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O dia que Jorge Mendonça me ensinou a bater pênalti

Ex-craque de Palmeiras e Guarani, Jorge Mendonça terminou a vida morando no Brinco de Ouro e trabalhando no Projeto Bugrinho. Foi assim que eu tive a oportunidade de conhecer e aprender com ele.

| ACidade ON - Circuito das Águas

Em meados de 2004 eu decidi que queria ser jogadora de futebol. Eu havia largado a Ginástica Rítmica por conta de uma contusão e achava que futebol se aprendia de tanto assistir. Comecei treinando em Serra Negra mesmo, minha cidade. Mas a turma de futebol, pequena na época, não vingou.  

Em 2005 convenci minha mãe que eu jogaria no Projeto Bugrinho do Brinco de Ouro. Fomos a Campinas fazer minha matrícula, e eu, apesar da idade, sempre fui pequena, acabei sendo destinada a uma turma de meninos mais novos.  

O esquema seria, de quarta-feira minha mãe me levaria e traria de Campinas e na sexta eu pegaria um ônibus assim que saísse da escola. Meu tio me buscaria e me levaria ao Guarani. Tudo muito "simples".  

Enrolei três parágrafos para dizer que eu nunca fui boa com a bola nos pés. Queria ser atacante, mas gol mesmo, poucos. Pela minha altura, zagueira e goleira estavam descartadas. Então nos primeiros meses, insisti no ataque.  

Uma das coisas que me chamou a atenção logo de cara, foi o homem que levava o saco de bolas todo treino. Ainda magro, o rosto revelava um grande craque. Um cara que sabia fazer gols.  

Eu já tinha ouvido as histórias sobre os problemas com o álcool e mulheres. Mas nunca imaginei conhecer um ídolo assim tão de perto. Então todo treino eu observava toda vez que Jorge Mendonça chegava com o saco de bolas no início da aula. Sempre silencioso parecia não lembrar que tinha realizado grandes coisas e escrito o nome no futebol.  

Ele dispensa apresentações, mas merece ter eternizado alguns momentos. Jorge Mendonça fez 8 gols em uma mesma partida. Contra o Santo Amaro pelo Campeonato Pernambucano, marcou todos os gols dos 8 a 0 do Náutico. Deixou o Zico na reserva na Copa do Mundo de 78. E por fim, foi artilheiro no Campeonato Paulista com 38 gols, só Pelé e Feitiço do Santos marcaram mais que ele em todas as edições.  

Em um treino de finalizações, eu estava sofrendo com minhas tentativas frustradas de chutes a gol. Algum tempo depois eu perceberia minha total falta de habilidade para o ataque. Mas antes disso eu tive uma grande ajuda.  

Jorge, silencioso como todas as vezes, se aproximou de mim. Delicadamente, me chamou a atenção e me deu um conselho para pegar melhor na bola e chutar corretamente. O tempo e a emoção desse momento me fizeram esquecer as exatas palavras que ele me disse. Mas a humildade de um grande artilheiro em passar o que sabia para uma criança (claramente sem talento) me tocaram.  

Até o final de 2005, todas as vezes que encontrava o Jorge Mendonça no Brinco de Ouro surgia um sorriso cúmplice em meu rosto. De um segredo compartilhado entre nós.  

Eu estava viajando com a minha família para praia quando soube do seu falecimento. E chorei, por mim, que perdia um amigo, e pelo futebol, que perdia um ídolo.

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