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Vitu, a centenária que nos presenteia com lições de inclusão e resiliência

Livro 'Vitalina Cherubim: neta de escravos em conversas com café quente' é uma obra inspiradora, que revela uma alma inclusiva

| ACidade ON - Circuito das Águas -

Montagem com fotos de Antonio Scarpinetti (capa do livro) e de Beatriz Santos (livro aberto e campanha no ar), que também fez a arte em aquarela.
Um século de história resumido em cerca de 140 páginas me convidou a lavar as vestes de minha alma para, como sugere a autora Maria Alice da Cruz, "purificar aquilo que nos veste", na tentativa de deixar minha essência mais limpa, mais pura. O convite não é à toa, já que a personagem central de seu livro "Vitalina Cherubim: neta de escravos em conversas com café quente" foi lavadeira no Hospital Irmãos Penteado, em Campinas. Isso lá pelos idos de 1940.

Hoje, aos 101 anos, e aos 98 anos quando Maria Alice escreveu o livro, Vitu, como é carinhosamente chamada Vitalina pelos mais íntimos e aqui peço licença para chamá-la assim, deveria ser leitura obrigatória para quem quer uma história real de luta, bom humor, resiliência e amor ao próximo. Imaginar que sua existência nasceu de um casamento arranjado pela sinhá de seus avós paternos, Athanasio e Lúcia Alexandre, que eram escravos, movida por interesse abjeto.

A sinhá fez com que se casassem para que a avó de Vitu pudesse engravidar para dar o leite materno aos seus netos. Assim, ao dar de mamar aos netos da patroa, ficava sem leite para dar aos próprios filhos e tinha de fazer angu de fubá. Perdão pelo spoiler Maria Alice, mas o relato de Vitu faz parte da história dos negros trazidos à força da África e tratados de forma desumana e que muitos, infelizmente, insistem em desprezar e minimizar, principalmente nesses tempos em que todos são "doutores virtuais" em todos os assuntos.

Os relatos de Vitu ecoam a história de vida de negros e negras no Brasil e passam por outros momentos importantes da história do país, que se misturam com a de sua família, como no episódio da doação de pão para famintos combatentes da Guerra Paulista de 1932. A obra está em sua segunda edição pela Editora Traçado Editorial, já que a primeira se esgotou. O mais legal agora é que existe uma campanha de pré-venda e nela é possível, ainda, adquirir e doar um exemplar para uma biblioteca pública.

2ª edição do livro

É preciso explicar que essa segunda edição será feita por financiamento coletivo através do site Catarse e as aquisições podem ser feitas até o próximo dia 22, sendo que os interessados irão escolher os kits como se estivessem fazendo a escolha num cardápio de café, como o "kit café social", que prevê a doação de um exemplar para uma biblioteca pública. 

Capa do livro. Foto: Antonio Scarpinetti
Caso tenha interesse em estender esta mesa de cafés quentes, entre em contato com Beatriz Santos, proprietária da Traçado Editorial, pelo telefone (11) 99198-9396, ou com Maria Alice, pelo email mdacruzpaula@gmail.com. Os apoiadores (compradores) terão o nome impresso no livro, além de outras recompensas que ganham nome de cafés, como já disse anteriormente.

O objetivo desta campanha, segundo Maria Alice, é propagar as histórias de Vitu, por meio da "conquista de novos leitores, estimular o fomento cultural coletivo e o hábito de ler". Os valores dos kits variam de R$ 20 a R$ 220. Os interessados em adquirir um dos kits só precisam acessar o link: https://www.catarse.me/vitalina

Aqueça-se com um café quentinho

Andar uma longa distância com o bule de café nas mãos pela mata, em Amparo, aquecia a alma de Vitu ao saber que seus pais e irmãos iriam tomar um cafezinho, mesmo que chegasse já frio. Isso porque o que não faltava à família pobre era amor, respeito e cumplicidade. Hoje, o café servido por ela em sua casa é quentinho, graças à garrafa térmica, um artigo de luxo e até supérfluo em sua infância diante de tantas outras prioridades. Por isso, os kits de venda da obra foram divididos como se fosse um menu de cafés.

Independentemente das estações do ano, como são divididos os capítulos da obra, o café aquece nossa alma. Até quem não aprecia o gosto, geralmente, ama o cheirinho dele. Assim, minha alma ficou aquecida com tantas lições pelo olhar de uma mulher de mais de 100 anos que está lúcida e mantém seu bom humor, sua bondade e sua resiliência diante dos percalços da vida.

Ao ler o livro, me deparei também com um tema relevante: a importância da leitura e da escrita, já que Vitu mostra isso em seus relatos. Apesar de ter frequentado por apenas dois anos o antigo "grupo escolar", sempre buscou aprender porque, segundo ela, "conhecimento ninguém rouba (...) Se eu tivesse tempo para estudar mais, queria continuar estudando".  

Por isso, convidei sua filha, a pedagoga e técnica de biblioteca aposentada pela Unicamp Maria Alice Cherubim; a autora do livro, a jornalista Maria Alice da Cruz; a proprietária da Traçado Editorial, Beatriz Santos; e a professora Anna Angélica Ferreira para me enviarem um vídeo sobre a relação da obra com a inclusão e a importância da leitura e da escrita. Assista abaixo. 

Enfim, depois das vestes da minha alma limpas com essa leitura, te convido a adquirir "um cafezinho quentinho na Catarse" e conhecer a história de uma mulher de 101 anos que nunca deixou de lutar e nos oferecer um relato real de que a persistência e a resiliência nos fazem mais fortes. Boa aquisição e boa leitura!

Sobre o Blogueiro

Alma Inclusiva

Nice Bulhões é jornalista, disléxica e mãe azul. Pantaneira, nasceu em Corumbá (MS) e mora em Campinas (SP) há mais de 20 anos. Passou por redações de jornais impressos nos dois estados e atualmente faz assessoria de imprensa. No blog, trata de assuntos referentes a todas as formas de inclusão.


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