Centro Cultural Louis Braille de Campinas lança vaquinha e comemora seus 52 anos

Entidade enfrenta problemas financeiros, agravados pela pandemia de covid-19, e conta com sua ajuda

| ACidade ON - Circuito das Águas -

Montagem com fotos capturadas de vídeo institucional do CCLBC
Com 52 anos completados em 26 de agosto, o Centro Cultural Louis Braille de Campinas (CCLBC) lançou uma vaquinha virtual com objetivo de angariar recursos para cobrir despesas administrativas, tentar ampliar seu atendimento e para promover reformas e adequações estruturais em sua sede, no Jardim Proença. O CCLBC, entidade que atende pessoas com deficiência visual, recebe recursos da Prefeitura de Campinas e da Fundação Feac (Federação das Entidades Assistenciais de Campinas). Mas, a pandemia fez despencar suas receitas provenientes das doações de voluntários.

"Nossos recursos próprios caíram quase 90%", contou o presidente do CCLBC, Benedito João Bertolla, o Benê. O número de doadores-associados caiu drasticamente, sendo que a entidade já chegou a registrar a marca de mais de 500 ao longo de sua história. Cada associado contribui com, no mínimo, R$ 30. "A pandemia veio e levou nossos doadores, já que as pessoas estão com dificuldades até de se alimentar." Essa verba é destinada às despesas administrativas.

"Os recursos que recebemos da Secretaria Municipal de Assistência e da Fundação Feac, por projeto apresentado e aprovado, são insuficientes para cobrir o custo da instituição em geral. Este ano, não conseguimos colocar no projeto da Feac todos os profissionais que necessitamos", explicou Benê. O dinheiro da Feac paga os profissionais da equipe técnica, que atendem diretamente os usuários. São eles a psicóloga, pedagoga, assistente social, terapeuta ocupacional e a educadora física.

Com isso, o CCLBC pretende abrir futuramente vagas para instrutor de informática, com o objetivo de capacitar os usuários para o mercado de trabalho, e para fisioterapeuta, já que muitos dos atendidos têm problemas de postura corporal. Mas, elas só serão preenchidas quando tiver dinheiro em caixa. Por isso, a vaquinha é muito importante.

Assista abaixo ao vídeo em que Benê fala sobre os 52 anos da instituição e a importância da vaquinha.  


Atendimento reduzido 

A falta de recursos também reduziu o tempo do atendimentos pela metade. Os usuários, que antes tinham oito horas, passaram a receber um atendimento de quatro horas diárias. Segundo Benê, o prédio também tem capacidade para receber 150 usuários e está com 72. "Um orçamento feito por um engenheiro apontou que o custo da reforma do prédio é de R$ 220 mil."

Como a entidade atende a pessoas com deficiência visual de Campinas e região, os desafios são muitos. "Em Campinas, onde fica sediada a instituição, temos cinco pessoas em lista de espera e na região, o número é maior. Sinto-me mal na condição de presidente e de deficiente visual de ter que fazer com que esperem na fila por falta de vagas. Estamos fazendo um esforço para ampliar o atendimento."

Vale ressaltar que a entidade busca recursos também na condição de prestador de serviços, com a sua minigráfica. "Temos uma minigráfica que oferece serviço especializado em braille, como a confecção de cardápios e de cartazes", disse Benê. "Fazemos um serviço diferenciado porque buscamos a excelência."

De treinamento de locomoção a pilotagem de fogão

O CCLBC tem dentro de sua sede um miniapartamento para treinamento dos usuários em afazeres diários domésticos, como lavar e cozinhar. Benê passou pelo treinamento no CCLBC em outubro de 1983, quando chegou a Campinas aos 23 anos. "Aprendi a lavar roupa, cozinhar para preparar as minhas batatinhas fritas que amo e a me locomover na cidade, já que sabia fazer o uso da bengala."

A orientação e mobilidade visam proporcionar ao cego segurança na sua locomoção e com isso ter sua autoestima elevada, facilitando a integração ao seu meio. Esse treinamento é dado pela terapeuta ocupacional. "Ela ensina o usuário a andar com a bengala", explica Benê. "Eu sinto que, quando isso acontece, a gente se sente como um passarinho fora da gaiola, porque ganhamos a nossa autonomia, a nossa independência."

Benê perdeu os dois olhos em 20 de fevereiro de 1974, aos 14 anos, em um acidente automobilístico. A perua em que estava bateu em um caminhão, quando havia deixado o estádio em São Paulo e seguia para Tietê, cidade natal de Benê, um palmeirense fanático. "Fiquei três dias em coma na UTI e minha cabeça parecia uma bola de tão inchada devido ao trauma no rosto", contou. 

Deixou o hospital ainda com hemorragia nos olhos, passando por vários serviços oftalmológicos para tentar voltar a enxergar, mas não teve êxito. Depois de um mês na casa de uma tia para fazer peregrinações por clínicas em São Paulo, voltou para Tietê. "Foi quando, numa manhã, tentei tirar minha própria vida, mas graças a Deus meus pais chegaram a tempo de impedir. Foi quando, de repente, uma luz tão forte surgiu dentro de mim, e senti a vontade de continuar os estudos."

Foi no Instituto de Cegos Padre Chico, que fica no bairro Ipiranga, em São Paulo, e é dirigido por Irmãs da Companhia das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, que Benê aprendeu o braille e a locomover-se de forma autônoma, e voltou a praticar a seu hobby predileto, o futebol de salão. Depois de um tempo, retornou à cidade de Tietê, onde estudou em escola regular. "Também fui vendedor do Baú da Felicidade (risos), mas não era para mim. Até que um dia, uma amiga de sua mãe, voluntária no CCLBC, me convidou para morar em Campinas."
 

Reprodução da capa do Facebook do CCLBC

CCLBC nasceu em berço educacional

O CCLBC nasceu em uma das salas do Colégio Estadual Carlos Gomes, em 26 de agosto de 1969. Um grupo de senhoras da sociedade, que faziam as transcrições dos materiais a tinta para o braille, perceberam a necessidade de criação de uma instituição para atender os estudantes com deficiência visual. "O Colégio se tornou ponto de referência para crianças e adolescentes cegas em Campinas", contou Benê.

O Centro Braille funcionou, primeiro, em uma sala da Galeria Rio Branco, passando por outros imóveis, até chegar à sua atual sede própria, no Jardim Proença, na gestão de Euclides de Arruda, um rotariano que conseguiu construir o prédio com a ajuda da Prefeitura (doação do terreno) e de empresários da cidade. Quer saber mais sobre o Centro Braille? Clique aqui para ser redirecionado para o site da entidade ou aqui ,para o Facebook da instituição

De lá para cá, o CCLBC se destacou com atividades em vários segmentos, como esporte e cultura, inclusive com atletas que representaram o país em paralimpíadas. Sobre atletas paralímpicos, o Alma Inclusiva fez o post "Nossa deficiência não nos define", afirma mensagem de atletas paralímpicos brasileiros", em 11 de dezembro de 2020, dando voz também à Associação Paraolímpica de Campinas. 

Recentemente, a entidade promoveu a "Pizza Solidária" e conseguiu arrecadar aproximadamente R$ 4 mil. Quem tiver interesse em conhecer o CCLBC é só entrar em contato pelo número de WhatsApp (19) 99722-8640. O trabalho e a história do Centro Braille podem ser conferidos no site da entidade, que é o www.braille.org.br ou nas redes sociais, sendo os endereços do Facebook: fb.com/centrolouisbraillecampinas e do Instagram: @centrolouisbraillecampinas. Clique no link abaixo caso queira participar da vaquinha e ajudar o Centro Braille.

 
Em tempo 1: Gosto sempre de indicar canais do YouTube para quem quer saber mais sobre o tema tratado; neste caso, deficiência visual. Desta vez, sugiro os canais "Histórias de Cego" e na "Visão do Cego". Os dois canais, por exemplo, mostram como funciona a escrita braille. 

Em tempo 2: Aqui, em Campinas, estamos no "Setembro Verde", mês que também é voltado à conscientização dos direitos das pessoas com deficiência. A campanha foi instituída pela Lei Municipal 15.177/2016. Por isso, o prédio da Prefeitura está iluminado de verde.  
Reprodução do Facebook do CCLBC com referência ao Setembro Verde. Imagem de 2020