pessoas no Texto-Base, como a de "Miguel Otávio, de 5 anos, que caiu do nono andar de um prédio, em Recife, enquanto a sua mãe levava os cachorros de sua patroa para passear" e de "Paulo Paulino, liderança do povo Guajajara", mas o texto de ataque só cita o assassinato da vereadora Marielle Franco e sequer faz menção à morte de seu motorista Anderson Gomes, o que foi lembrado no Texto-Base. Será mesmo que é o Conic que quer politizar a CFE 2021? O caso Marielle teve repercussão internacional e até agora a polícia não descobriu os mandantes do crime.

Quanto ao 5º item, o documento não fala para ninguém visitar um "terreiro de mãe de santo", como diz a contra-campanha, mas revela que "os casos de intolerância religiosa contra tradições de matriz africana têm sido permanentemente denunciados como racismo religioso." E acrescenta: "No primeiro semestre de 2019, o aumento de casos de intolerância religiosa foi de 56% em comparação ao mesmo período de 2018. No que diz respeito à intolerância contra religiões de matriz africana chegamos a registrar 61 casos."

Uma parte do Texto-Base cita, sim, uma visita dos integrantes do Conic a um terreiro. Leia abaixo e clique aqui para ampliar a imagem. 

Reprodução de um trecho do Texto-Base da CFE 2021. 
Você acha que não devemos ajudar porque não é da nossa religião, mesmo que essas pessoas façam ações sociais que ajudem a muitas outras? Então, para você, todos que são de religião não-cristã não devem ter a nossa compaixão? Vamos negar a história dos povos, exclui-los e promovermos um cruzada santa, voltando à Idade Média?

Do 6º ao 11º argumentos, considero surreais, principalmente, por não aceitarem o isolamento social e serem a favor do uso de armas. Quanto ao aquecimento global, a afirmação é a predominante no meio científico e a negação desse efeito encontra respaldo em alguns defensores. O isolamento social foi tratado no Texto-Base do item 24 ao 35.  

O trecho que deixou alguns religiosos ofendidos foi: "Se, por um lado, parte das igrejas realizaram pressões políticas para permanecerem abertas, por outro lado, outras igrejas assumiram como testemunho de amor o cancelamento de todas as atividades presenciais, como forma de cuidado. As celebrações foram adaptadas para realidade da internet, foram estimulados outros espaços de encontro e celebração, como as plataformas on-line. Com isso, alguns desafios estão colocados, por exemplo, a realização de rituais que exigem o encontro presencial. Entre eles estão o sepultamento e o acompanhamento a pessoas enlutadas."

Eu li o Texto-Base da CFE 2021 e quero promover esse diálogo de amor sobre todos os aspectos porque só assim, na minha avaliação, poderemos promover a inclusão. Não quero ficar na minha "bolha". Quero construir um mundo melhor para todos, independente de religião, etnia, partido político, escolaridade e condição social. E você? Afinal o maior ensinamento de Cristo é amar a Deus sobre todas as coisas e ao teu próximo como a ti mesmo. Viva a inclusão! Despeço-me com a mensagem do papa Francisco. 

 


Saiba Mais:  

Coletiva de Imprensa - V Campanha da Fraternidade Ecumênica

 


Sobre o Blogueiro

Alma Inclusiva

Nice Bulhões é jornalista, disléxica e mãe azul. Pantaneira, nasceu em Corumbá (MS) e mora em Campinas (SP) há mais de 20 anos. Passou por redações de jornais impressos nos dois estados e atualmente faz assessoria de imprensa. No blog, trata de assuntos referentes a todas as formas de inclusão.


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