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O que os brasileiros pensam ser necessário para que se tenha um padrão de vida digno?

Esta é principal pergunta de um projeto-piloto realizado por pesquisadores da Unicamp e da Universidade de Cardiff, no Reino Unido, que começa a colher resultados

| ACidade ON - Circuito das Águas -

Estudo piloto em três comunidade da cidade de São Paulo confirma a maior vulnerabilidade à pobreza das famílias com crianças. Foto: Pixabay
Carlos, de 49 anos, mora em um barraco de madeira com a mulher e seus cinco filhos. É pedreiro autônomo e sua renda mensal média é de R$ 700. Antes da pandemia de covid-19, tinha dificuldade de comprar comida e considerava desejável e não essencial fazer até três refeições ao dia, ou comprar um sabonete para tomar banho. Agora, os alimentos desapareceram do armário, já que os "bicos" acabaram. Ficaram as dores na barriga e a fraqueza causadas pela fome.

Sabonete? Para a família, virou um artigo de luxo, supérfluo, mesmo que eles tenham ouvido falar sobre a importância de se lavar as mãos com água e sabão, por conta das variantes do coronavírus e do influenza. Por decreto presidencial, famílias com renda per capita de até R$ 100 são consideradas em situação de extrema pobreza, enquanto aquelas com renda per capita até R$ 200, em condição de pobreza.

O personagem Carlos é fictício, mas se enquadra dentro dos resultados preliminares levantados por um projeto-piloto realizado por pesquisadores da Unicamp e da Universidade de Cardiff, no Reino Unido. Ele está sendo aplicado pela primeira vez no Brasil em etapas.  

"Não é somente incluir, é discutir democraticamente que sociedade queremos", afirmou a pesquisadora Flávia Uchôa de Oliveira. Foto: Divulgação
A pesquisadora Flávia Uchôa de Oliveira, psicóloga e professora da Uninove, explica as etapas do projeto: "A primeira delas foi realizada em Campinas, com a aplicação de grupos focais. A segunda foi a aplicação de um questionário on-line em três comunidades da cidade de São Paulo: Brasilândia, Paraisópolis e Vila Vietnã. As pessoas responderam ao questionário de forma virtual em setembro de 2020, para a manutenção dos protocolos sanitários. Esta etapa foi desenvolvida com o apoio essencial do Ministério Público do Trabalho. A terceira etapa do projeto é uma pesquisa que abrangeu mais de 2300 domicílios ao longo de 2021." 

Um dos resultados relativos à insegurança alimentar (à fome) da pesquisa feita nas três comunidades da cidade de São Paulo. Foto: Reprodução
"A ideia central é identificar o que as pessoas entendem como itens e serviços essenciais", explica o professor Luís Renato Vedovatodoutor em Direito Internacional e um dos pesquisadores do projeto. No futuro próximo, os pesquisadores esperam conseguir apoio de agências de fomento e órgãos de Justiça para promover o levantamento em todo o território brasileiro. 

"Queremos expandir o levantamento para o Brasil todo", afirmou o professor Luís Renato Vedovato, da Unicamp. Foto: Divulgação
O método

Diferente de outros métodos, que têm como base a renda para enquadramento da pobreza, a chamada Abordagem Consensual, usada nesta pesquisa, tem como principal objetivo investigar as diversas dimensões da pobreza a partir do ponto de vista da população, em busca de um consenso sobre o que é necessário para uma vida digna no nosso país hoje. 

"Estamos bastante atrasados no sentido de abandonar esta perspectiva monetária para falar de uma perspectiva de padrão de vida", afirmou a pesquisadora Ana Elisa Spaolonzi Queiroz Assis. Foto: Divulgação
Para isso, faz-se uma combinação de métodos qualitativos e quantitativos para investigar se há consenso entre diferentes grupos da sociedade brasileira a respeito do padrão de vida que todos deveriam ter e até identificar as necessidades não percebidas por uma parcela da população. "Estamos bastante atrasados no sentido de abandonar esta perspectiva monetária para falar de uma perspectiva de padrão de vida", afirmou a pesquisadora Ana Elisa Spaolonzi Queiroz Assis, pedagoga, jurista e professora da Unicamp, em entrevista ao Repórter Unicamp, que está disponibilizada no intertítulo "Pesquisadores falam dos resultados".

O personagem Carlos, por exemplo, como nunca teve três refeições ao dia, não considerava essencial tomar café da manhã, almoçar e jantar uma privação por falta de dinheiro. Outros exemplos de questionamentos feitos aos entrevistados, pelo método da abordagem consensual, são ter dois conjuntos de roupas, comprar medicamentos quando necessário e ter acesso a água e eletricidade.

A metodologia já é usada em outros países, além do Reino Unido, como o México e África do Sul, e está sendo aplicado agora, além do Brasil, em outros, como na Argentina. Confira aqui mais sobre este tipo de levantamento pelo mundo. 

O professor Shailen Nandy, da Universidade de Cardiff, é quem coordena os estudos ao redor do mundo. Foto: Divulgação
No Brasil, além dos recursos do Global Challenges Research Fund (GCRF), o projeto conta com apoio e financiamento do Ministério Público do Trabalho (MPT). A coordenação dos trabalhos é do cientista político Shailen Nandy, professor da Cardiff University.

"Se olharmos para o que a maioria dos brasileiros consideram como prioridades nacionais, não é a corrupção que aparece como principal problema para alguns candidatos políticos. São coisas como acesso à saúde, educação, desigualdade social, justiça", disse Nandy, na entrevista ao Repórter Unicamp. "Coisas que programas como o Bolsa Família, o SUS e outros tendem a enfrentar."

Segundo Vedovato, esta metodologia é validada internacionalmente, aprovada pelo IBGE desde 2006 e endossada pelo grupo de especialistas em estatística sobre pobreza da Organização das Nações Unidas (ONU). "Na pesquisa na comunidade da Vila Vietnã, por exemplo, todos os moradores entrevistados tiveram problemas com alimentação nos últimos seis meses, ou seja, passaram fome. Esse tipo de informação ajuda na criação de políticas públicas."  

As etapas realizadas

A Unicamp assinou acordo de cooperação com a Universidade de Cardiff em dezembro de 2018. Em julho de 2019, foi feito uma série de workshops e reuniões com os representantes das duas universidades e promotores públicos para falar sobre pobreza. 

Neste mesmo ano, começou um estudo com grupos focais em Campinas, que abordaram a pobreza entre crianças no Brasil. Deste levantamento, foi publicado o trabalho "Populações Vulneráveis". Já a pesquisa feitas nas três comunidades de São Paulo foi publicada na Revista Jurídica: Trabalho e Desenvolvimento Humano, da Procuradoria Regional do Trabalho da 15ª Região. Ela pode ser acessada aqui

Pesquisadores falam dos resultados 

Ouça abaixo a entrevista dada à Revista Justiça pelos pesquisadores Vedovato, da Unicamp, e Flávia Uchôa de Oliveira, da Uninove.  

  

Assista a entrevista dada pelo professor Shailen Nandy, da Universidade de Cardiff, que coordena os estudos ao redor do mundo, e pelas pesquisadoras que lideraram as diferentes etapas no Brasil: Flávia Uchôa de Oliveira (Uninove) e Ana Elisa Spaolonzi Queiroz Assis (Faculdade de Educação da Unicamp) ao Repórter Unicamp.  

 

Situação está mais preocupante

O ano de 2021 fechou uma década de alta nos preços mundiais dos alimentos, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), revelando um aumento de 28,1% nos custos da comida no ano 2021, quando comparado a 2020. No Brasil, problemas climáticos e de oferta encareceram alguns itens do prato feito e do cafezinho do brasileiro em 2021. 

O salário necessário para se comprar uma cesta básica de alimentos em janeiro deste ano é de R$ 1.100,00, segundo o Dieese, quando no mesmo período de 2021 eram necessários R$ 1.039,00. Com a pandemia, muitos perderam o emprego ou permaneceram desempregados. Com isso, a fome voltou de forma avassaladora.

O censo do IBGE, que já foi tratado pelo Alma Inclusiva, com o título "A formulação de políticas públicas depende do Censo 2022", e o levantamento com abordagem consensual são importantes para garantir o acesso ao direito e à vida, especialmente aos mais vulneráveis. Que essas políticas públicas sejam feitas urgentemente, de forma eficaz, preservando o maior direito do ser humano, o direito à vida. 

Sobre o Blogueiro

Alma Inclusiva

Nice Bulhões é jornalista, disléxica e mãe azul. Pantaneira, nasceu em Corumbá (MS) e mora em Campinas (SP) há mais de 20 anos. Passou por redações de jornais impressos nos dois estados e atualmente faz assessoria de imprensa. No blog, trata de assuntos referentes a todas as formas de inclusão.


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