Publicidade

Blogs e colunas   -   alma inclusiva

É possível ensinar empatia?

Sete psicólogos afirmam que sim e que a prática dela, nesse momento de pandemia, produz impacto com reflexos na coletividade

| ACidade ON - Circuito das Águas -

"Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele", segundo o psicólogo Carl Rogers. Foto: Gerd Altmann/Pixabay
Desde 2020, a pandemia de Covid-19 tem "obrigado" muitos brasileiros a realizarem um simples mas essencial exercício de empatia: o uso da máscara. Afinal, passamos a usá-la para nos proteger e também aos outros. Mas, há ainda aqueles que insistem em não usá-la por motivos que vão desde a falta de conhecimento da importância até o negacionismo, que pode gerar, inclusive, agressões tanto verbais quanto físicas quando a pessoa é forçada a colocar o acessório para adentrar em um local público .

Parece clichê falar de empatia, palavra muito usada nas redes sociais, mas por que alguns de nós falamos muito dela e não a praticamos? Mesmo com tantas mortes pela Covid-19, que gerou crises sanitária e econômica, ainda assim insistimos na individualidade? Será que podemos aprender ou reaprendê-la? Será que só somos empáticos quando a tragédia e a dor nos abatem? Então, resolvi fazer duas perguntar a alguns psicólogos:

1ª: - É possível ensinar empatia?

2ª: - Será que estamos usando uma pedagogia (no sentido de prática do dia a dia) errada quando falamos que a dor só é sentida quando a pessoa perde um ente querido por Covid-19? Afinal, a empatia deve se estender a todos, sem seleção.

Mas, antes é preciso entender o que é empatia. Gosto demais da definição dada pelo escritor João Doederlein, conhecido por @akapoeta, em sua publicação "O livro dos ressignificados".  

Poema "Empatia" do escritor João Doederlein, conhecido por @akapoeta. Foto: Reprodução do "O livro dos ressignificados"
"Saber abraçar a alma". Adoro essa finalização do poema. Para o psicólogo Carl Rogers, empatia é a "capacidade de se emergir no mundo subjetivo do outro e de participar na sua experiência, na extensão em que a comunicação verbal ou não verbal o permite. É a capacidade de se colocar verdadeiramente no lugar do outro, de ver o mundo como ele o vê". Afirma ainda: "ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele." Agora, vamos às respostas do psicólogo e das psicólogas.

Respostas à pergunta "É possível ensinar empatia?" 

Psicólogo Jairo Uryu Silva | Montagem com foto de divulgação
"Sim, é possível ensinar e aprender respostas empáticas que considerem o outro e auxilie no estabelecimento de relações mais autênticas e profundas. 

A empatia é uma capacidade que requer a interação elaborada entre diversas áreas de nosso cérebro e permite que tenhamos uma perspectiva de como os outros podem estar se sentindo, reconhecendo e distinguindo nossas próprias emoções daquelas de terceiros. A empatia desempenha um papel essencial no funcionamento de nossa sociedade, permitindo a promoção e compartilhamento de experiências, necessidades, desejos e emoções. 

Apesar de ser uma habilidade fundamental na interação humana, as bases neurais que sustentam seu funcionamento não são compreendidas em sua totalidade. (Levy, J. et al. 2019). Ainda que não se saiba exatamente os mecanismos neurológicos envolvidos na percepção da empatia, pesquisas recentes apontam para a capacidade de aprendermos ou ampliarmos nossa empatia, a partir do treinamento de habilidades e estímulo (Riess H. 2017). 

Sair da rotina, experimentando situações novas e refletir sobre seus preconceitos estão entre as formas de ampliar a consciência sobre os próprios limites e desenvolver uma resposta mais empática frente ao desconhecido."

Referências: Levy, J., Goldstein, A. & Feldman, R. (2019) The neural development of empathy is sensitive to caregiving and early trauma. Nat Commun 10, 1905. Riess H. (2017). The Science of Empathy. Journal of patient experience, 4(2), 7477." 

Psicóloga Mariana Schwartzmann | Montagem com foto de divulgação
"Sim, é possível ensinar empatia. Não só possível, mas essencial. Empatia não é algo inato, que nasça ou não em nós. Devemos ensinar, através de discursos, debates e modelos. A família não deve renunciar ao seu papel na formação do caráter de uma criança. Crianças e adolescentes estão sempre nos observando e aprendem muito mais pelos modelos do que pelas palavras. Pais não devem perder de vista esse papel que lhes cabe, e a ninguém mais. É um equívoco achar que o papel na formação do caráter de uma criança ou jovem é da escola. Algumas tarefas não podem nem devem ser terceirizadas.

E, sim, estamos usando uma pedagogia equivocada ao imaginar que alguém só pode sentir a dor se ela atingir você diretamente. Ao adotar essa premissa, caminhamos para a insensibilidade ao outro, a frieza, a indiferença. Será que é preciso sentir fome para se sensibilizar com quem vive essa situação? Será que é preciso sofrer violência para entender do que se trata, de quão invasiva e devastadora é essa experiência? Certamente que não.

Do contrário, estaríamos caminhando para a desumanização de nós mesmos. Entendo que negar a dor do outro, o sofrimento, seja um mecanismo utilizado por algumas mentes por não dar conta de enxergar a dor do outro, por não saber como lidar com essa dor. Isso pode nos ajudar a entender, mas, absolutamente, não justifica. Pessoas que pensam e agem dessa forma, com certeza, estão precisando de ajuda." 

Psicóloga Sabrina Amaral | Montagem com foto de divulgação
""Todos nós nascemos com empatia, esse é o motivo pelo qual quando um bebê chora, o outro começa a chorar também, a neurociência explica... nós só conseguimos evoluir como espécie humana, pois aprendemos a viver em comunidade e a empatia é a chave desse sucesso. Acontece que ao longo da vida, nossas experiências vão nos moldando de tal forma, que podemos perder esta habilidade nata, então, é preciso resgatá-la e treiná-la novamente. Sim é possível reascender a chama da empatia, ela é um dos pilares da chamada inteligência emocional. Para tanto, o primeiro passo é olhar para nós mesmos, nos observar, reconhecer nossos sentimentos para depois poder reconhecer o sentimento do outro.

Dizem que a empatia é a habilidade de conseguir se colocar no lugar do outro, mas o conceito vai além. Empatia tem a ver com reconhecer a dor do outro se despindo das suas impressões e julgamentos. É sobre acolher o sentimento do outro, independentemente do seu juízo de valor. As pessoas tendem a ter mais empatia por quem está em sofrimento, na vulnerabilidade nos conectamos.

A melhor didática que existe para fixar conhecimento em nosso cérebro é uma só: A EMOÇÃO. Sabe aquele ditado que só se aprende pelo amor ou pela dor? Então, ele tem um fundo de verdade. Em tempos de tanto sofrimento e dor, precisamos fazer o movimento contrário, a máxima mais amor, por favor nunca se fez tão necessária como agora." 

Psicóloga Alessandra Netti | Montagem com foto de divulgação
"Acredito que em uma formação saudável, a criança desenvolve naturalmente a empatia. Isso é um processo de amadurecimento emocional. Quando a criança fica triste porque o cachorrinho dela está na chuva, é sinal de que descobriu o outro e se sensibilizou por ele. Em um lar adequado, onde se compreende o todo e a todos, sem perceber, está sendo criada, de maneira suave e branda, a empatia.

Preparar um chá para a vovó que está com uma dorzinha, é empatia. Quando a mamãe ou o papai prepara uma sopinha quente para o irmão que adoeceu, é empatia. Ou então fazer um desenho bem bonito para entregar para o papai ou a mamãe que vai chegar do trabalho, é empatia.

Estamos em falta com a empatia pois estamos vivendo mais distantes do outro. E esse outro muitas vezes está bem pertinho e não nos damos conta disso. Você sabia que o sufixo PATIA significa sofrimento, padecimento? E EM-PATIA seria estamos em padecimento junto com o outro.

A empatia também está relacionada ao tipo psicológico e algumas pessoas serão naturalmente mais empáticas do que outras. Mas, mesmo assim, há muito que se desenvolver e trabalhar com nossos pequenos!

Questionada sobre estarmos ou não utilizando a pedagogia errada quando falamos "a dor só é sentida quando a pessoa perde um ente querido por Covid-19?", respondo: com certeza a dor é muito maior quando perdemos um ente querido, mas podemos e devemos trabalhar a empatia nesse momento tão importante nas nossas vidas.

Usar máscara é empatia; mandar uma mensagem para saber se estão todos bem é empatia. Tantos detalhes podem falar de empatia indiretamente. O nosso grande problema está em patamares políticos e isso dificulta tudo. Mas, pensar empaticamente pode fazer toda a diferença para a sociedade.

Atendi uma criança de 7 anos e ela não quis tomar água, pois precisaria tirar a máscara. Percebi naquele momento que as crianças estão sendo capazes de compreender e respeitar o momento que estamos vivendo. A COVID veio trazer ensinamentos mais profundos sobre a empatia, o respeito e o amor, só não percebe quem não quer!

Existem aspectos e elementos que vêm antes da empatia. As nuances da nossa saúde emocional que precisam ser olhadas e cuidadas. Há que se desenvolver o senso de coletivo e da felicidade em seus âmbitos amplos que abrange a saúde física, mental, emocional, social, espiritual e relacional." 

Psicóloga Mariana dos Santos Curi | Montagem com foto de divulgação
"A empatia é uma habilidade social que pode sim ser treinada. Não é algo que nascemos sabendo ou não. As vivências, o meio, as pessoas que nos cercam viabilizam esse treino. Estamos falando sobre uma habilidade que compreende muito mais do que uma ação, mas o olhar, a postura, a compreensão, o fato de colocar-se no lugar do outro, o modo de falar, são variáveis que podem sim ser aprimoradas, passam pela comunicação assertiva e carregam um pouco a mais do que apenas saber comunicar-se... carregam certa sensibilidade.

Em tempos de pandemia acredito que não haja regra para que essa habilidade seja treinada ou não. Vai, sim, depender de como me coloco diante de todo cenário, de quanto consigo enxergar tudo isso e até mesmo encarar o que vem de dentro para lidar com o que está fora. Penso que exista certa dificuldade em nos depararmos com a realidade, entender que esse momento é mesmo muito difícil e que não há o que ser feito do ponto de vista prático para solucioná-lo, a não ser as medidas de proteção e cuidados mínimos propostos. Estamos falando aqui de aceitação, e nem todos conseguem lidar com essa demanda.

Acredito que não entrar em contato com isso dificulte a relação com o cuidado de si e com o outro e, dessa forma, a empatia pode ser prejudicada também. Autoconhecimento pode ser um bom caminho para a busca de maior empatia, pela busca por compreender como lidar consigo mesmo e com os outros, ainda mais num momento tão delicado que requer tamanha habilidade de acolher as nossas próprias questões e as do que estão ao nosso redor também." 

Psicóloga Tatiana Niero Miranda Felizardo | Montagem com foto de divulgação
"É possível, sim, ensinar empatia. Ao contrário do que muita gente pensa, empatia assim como outros comportamentos (generosidade, bondade, agressividade) não fazem parte de um estoque individual. Ou seja, não nascemos com muita ou pouca empatia e assim nos mantemos por toda a vida. Todos nós somos capazes de, ao entrar em contato com esse comportamento/sentimento, produzir consequências que o mantenha, aumente ou elimine.

O que caracteriza esse (e os demais comportamentos/sentimentos) é a condição de todos eles serem reforçados, e com isso aumentarem a frequência com que ocorrem, ou não reforçados e então diminuírem a frequência com que ocorrem.

Uma das formas de se ensinar empatia é através de modelo. Quando alguém se comporta com vontade de conhecer e compreender o outro, numa relação de respeito e troca e com isso produz consequências positivas, tende a fazer isso mais vezes. Alguém que observa esse comportamento empático do outro ou foi beneficiado por ele, o reproduz e assim também gera consequências positivas, aumenta a probabilidade de também fazer isso mais vezes.

Perceba que o que fará com que o comportamento se repita é o tipo de consequência que ele produz, ou seja, se for positiva tende a aumentar, se for negativa, a diminuir.

Nesse momento delicado em que a humanidade se encontra, ser capaz de sentir a dor do outro, se colocar em seu lugar no sofrimento, poderia trazer mudanças significativas em relação aos números crescentes de pessoas contaminadas pelo Covid-19. Ser empático, nesse momento, não significa apenas pensar em quem já perdeu alguém para o Covid, mas também se colocar no lugar dos profissionais que estão na linha de frente, dos cientistas que buscam a cura, enfim, daqueles que passam por situações diferentes de nós, a maioria, e acolher, transformar com isso, nossos comportamentos em consequências positivas para o todo.

Nesses casos, a empatia se alia à compaixão. Quando você é capaz de fazer essa troca de papéis e acolher o sentimento do outro, produz um impacto que reflete na coletividade.

O que se vê ultimamente são indivíduos que não estão sob controle da empatia na maior parte do tempo. Pelo contrário, estão presos em si mesmos, buscando atender suas necessidades individuais. Aí é exatamente onde a empatia não tem espaço para acontecer, infelizmente." 

Psicóloga Camila H. Capovilla | Montagem com foto de divulgação
"Considerando que a empatia envolve a compreensão sensível do mundo afetivo do outro e a demonstração desta compreensão, pode-se dizer que ela está ligada aos afetos, emoções e sentimentos dos seres. Sendo assim, partindo de uma perspectiva histórico-cultural, mais do que uma expressão orgânica de afeto, a empatia é construída e expressa pela interação entre os fatores biológicos e culturais.

Ou seja, é aprendida e desenvolvida em determinado contexto histórico-social, na medida em que o indivíduo transforma o mundo e é transformado em sua relação com esse. Portanto, esta aprendizagem depende de diversos fatores sociais, como o momento histórico, a cultura, os recursos que lhe são oferecidos, suas relações sociais, classe social, educação e também a maneira de viver da sociedade.

Dessa forma, gostaria de responder a segunda pergunta com uma terceira: como esperar empatia de uma sociedade tão individualista como a nossa?
Se a empatia tem seu caráter histórico-cultural e está intimamente ligada à cultura, política, educação, classe social, relações não há como desconsiderar o impacto da nossa sociedade capitalista e neoliberal na construção de sujeitos empáticos. Se entendemos a saúde como uma experiência e um processo individual, desconsideramos a realidade e o contexto social.

A dor tem sim seu caráter pessoal e subjetivo, a depender da história daquele sujeito, e deve ser validada, ouvida e acolhida em suas particularidades. Porém, os sujeitos parecem esquecer que não vivem sozinhos no mundo, e que ações individuais impactam o coletivo - e o nosso cenário político tem sua parcela de responsabilidade nessa alienação. Portanto, utilizar a premissa de que "A DOR SÓ É SENTIDA QUANDO A PESSOA PERDE UM ENTE QUERIDO POR COVID-19" é contribuir para uma lógica reducionista de um fenômeno que é coletivo e também político."

Reflexão

Se você chegou até aqui, com a sua bagagem emocional e a opinião dos profissionais, pode buscar direções para aprimorar a empatia, importando-se com os outros, reconhecendo sentimentos alheios e respeitando as necessidades e diferenças dos outros. Quero, como uma criança que começa a dar seus primeiros passinhos, a aprender cada vez mais a ser empática, para que essa capacidade me torne ainda mais humana. Ao ajudar o outro, estarei ajudando a mim mesma; um aprendizado de amor. Como diz @akapoeta, precisamos "saber abraçar a alma". Pratique empatia! Promova inclusão!  Viva o amor fraterno! Abrace todas as almas que encontrar.








Sobre o Blogueiro

Alma Inclusiva

Nice Bulhões é jornalista, disléxica e mãe azul. Pantaneira, nasceu em Corumbá (MS) e mora em Campinas (SP) há mais de 20 anos. Passou por redações de jornais impressos nos dois estados e atualmente faz assessoria de imprensa. No blog, trata de assuntos referentes a todas as formas de inclusão.


Publicações


Facebook


Publicidade

Publicidade