Surdos oralizados: existe diversidade dentro da surdez; nem todos usam Libras

A Anaso e associações parceiras buscam políticas públicas inclusivas, especialmente na área educacional, para os surdos que falam

| ACidade ON - Circuito das Águas -

"O trabalho da Anaso é tirar os surdos oralizados da invisibilidade", afirma a presidente da entidade, Keilah Emília Rodrigues Ayres. | Foto: Imagem de Gerd Altmann/Pixabay
 Surdo fala? Alguns podem responder de imediato que não. Isso porque está preso a um perfil padrão de uma pessoa que não escuta, que não fala e que faz uso da Língua Brasileira de Sinais (Libras) ou que simplesmente não consegue se comunicar. Mas, a surdez não acarreta perda no aparelho fonador, conjunto de órgãos e estruturas envolvidos na produção da fala. Por isso, são poucas as pessoas com deficiência auditiva, que varia de leve a severo/profundo, que não emitem som. Com isso, surdo pode falar e são chamados de surdos oralizados.

Para buscar políticas públicas que abarquem toda a diversidade dentro da surdez, em especial na área educacional, a Associação Nacional de Surdos Oralizados (Anaso) e outras associações parceiras - a Adeipa (PA), a AMADA (AM) e a Apasod (ES) - compareceram na audiência pública "Nem todo surdo precisa de Libras", promovida pela Comissão dos Direitos das Pessoas com Deficiência da Câmara dos Deputados, na última segunda-feira (21).

Tomei conhecimento da luta das associações pela Agência Câmara de Notícias, por meio da matéria "Surdos que não usam Libras pedem apoio para inclusão em escolas". "Apresentamos ao parlamento os surdos oralizados, suas demandas e dificuldades, além de solicitar a alteração no textos de dois projetos de lei", explicou a presidente da Anaso, Keilah Emília Rodrigues Ayres.

Segundo ela, é preciso construir pontes para atender à diversidade da deficiência auditiva. Por isso, a Anaso enviou um texto ao Alma Inclusiva para explicar todo esse debate:

"Tanto o projeto de lei 4909/2020, de autoria do senador Flávio Arns (Podemos/PR), que estabelece modalidade de Educação Bilíngue (primeira língua Libras e a Língua Portuguesa na modalidade escrita) quanto o 4990/2020, de autoria do deputado federal Marcelo Aro (PP/MG), que garante acesso a Libras como primeira língua, são voltados para educandos surdos, surdocegos, com deficiência auditiva sinalizante, surdos com altas habilidades ou superdotação ou com deficiências associadas. Nossa solicitação foi colocar o termo sinalizantes em todas as palavras 'surdos', para especificar a que público esses projetos se destinam, no caso os surdos sinalizados, e assim garantir a liberdade de escolha dos surdos oralizados (que usam ou não próteses auditivas e que têm como meio de comunicação oral a Língua Portuguesa) pela modalidade de ensino que melhor atendam suas especificidades, bem como suas formas de comunicação.

Somos a favor da modalidade de ensino da Educação Inclusiva. Acreditamos que a escola regular pode ir muito além de ensinar o 'bê-á-bá' e que, ao promover a convivência entre diferentes, as crianças sem deficiência tornam-se mais abertas à diversidade.

Segundo dados do censo do IBGE (2010), existem 10 milhões de pessoas com algum grau de perda auditiva, e não somente sinalizantes, como muitos acreditam.

O trabalho da Anaso é tirar os surdos oralizados da invisibilidade. E agora, nossos parlamentares, antes de fazerem projetos de leis voltados para surdos, têm mais um grupo a ouvir: nós! Nossa luta é por equidade de direitos!  
Juntos somos mais fortes!"

Para explicar ainda mais a luta dos surdos oralizados, que usam aparelhos auditivos ou implantes cocleares ou que conseguem fazer leitura labial, ou seja, são surdos que falam, convidei a Keilah, que é a presidente da Anaso e que tem um filho surdo oralizado, e o vice-diretor de Comunicação da entidade, Almir Lopes Amado Junior, que é surdo oralizado, a nos enviar um vídeo com seus depoimentos, que segue abaixo. 


Quem se interessou ainda mais pelo assunto pode curtir e acompanhar as postagens de Paula Pfeifer, que é uma surda que ouve através de dois ouvidos biônicos (implante coclear). O canal dela se chama "Surdos que Ouvem". Eu particularmente gosto de um vídeo onde ela se apresenta. Clique aqui para ter acesso à ele. 

Outra indicação é a blogueira Lak Lobato, autora dos blog "Desculpe, não ouvi!" e dos livros "Escute como um surdo", "E Não É Que Eu Ouvi?"e "Lalá é assim: Diferente igual a mim". Em sua página no Instagram também há muito conteúdo.

Enfim, a Libras é muito importante para várias pessoas e é preciso haver políticas públicas voltadas para o seu uso. Mas, precisamos entender que há surdos que não a usam. Por isso, não podemos uniformizar a surdez, ou seja, achar que todo surdo, independente de ser oralizado ou estar em processo de oralização, tem de aprender Libras. A diversidade na deficiência auditiva existe. Irei usar uma frase dita por muitos surdos oralizados: "A surdez é invisível, mas os surdos oralizados, não!" Que sejamos inclusivos! Viva as diferenças e o respeito! 

 Nova audiência 

A Anaso divulgou no seu Facebook, nesta sexta (25), que haverá nova audiência pública no Senado Federal na próxima segunda (28). Veja o que foi divulgado. Para acompanhar ao vivo, postar perguntas, sugestões e críticas, os interessados podem acessar o link: https://edemocracia.camara.leg.br/audiencias/sala/2012. 

Reprodução do Facebook da Anaso
Reprodução Facebook da Anaso
Enquete 

A Câmara dos Deputados está realizando "Enquete do PL 4909/2020". Para participar e e entender o processo, é só CLICAR AQUI.  Segue abaixo o texto que a Anaso está veiculando em sua redes sociais: 

"Participe da enquete. Dê sua opinião sobre a PL 4909/2020 de autoria do Senador Flávio Arns que está sob análise na Câmara Federal dos Deputados. Trata-se de fazer do Bilínguismo (primeira língua Libras e a Língua Portuguesa na modalidade escrita) para todos os educandos surdos, surdos cegos, deficientes auditivos sinalizantes, surdos com super dotação e com deficiência associadas. Porém, ao mencionar no texto a palavra "surdos" se leva a generalização. Coloca todos os surdos como sendo sinalizantes, ou seja,usuários de língua de sinais, que não escutam ou falam. Mas, isso não corresponde à realidade!  
Hoje, existem os surdos oralizados, usuários ou não de tecnologias auditivas, que se comunicam oralmente, sendo sua forma de comunicação, nossa língua pátria, a Língua Portuguesa. Em geral, a opção do surdo oralizado é pela escola regular, pela modalidade do ensino inclusivo. Não se pode mais projetar leis ouvindo somente um lado, os surdos sinalizantes e suas instituições representivas! Não se pode mais negar a diversidade que existe dentro da surdez!
E você, o que pensa a respeito? E se fosse o (a) seu(sua) filho(a)?
A Anaso preza pela liberdade de escolha! Buscamos por equidade de direitos! Não se pode falar em inclusão, fazendo políticas públicas que atendam um grupo em detrimento do outro.
Vote "Discordo na maior parte" (pois o texto precisa de alterações) ou vote "discordo totalmente"(se você é a favor que a criança com deficiência permaneça na escola regular, tornando as crianças sem deficiência mais abertas a diversidade).
Vote! Participe! Apoie nossa causa!  
Juntos podemos fazer nossa sociedade verdadeiramente inclusiva!"