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Extensionistas da Unicamp relançam vaquinha em prol da Ocupação Vila Paula

Campanha entra em sua segunda fase, já que este mês foram entregues cestas básicas. Agora, ação busca contribuir com alimentos para os próximos meses

| ACidade ON - Circuito das Águas -


Uma das vielas da Ocupação Vila Paula | Foto: Reprodução: site Extensão Vila Paula
Prestes a completar sete meses do incêndio que atingiu 24 barracos, onde moravam cerca de 120 pessoas, a Vila Paula, ocupação localizada na região Norte de Campinas (SP), reergueu suas moradias de madeira, mas a pandemia de Covid-19 trouxe repercussões sobre as condições de vida e saúde dessa população, promovendo o agravamento da insegurança alimentar e nutricional. A maioria dos moradores sobrevive da reciclagem, empregos na construção civil ou limpeza, como autônomos ou dependem de auxílios do governo ou doações de cestas básicas. Atividades como pintores e pedreiros estão entre as mais impactadas pela crise sanitária por conta do isolamento social.

Por isso, um grupo de extensão universitária da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que desde 2018 trabalha nessa comunidade, resolveu relançar a vaquinha virtual aberta em 2020 para ajudar na reconstrução da ocupação após o incêndio. Na primeira etapa, a campanha recebeu a doação de R$ 25.262,90, mas descontadas as taxas do site o valor fechou em cerca de R$ 23,5 mil. O dinheiro foi usado para a compra e distribuição de 380 cestas básicas para todas as famílias do local. Metade delas foi entregue no último dia 4 - clique aqui e leia a matéria - e a outra será distribuída no final deste mês, segundo a Coordenação da Ocupação, que recebeu a doação e ficou responsável pela distribuição.

A vaquinha on-line da segunda etapa da campanha pode ser acessada clicando aqui. Agora, a intenção desses estudantes extensionistas de graduação e pós-graduação da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), Faculdade de Enfermagem (FENF), Instituto de Artes (IA) e Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp é voltar a angariar recursos para novamente comprar cestas básicas, já que os impactos da pandemia não vislumbram um fim próximo. Ficou curioso para conhecer este projeto de extensão? Clique aqui para acessar o site "Extensão Vila Paula". 

Distribuição da metade das cestas distribuídas pelos extensionistas da Unicamp | Foto: Reprodução do site Extensão Vila Paula
Informações sobre a ocupação

Antes de voltar a falar do projeto, irei dar algumas informações oficiais sobre a ocupação. De acordo com Companhia de Habitação Popular de Campinas (Cohab Campinas), "a Vila Paula, próximo ao Aeroclube do Amarais, é uma ocupação de 59 mil m² de uma área pública do município, inicialmente destinada à construção de um complexo educacional para atender a crianças do núcleo residencial da CDHU". Acrescentou que "a ocupação tem 237 barracos de madeira, rede de água coletiva e iluminação pública precária."

A Prefeitura de Campinas, segundo a Cohab, pediu a suspensão temporária do processo de reintegração de posse enquanto a Companhia conclui levantamentos sobre a viabilidade de fazer a regularização fundiária da área. A ocupação teve início em 2015, segundo a Coordenação da Ocupação, e no ano passado grande parte dos barracos foram consumidos por um incêndio. "O Fundo Municipal para a Habitação Popular (Fundap) forneceu o material para reconstrução das moradias queimadas. Não se sabe ainda se existe viabilidade para a regularização da área", informou a Companhia, por meio de sua assessoria de imprensa.

A Sanasa informou que, "por se tratar de uma área não regularizada, abastece o local através de ligações coletivas e cada família paga um valor simbólico de R$ 8,60 por mês". Segundo a assessoria de imprensa da empresa mista, as contas são enviadas para o líder comunitário e ele se encarrega de distribuir para as famílias, sendo que cada uma delas recebe uma conta com o nome e endereço de cada consumidor.

Com relação ao fornecimento de energia elétrica, a Coordenação da Ocupação, que funciona como se fosse uma associação de moradores, informou que está preparando um ofício para encaminhar à CPFL para tentar acabar com as ligações clandestinas.

Projeto de Extensão

Meu interesse pelo projeto de extensão se deu após conversa com minha amiga-jornalista Maria Alice da Cruz Paula, motivada pelo envio que fez do link da matéria sobre a entrega das cestas básicas por parte dos extensionistas da Unicamp na Vila Paula. Hoje aposentada da Unicamp, Alice fez parte da equipe da Diretoria de Comunicação (DCom) da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (Proec) da Unicamp que produziu a trilogia "OcupaExtensão: Vila Paula, Largo do Pará e Vidas Isoladas". Veja abaixo o vídeo da "Vila Paula" e confira aqui a matéria de estreia do filme. 

 

Durante a conversa, ela me explicou que o objetivo do projeto de extensão da Vila Paula é desenvolver cidadania e saúde, "pois antes as pessoas eram discriminadas pela falta de arruamento, endereço." Foi então que me dei conta da importância da Pró-Reitoria de Extensão em uma instituição superior de ensino não só na formação de seus alunos, mas também para ajudar a população a ter acesso a seus direitos básicos. Alice salientou que a extensão universitária não é assistencialista.

"De acordo com a própria definição, ela precisa respeitar o tripé ensino-pesquisa-extensão e os projetos precisam ser perenes, ou seja, dar condições para que a comunidade e outros grupos dê continuidade ao que foi desenvolvido durante a troca de saberes. A participação da comunidade é muito importante nos projetos", explicou Alice. "É a união entre o saber acadêmico e o popular. E isso enriquece a formação de novos profissionais em minha opinião".

Pedi que Alice me enviasse um depoimento. Segue abaixo:

"Como jornalista, acredito que a equipe da DCom cumpriu a missão não somente de divulgar esta parceria entre a comunidade acadêmica e a sociedade, mas de motivar outras pessoas a "fazerem" extensão universitária e atrair o olhar do restante da sociedade para situações de vulnerabilidade, como é o caso da Vila Paula e outros projetos ainda divulgados pela DCom. Para mim, especialmente, foi aposentar em pleno aprendizado. Aprendi muito com a comunidade da Vila Paula e a equipe dos professores Rubens e Gastão Wagner. Lançar o documentário com parte da comunidade da Vila Paula dentro da Unicamp foi a realização de um sonho.

Assistir ao envolvimento dos alunos além das atividades acadêmicas e profissionais, organizando festas de Dia das Crianças, Natal, Páscoa e também em ações solidárias, num momento tão crítico como este que o mundo vive, é ter esperança em uma sociedade mais justa. E mais: saber que o jornalismo pode ser veículo de inclusão, ser usado para ampliar o acesso de seres humanos aos seus direitos, assim como você está fazendo neste blog nomeado Alma Inclusiva, é sentir que estamos cumprindo o juramento de fazer comunicação para a sociedade."

Extensionista 

A estudante de Bianca Campos, do 4º ano de Medicina da Unicamp, entrevistando uma moradora para a sua pesquisa de iniciação científica. | Foto: Divulgação
Pensei nos alunos extensionistas que participam desse projeto. Foi quando fui apresentada a Bianca Campos, aluna do 4º ano de Medicina da Unicamp. Ela é extensionista desde 2018 e realizou uma pesquisa de iniciação científica sobre os itinerários terapêuticos dos moradores da ocupação.  

"Agora na pandemia estamos com as atividades restritas, mas continuamos nos organizando enquanto grupo para permanecermos próximos à comunidade", explicou Bianca. "Lançamos um boletim para ser distribuído de forma digital e impressa na ocupação, que aborda questões de saúde e direitos humanos", contou. Clique aqui para ver o boletim.  

"Também estamos contribuindo com a distribuição de cestas básicas, nesse período de grande desemprego e instabilidade econômica. Agradecemos a todos que puderem contribuir com a nossa vaquinha virtual! Fazemos um registro completo dos valores doados e gastos na primeira etapa na página de transparência no nosso site: extensaovilapaula.org", disse Bianca. Leia aqui o depoimento na íntegra de Bianca, que faz parte da "Turma do doutor Rubens", como os moradores chamam os integrantes do projeto.

Doutor Rubens

A primeira pessoa do projeto a falar comigo foi o médico Rubens Bedrikow, criador e coordenador do "Vila Paula". Docente do Departamento de Saúde Coletiva da FCM, criou o projeto em 2018. Orienta o grupo, planejando as atividades de extensão juntamente com os alunos. Presta atendimento médico à toda a comunidade. Mesmo com o acirramento da pandemia de Covid-19, o médico não deixou de ir todo sábado à ocupação, sendo algumas vezes acompanhado por um voluntário. 

É dele o melhor texto, na minha opinião, sobre o incêndio na ocupação por ser tão preciso e humano. Clique aqui para ler. Todos os contatos que tive foram virtuais por conta da pandemia, feitos entre segunda e terça-feira (19 e 20 de abril). Mas, em todos, foi possível ver o carinho e a preocupação com o projeto. O professor Rubens me contou como tudo começou, que não irei repetir porque está no vídeo acima. E que resolveu junto com os extensionistas lançar a segunda etapa da vaquinha porque as condições ainda são precárias no local.

"Têm estudos que mostram que as temperaturas em favelas são mais elevadas de dia em até 3°C e mais baixas à noite em 1°C, em média", disse o professor Rubens. "Por isso, muitas vezes, esses moradores nem conseguem lavar a louça sequer tomar banho por volta das 12h, já que a caixas d´água ficam expostas às agruras do sol." Segundo ele, isso é apenas uma das dificuldades, lembrando que a água ainda é coletiva, com mangueiras espalhadas sobre a terra batida da ocupação.

A pandemia, segundo ele, escancarou ainda mais a exclusão dessas pessoas, que ganhou visibilidade com o incêndio. "Tanto que o que arrecadamos só foi usado agora com a compra das cestas básicas porque a comunidade recebeu muitas doações com a destruição de suas casas pelo fogo." Ele conta que há uma rotatividade porque, quando conseguem emprego, alguns se mudam e logo outra família ocupa o barraco. Os próprios moradores têm a preocupação de não deixar levantar um novo barraco por conta de um acordo feito com a Cohab, segundo a Coordenação da Ocupação.

Padre Antonio

Outra pessoa muito querida na Ocupação Vila Paula é o padre Antonio Rodrigues Alves, pároco da Paróquia São Marcos. Clique aqui e sabia a sua história. Ele esteve muito presente na vida da ocupação. Pedi para o padre fazer um depoimento sobre a ação que executa nessa comunidade, lembrando que ele atende a outras cinco áreas de vulnerabilidade. Por isso, a paróquia está sendo aberta para receber doações.  

  
Os Anjos da guarda" 


Doutor Rubens e padre Antonio são considerados "anjos da guarda" pela Ocupação Vila Paula. A prova é que o nome de cada um deles foi dado à uma viela. "Eles estão sempre cuidando dessa comunidade e resolvemos homenageá-los", disse a coordenadora da Ocupação, Paula Cristina de Almeida. "Um cuida de nossa saúde física e mental com seus alunos e outro de nosso lado espiritual, e ambos nos ajudando por meio de atendimentos e doações de comida e roupa."


Segundo Paula, no local há 180 famílias, sendo 28 delas de haitianos. "A comunidade é composta por cerca de 700 pessoas, sendo 162 delas com até 15 anos." Ela contou que, após o incêndio, os moradores receberam muitas doações. "Teve gente que recebeu micro-ondas, um eletrodoméstico que nunca sequer sonhou em ter", disse.

"Nesta quinta (22), uma equipe da Sanasa esteve aqui (no local) e a água foi regularizada. É uma vitória para nós", comemorou Paula. Ela explicou que as famílias já recebiam a conta de água, o que ajuda os moradores na comprovação de endereço, uma exigência de vários órgãos púbicos. "Não vinha valor na conta porque a rede não estava totalmente regularizada, mas agora está."

Acrescentou que o sonho de todos é poder trabalhar e ter a sua casa própria. "Estamos confiantes com a nossa inscrição na Cohab e seguimos todas as exigências, não levantamos moradia de tijolo nem derrubamos árvores", disse Paula. Em 14 de agosto deste ano, a ocupação completará seis anos. 

Agosto de 2018, festa de comemoração de 3 anos da Ocupação e o grupo de dança Bamboleio da FCM-Unicamp compareceu junto aos extensionistas à festa, levando muito forró e alegria. | Reprodução
Termino esse breve relato sobre a ocupação, o projeto de extensão "Vila Paula" e a história de alguns personagens com essa comunidade, que precisa muito de sua ajuda. Por isso, reitero o convite para que participe dessa vaquinha virtual. A fome mata! Se puder, faça a sua doação. Entre no link abaixo e seja solidário.





Sobre o Blogueiro

Alma Inclusiva

Nice Bulhões é jornalista, disléxica e mãe azul. Pantaneira, nasceu em Corumbá (MS) e mora em Campinas (SP) há mais de 20 anos. Passou por redações de jornais impressos nos dois estados e atualmente faz assessoria de imprensa. No blog, trata de assuntos referentes a todas as formas de inclusão.


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