A compreensão do outro tem relação estreita com a prevenção ao suicídio

Dia 17 de Setembro é o Dia Mundial da Compreensão, data para refletir sobre o nosso olhar para nós mesmos e ao outro

| ACidade ON - Circuito das Águas -

Seja um sol para muitos girassóis. Arte de minha sobrinha Giovanna Barreto, que foi usada na matéria sobre Setembro Amarelo em 2020. Eu amo essa arte!
- Você quer ver a sua mãe? 

Perguntou-me a enfermeira, numa noite escura e fria, apesar dos 37º C. Não pensei e respondi de imediato. 

- Não. Obrigada. 

Mesmo assim ela insistiu. Mas, neguei novamente. Meu irmão, desesperado, passou como um relâmpago ao meu lado e adentrou pela portinha da UTI do hospital, onde minha mãe já tinha recebido diagnóstico de morte cerebral, mas seguia mantida viva por aparelhos. Os aneurismas já tinham estourado porém, o coração continuava a bater. 

Eu sabia que poderia ser a última vez que teria a oportunidade de vê-la no plano físico. Mas, não queria me despedir, não queria deixá-la partir, como se coubesse a mim esta tarefa. Na loucura de meus pensamentos, mesmo que lá no fundo a razão tentasse subir à tona e ganhar da insensatez, do desespero e da não aceitação da perda, mantinha minha crença no imaginário. 

Naquela madrugada, estava decidida que queria levar a imagem alegre e cantarolante de minha mãe. O telefone tocou em casa e alguém do outro lado da linha telefônica deu a notícia da morte de mamãe. Não podia entrar naquele túnel sem fim de tristeza. Então, relutei e deixei aquele espiral escondido dentro do meu ser, sabendo que um dia iria ganhar força e se transformar em um mostro. Mas, era preciso... meu irmão, mais novo do que eu, precisava de mim. 

Fazia pouco tempo que nosso pai tinha morrido e a imagem que ficou desse dia foi de meu irmão em cima dele fazendo massagem em seu peito na tentativa de ressuscitá-lo. O câncer havia vencido a batalha. A morte foi a cura para o meu pai, que sofreu muito, mas, na época, questionei Deus. 

Os anos se passaram, e sempre me vinha à cabeça o meu comportamento nas mortes de meu pai e de minha mãe. Achei-me fraca, principalmente, na morte de minha mãe. Aquela memória de não querer vê-la na UTI havia deixado uma ferida em minha mente e, quando a casquinha saía, derramava sobre o meu ser uma ira e uma sensação de dor. Por isso, providenciei que a ferida ficasse bem quietinha por anos.  

Esta semana, ao terminar de ler o livro indicado pela escola ao meu filho, que se chama "O chamado do mostro", de Patrick Ness, minha memória voltou a me cobrar. Mas, foi diferente. Eu já estava com a ideia de escrever sobre o Dia da Compreensão Mundial, comemorado em 17 de setembro, aliado ao Setembro de Amarelo. Então, li a última página do livro e busquei me conectar comigo mesma. 

Abracei minha memória com força, mas de forma carinhosa, e conectei minhas emoções, sentimentos e pensamentos. Busquei não ter vergonha ou receio de relembrar sentimentos negativos. Fiquei ali presente. Lembrei-me, inclusive, o que me incomodava. Não era o fato de eu não ter entrado naquele quarto de hospital, mas, sim, os comentários de algumas pessoas que me culparam por não ter feito isso, sendo que algumas delas eu nem as conheço.

Então, minhas emoções deram passagem à lógica. Eu e minha mãe nos amamos. Ela está em mim; sou parte dela. Naquele quarto, minha mãe não estava mais. Então, a despedida não fazia sentido, mesmo que, na ocasião, não quisesse aceitar a ruptura simbólica. Não queria me despedir com aquela imagem de minha mãe, deformada, cheia de tubos e equipamentos.

Busquei compreender a mim mesma. Liguei o "modo on" da conexão comigo mesma para abraçar minha alma, para me acolher. Por isso, quero falar do Dia Mundial da Compreensão, que também impacta muito no Setembro Amarelo. E, espero do fundo do meu coração, que isso possa de alguma forma te ajudar a encontrar o seu caminho. Cada um faz a sua jornada e escolhe as maneiras como vai atravessá-la.

Dia Mundial da Compreensão

Apesar de não ser instituída por nenhum órgão oficial, e não descobri a sua origem em minhas pesquisas, li postagens que explicam que o Dia Mundial da Compreensão "procura ampliar o entendimento entre as pessoas, ou seja, a paz entre as nações e os povos." Mas, no dia a dia de cada um, essa compreensão trata das diferenças, do respeito e da empatia. Te convido a se conectar consigo mesmo e com os outros, exercitando a compreensão, que requer flexibilidade, tolerância e empatia, inclusive consigo mesmo. 

Se compreender a gente mesmo é difícil, por que achamos ser fácil entender a situação do outro, como se fôssemos donos da razão, e sair julgando? Isso pode implicar em muita tristeza, depressão e até em suicídio. Precisamos de um momento de reflexão. Muitos de nós se tornaram haters ou "odiadores". Opinamos apenas por opinar e muitas vezes apenas para atingir mesmo.  

Fiquei pensando o que é de fato a compreensão? Eu mesma tinha sofrido por deixar de ser empática comigo mesma e apenas levar em consideração as declarações caluniosas quanto à minha não entrada no quarto de minha mãe, então já com morte cerebral. Acredito que todos temos o nosso tempo para tudo, inclusive até para nos entendermos, nos compreendermos.  

Foi por isso que convidei um dos mais renomados psicólogo e psicanalista do país, Ivan Roberto Capelatto, clique aqui para visualizar um breve currículo dele - para falar sobre compreensão e o Setembro Amarelo. Como ele disse: "A compreensão também evolui". Segundo ele, a compreensão sobre nós, seres humanos, pode incluir um aspecto depressivo, diante de tantas notícias ruins, como os feminicídios, mas também deve nos fortalecer quanto à forma como devemos nos comportar junto aos outros.

"Os haters que disseminam o ódio, são, na verdade, pessoas com uma personalidade psicopática. Psicopata é um sujeito que pela educação que teve, principalmente na primeira infância, não conseguiu organizar os componentes de uma vida saudável humana (..) Os que estão disseminando ódio não sentem nem raiva, nem medo, nem culpa. (...) Nós temos criado ao longo da história, principalmente nas últimas gerações do mundo, especialmente no Brasil, pessoas com uma personalidade psicopática bastante avançada (...) são aqueles que fazem o bullying mais terrível (...)".

Quanto ao suicídio, Capellato disse que o Brasil está liderando no ranking mundial na faixa etária dos 9 aos 25 anos. "O sujeito chega ao ponto que não existe mais o segundo seguinte de esperança e, geralmente, é cometido por pessoas que não têm nenhuma ou pouca resistência à frustação. Que pelo sofrimento não encontram reserva psíquica dentro de si para enfrentar a dor e passar por ela.(...) É cometido por crianças que não ganharam o joguinho prometido pelos pais, por aquele adolescente que começou a gostar da amiguinha que não gosta dele e ele se enforca. A gente também está criando, junto com os psicopatas, uma geração pobre no quesito resistência à frustação."  

Ouça a entrevista dele na íntegra, dividida por temas. 


Compreender as diferenças de pensamentos, sejam eles filosóficos, ideológicos, sexuais, éticos, religiosos, entre outros, é respeito ao próximo, principalmente, aos seus sentimentos. E isso não significa se anular e, consequentemente, concordar com o outro. O problema é que nós, seres humanos, de uma maneira geral, gostamos de mostrar conhecimento, capacidade, ou seja, gostamos mais de ensinar do que aprender. Afinal, aprender implica em ter de derrubar alguns preconceitos impregnados em nossas almas. 

Para a psiquiatra Carmen Sylvia Ribeiro, membro do Departamento de Psiquiatria e do Comitê Permanente de Prevenção ao Suicídio, ambos da Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas (SMCC), o dia 17 de setembro nos faz refletir sobre a "prioridade de compreender o próximo e o respeito às diferenças entre os seres humanos em aspectos físicos, comportamentais e culturais".  

Segundo a psiquiatra, compreender "é praticar o exercício da paz e propagar o respeito, olhar ao outro e a si mesmo com os olhos plenos de amor e compaixão". Clique aqui para ler seu artigo completo sobre esta data. Compreender o outro tem relação estreita com a prevenção ao suicídio. Por isso, associei os dois temas.  

Setembro Amarelo 

Em 24 de setembro do ano passado, escrevi "Setembro amarelo, seja um sol para alguém na primavera". Foi meu primeiro post. E terminei o texto fazendo a seguinte sugestão: "Quero que o Setembro Amarelo seja apenas a explosão da primavera. Então, se você pensa como eu, seja um sol para alguém." Seja o cuidador de um jardim de girassóis, se estiver bem. Caso não esteja, procure ajuda. Não tenha vergonha.

Uma dica são as lives da SMCC, que já foram realizadas, mas você pode conferi-las ao longo deste post. A primeira foi realizada na última terça-feira (14). O tema foi "Conexão Brasil-Chile na compreensão do risco emocional em crianças e adolescentes", com a participação da psicóloga e terapeuta familiar e transpessoal Cibele Passos, que atua no Chile; do psiquiatra infantil e coordenador do Departamento de Psiquiatria da SMCC, Osmar Della Torre; e do pediatra José Espin Neto, coordenador do Departamento de Pediatria da SMCC e professor da PUC-Campinas. Confira abaixo.  

 Na quarta-feira (15), o foco da live foram os profissionais de saúde. A psiquiatra Karina Barbi, professora do Departamento de Psiquiatria da PUC-Campinas, falou sobre os "Efeitos da pandemia na saúde mental dos profissionais da saúde: o sofrimento inevitável". Também participaram dessa live a psiquiatra Carmen, e o médico Jorge Carlos Machado Curi.  


A palestra de encerramento, nesta quinta (16), teve como tema "Ao avançar da idade, a pulsão de vida está comprometida? Como cuidar da vitalidade no aspecto emocional?" A live contou com participação da psiquiatra e psicogeriatra Flávia Brandão, da psiquiatra e médica da família Isabele Martins e do psiquiatra Fábio Martins Fonseca. 


A SMCC informou que dados da OMS (Organização Mundial de Saúde) mostram que, a cada 40 segundos, uma pessoa tira a própria vida. Por ano, mais de 700 mil suicídios acontecem em todo o planeta. Em 2019, mais de uma em cada 100 mortes (1,3%) foi resultado de suicídio. No Brasil, são registrados mais de 12 mil suicídios, e os números só têm aumentado nos últimos anos. 

Serviços gratuitos 

A SMCC conta com um Grupo de Acolhimento para familiares de vítimas de homicídio. Por conta da pandemia, o grupo está se reunindo apenas no formato on-line, sempre na 2ª segunda-feira do mês, das 19h30 às 21h30. As inscrições, gratuitas, podem ser feitas pelo WhatsApp (11) 96035-7707. O grupo é coordenado pelas psicólogas Jéssica Silveira, Iva Siqueira e Ana Luiza Cassiani. 

Outro atendimento é o Centro de Valorização da Vida (CVV), um serviço gratuito. Para conversar com um voluntário basta ligar para o 188, que funciona 24 horas por dia ou acesse www.cvv.org.br, para conversar por e-mail e pelo "chat abraço". Em 10 de setembro, Dia Internacional da Prevenção do Suicídio, o CVV lançou a campanha #ConteúdoSensível, que busca conscientizar a sociedade sobre cuidados e saúde mental. Assista abaixo o vídeo da campanha.