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Liberdade religiosa é um direito constitucional. Basta de intolerância religiosa!

Estado laico garante que o culto religioso é livre para todos os brasileiros. Por isso, a liberdade de crença deve ser respeitada!

| ACidade ON - Circuito das Águas -


As religiões de matrizes indígena e africana são as que mais sofrem intolerância religiosa no Brasil. Fotos: Marcello Casal Jr/Agência Brasil e Alessandra Ribeiro/Arquivo Pessoal
A história nos mostra que a intolerância religiosa sempre motivou barbáries, conflitos e guerras... a desumanização dos seres humanos. Para provarmos que o nosso Deus é o único, somos capazes de atear fogo, quebrar imagens e até matar. Mas, que Deus é esse que prega o ódio? Somos livres para escolher a religião. Posso não gostar da crença do outro e de até não querer ter uma. Mas, seja lá qual Deus você tenha, com certeza, Ele prega o respeito e o amor ao próximo.

Não é à toa que a Declaração Universal dos Direitos Humanos assegura o direito à liberdade religiosa. Se bem que, nesses tempos de redes sociais, os direitos humanos são tratados como "mimimi" por alguns, exceto quando se trata de seus próprios interesses ou de alguém próximo, ou ainda quando está ligado a pessoas que defendem com unhas e dentes. A religiosidade de nós brasileiros, na média geral, é fruto da sociedade ocidental. No Brasil, especificamente, o cristianismo, religião dominante, desembarcou junto com os portugueses.

Apesar de estarmos em pleno século 21, ainda continuamos a nos deparar com ocorrências de discriminação e violência contra praticantes de religiões de matrizes indígena e africana. A ponto da organização comunitária @atyguasu ter de fazer uma campanha para "dar suporte aos povos Kaiowá, Nhandesy e Nhanderu rezadores (as) ameaçados (as) por ataques de intolerância religiosa no Mato Grosso do Sul (MS)." Segue o texto postado:

"Durante os últimos anos, temos visto com desespero aumentarem as queimadas criminosas das nossas casas de reza, contabilizando apenas em 2021 quatro queimadas intencionais. Atualmente, mais 15 casas de reza se encontram em perigo, recebendo ameaças de novos ataques criminosos.  

Estes atos de racismo e intolerância religiosa contra os povos GK configuram o crime de etnocídio e genocídio e crimes aos direitos humanos, que afetam não apenas os rezadores e sim a integridade física e psicológica de toda a nossa comunidade Kaiowá e a grande rede de famílias extensas, que sofre constantemente ataques à cultura tradicional, sendo alvo de esbulho aos nossos territórios legítimos, reconhecidos pela Constituição Nacional. 

A queima das casas de reza, é mais uma das violências que nós, povos Guarani e Kaiowá, sofremos, enquanto esperamos a demarcação dos territórios tradicionais, e choramos o assassinato das nossas lideranças. As casas de reza são fundamentais para a vida comunitária, sendo também lugares de acolhimento e encontro entre as famílias e onde ocorrem reuniões, rituais, curas, celebrações e encontros políticos. 

Por isso, nós povos Guarani Kaiowá, através dos conselhos Aty Guasu, Kunhangue Aty Guasu e Retomada Aty Jovem (RAJ), pedimos a ajuda dos nossos parceiros e amigos. Por meio dessa ampla campanha permanente, solicitamos apoio para a reconstrução das casas de reza Kaiowá como também para a compra de material para tomar precauções frente às ameaças (câmeras para segurança, caixa dágua e mangueira, teias para cercar, telefones, e outros materiais).

Doações através da conta:
Banco do Brasil
Ag 3938-1 cc 12.188-6
Tonico Benites
PIX/CPF: 557.639.601.49" 
 
Este incêndio à casa de reza do povo Guarani Kaiowá aconteceu em 2 de outubro deste ano, na Tekoha Guapo'y, no município de Amambaí (MS), e foi denunciado nas redes sociais da APIB - Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (@apiboficial). "Estamos tristes porque é nosso templo sagrado. Com muito sacrifício erguemos e agora num piscar de olho foi queimado", denunciou Elizeu Guarani, coordenador executivo da Apib e Atyguasu, na postagem.
 
Lu Ahamy, guerreira indígena da etnia Guarani Mbya, artesã, chefe de cozinha e coordenadora do Coletivo EtnoCidade de Campinas. Foto: Arquivo pessoal.
Para Lu Ahamy, coordenadora do Coletivo EtnoCidade de Campinas, guerreira indígena da etnia Guarani Mbya, esta intolerância religiosa é fruto do racismo e do preconceito. Leia o depoimento dela:  
 
"Quando um indígena fala do SAGRADO, não se entende RELIGIÃO...o sagrado para nós, é tudo que existe para nossa sobrevivência, é a terra que pisamos, o ar que respiramos, as águas de nossos rios e cachoeiras, e os animais que habitam nossas matas. Isto é o sagrado. Nos conectamos com o mundo quando nascemos e acreditamos em Nhanderu Tupã, nosso grande espírito, nosso pai maior. O que falta na humanidade é respeito por tudo que é sagrado. Muito fácil falar de amor quando quem se ama faz parte do seu círculo de amigos, família. O difícil é respeitar a opção do outro, a religião, o povo, o gosto do seu próximo. No dia que se aprender o que é respeito vai ser possível falar de amor. Não acredito em 'Intolerância Religiosa. Acredito no preconceito, no racismo e na falta de respeito que se tem com seu próximo. Não precisa ter a mesma opinião que eu, mas é seu dever me respeitar." 
 
Babalorixá Moacyr de Xangô faz parte da diretoria da Associação de Religiosos de Matriz Africana de Campinas e Região (Armac). Foto: Arquivo Pessoal.
O babalorixá Moacyr de Xangô, da diretoria da Associação de Religiosos de Matriz Africana de Campinas e Região (Armac), foi iniciado no Candomblé em agosto de 1986. Para o líder religioso da comunidade IlèAséObá Adakedajo Omi Aladò, "a intolerância é um câncer na sociedade". Ele é presidente do Conselho Municipal de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra de Campinas para o biênio 2021/2022, e faz parte do Conselho de Cultura de Paz e do Comitê Técnico da Saúde da População Negra do Município de Campinas. Leia abaixo o depoimento dele: 
 
"A intolerância religiosa é um câncer na sociedade, sendo os religiosos de matriz africana os mais perseguidos. Sabemos que isso vem também do racismo, pois é uma religião oriunda dos escravizados. Não adianta impor religiões na nossa cultura, pois temos uma ancestralidade muito enraizada e forte nesse país.  
 
É fácil criticar e julgar, mas, se não conhece a história dos negros, dos escravizados, você não conhece a história desse país. A nossa religiosidade é totalmente diferente das demais. Nenhuma religião pratica ódio, desamor, brigas. O que falta é um entendimento dentro da sociedade para entender e compreender as religiões de matriz africana. 

O combate ao racismo e à intolerância religiosa tem que vir de todas as esferas (família, educação, governo). Sabemos que essa luta contra a intolerância religiosa não acabará tão cedo. Existem alguns dispositivos de combate, tais como a Justiça e a Armac. Está última entra no momento em que a religião é atacada em todos os sentidos. 

A Armac fez uma parceria com o escritório Cascone Advogados, na pessoa do Dr. Vinicius Cascone. É um núcleo de profissionais que está conosco nessa luta contra a intolerância religiosa e o racismo. Hoje a Armac está protocolando um documento no Ministério Público onde solicitamos que ele, Ministério Público, delegue aos órgãos competentes uma posição contra esses ataques aos nossos espaços religiosos. 

As religiões de matriz africana abraçam o ser humano do jeito que ele é. Nossa luta sempre irá continuar. Que Xangô nos abençoe pelo dia de hoje. Axé!!! 
 
No vídeo abaixo, o advogado Ademir José da Silva, presidente da Comissão de Direito e Liberdade Religiosa da OAB Campinas, explica que a intolerância religiosa é crime e deve ser denunciado. Já o jornalista e cineasta Marcelo Costa Krahô, membro do Comitê Distrital de Diversidade Religiosa e também da Iniciativa das Religiões Unidas (URI), contou que as casas de rezas de várias etnias estão sofrendo incêndios criminosos e alguns povos continuam tendo de lutar pelas suas crenças. 
 
A historiadora Alessandra Ribeiro, doutora em Urbanismo pela PUC-Campinas, gestora cultural da Casa de Cultura Fazenda Roseira, mestre da Comunidade Jongo Dito Ribeiro (em Campinas), mãe de santo umbandista e consultora especializada em Estudos e Gestão Cultural de Matriz Africana e Patrimônio Cultural Imaterial, falou no vídeo sobre a importância da cultura de matrizes africanas e sobre o incêndio criminoso que a Comunidade Jongo sofreu. O padre Antonio Alves, pároco da Paróquia São Marcos, o Evangelista, falou que o tema precisa ser debatido mais do que nunca devido "à intolerância a qualquer diferença" nos tempos de hoje. "Aquilo que nos une deve ser maior do que nos divide", afirmou. 
 


 Até entre os cristãos há intolerância. A prova é a revolta de alguns com a 5ª Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE) 2021, que, inclusive, teve como tema "Fraternidade e diálogo: compromisso de amor". Falei sobre isso no post "Deus não é nomenclatura de igreja e nem de direita ou esquerda".  
 
Se você quiser saber mais sobre o que é de fato a intolerância religiosa, recomendo um texto com perguntas e respostas, inclusive com a explicação porque foi criado o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, comemorado anualmente em todo o território nacional no dia 21 de janeiro. O conteúdo está na página da Associação das Defensoras e Defensores Públicos do Estado do Mato Grosso do Sul (Adep-MS).  
 
Diga não à intolerância religiosa! Não devemos aceitar ofensas por escolhas religiosas. O amor é a base de todas as religiões e é isso que deve ser praticado no dia a dia. Ame e respeite o seu próximo, independente da religião que ele pratica! Como disse o padre Antonio: "Aquilo que nos une deve ser maior do que nos divide." 
 
Em tempo: O Dia das Crianças passou, mas sempre é dia de brincadeiras. Aprenda a fazer a confeccionar uma Abayomi,  boneca de tecido preto, feitas sem cola, sem costura, sem olhos, sem estrutura interna e sem detalhes. É feita com nós, dobraduras e cortes ou rasgos. 
 



Sobre o Blogueiro

Alma Inclusiva

Nice Bulhões é jornalista, disléxica e mãe azul. Pantaneira, nasceu em Corumbá (MS) e mora em Campinas (SP) há mais de 20 anos. Passou por redações de jornais impressos nos dois estados e atualmente faz assessoria de imprensa. No blog, trata de assuntos referentes a todas as formas de inclusão.


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