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'Sayonara' é uma joia rara da indústria cinematográfica

Filme de 1957 retrata os desafios enfrentados por um soldado norte-americano e uma jovem atriz japonesa para viverem uma história de amor

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Cena do filme "Sayonara" com Marlon Brando e Patricia Owens (Foto: Divulgação/Reprodução)
 Estamos inseridos no contexto do mundo ocidental, participando de todas as suas angústias e frustrações diante da pandemia e das notícias sobre a devastação da Amazônia, do Pantanal, do racismo, miséria, fome, crises e desrespeito aos direitos humanos.  

E indiscutivelmente a nostalgia é o resultado longamente encubado de nossas decepções diante do presente e do futuro. E no momento em que o futuro radioso e longamente esperado ainda se revela pouco promissor, viro o rosto para o passado, quando tudo era felicidade. 

Me esqueço facilmente das desventuras sofridas naqueles tempos e me lembro com saudades somente dos momentos de felicidade e de prazer vividos nas salas de cinema. 

E na esteira da onda de nostalgia, me lembro de mais uma joia rara da sétima arte: "Sayonara", um filme audacioso e corajoso, dirigido por Joshua Logan, que demonstrou pleno domínio da arte cinematográfica e fez o público vibrar com muita emoção. Este filme eu assisti pela primeira vez no Cine Amparo no dia 20 de junho de 1965 e perdi as contas de quantas vezes o revi.  

Sinopse e comentário  

"Sayonara" tem como quadro o Japão pós-guerra, isto é, já com a presença norte-americana no território durante a Guerra da Coréia. O governo dos Estados Unidos mantinha a política contrária ao casamento entre os soldados americanos com mulheres japonesas.  

O major Lloyd Gruver (Marlon Brandon), que sempre fora contra as relações entre homens e mulheres dos dois países, fica à frente de um dilema ao se apaixonar por uma japonesa. Ele teve que enfrentar os tabus da época e os seus próprios preconceitos.  

A substância profunda do filme está no encontro do major com uma jovem atriz em um dos célebres teatros clássicos japoneses. Sem dúvida é também a história do entrechoque de duas civilizações, do confronto entre os modos de pensar, de viver, de costumes familiares e sociais. Mas é antes de tudo, uma história de amor e uma das mais belas que nos foi apresentada na tela dos cinemas. Um amor que não conhece barreiras.  

Em 1956, as forças armadas norte-americanas fizeram um censo e foi constatado que pelo menos 10 mil militares americanos desafiaram os regulamentos e se casaram com mulheres japonesas, assim como o autor do romance, que serviu de base para o filme "Sayonara", James A. Michener. 

Michener soube compreender, assimilar e amar aquela velha civilização da Ásia, mesmo com todas as complexidades e transformações que sofreram após a guerra. E assim, o autor do livro "Sayonara" se inclui entre os novelistas mais populares dos Estados Unidos e com o seu espírito universalista atraiu leitores de todos os povos do mundo, que admiram o seu empenho na interpretação exata dos grandes problemas humanos. 

Muitos de seus livros foram adaptados para o cinema e entre eles está "As Pontes do Toko Ri", que foi mais um grande filme adaptado a partir de sua obra literária.  

Para além da beleza e força emocional da narrativa, o filme também propõe uma "introdução" à cultura japonesa. Joshua Logan dirigiu com sobriedade, elegância e atenção humana e emocional.

Marlon Brando, Patricia Owens, James Garner, Kent Smith são alguns dos atores ocidentais que fizeram um bom trabalho neste filme. Mas a cena foi roubada pelos orientais, como Miko Taka. Mas as verdadeiras estrelas deste filme são os dois atores coadjuvantes Red Buttons e Miyoshi Umeki, que roubam boa parte do espetáculo com atuações garbosamente ilustrativas. Dennis Hopper fez uma rápida aparição como um policial militar.  

Miyoshi Umeki e Red Buttons brilharam na tela e por suas atuações ganharam o Oscar de melhores atores coadjuvantes, em 1958. A vitória de Miyoshi Umeki com o Oscar de melhor atriz coadjuvante fez dela a primeira atriz asiática a levar o prêmio. Além disso, até 2019, ela é a única pessoa oriental a ganhar um Oscar.  

O filme tem instantes grandiosos do verdadeiro cinema, mas cabe uma restrição. O ótimo ator Ricardo Montalban aparece interpretando um japonês, o Nakamura, um ator do Teatro Kabuki. Não gostei. Até o início dos anos 60 em Hollywood, muitos papéis onde existiam personagens orientais eram ocupados por atores ocidentais caracterizados com pesadas (e caricatas) maquiagens, a chamada "yellowface".  

Marlon Brando, também havia atuado caracterizado de japonês em "Casa de Chá do Luar de Agosto" de 1956. Ficou ridículo. Outro ator caracterizado foi Mickey Rooney. Ele interpretou um personagem japonês, Sr. Yunioshi , na versão cinematográfica de 1961, de Truman Capote, no filme "Bonequinha de Luxo".  

Seu desempenho foi criticado por alguns anos seguintes como um racista estereótipo. Rooney disse mais tarde que ele não teria aceitado o papel se soubesse que iria ofender as pessoas. A prática, hoje condenável, foi muito usada na indústria do cinema.  

A trilha sonora também é memorável com a condução de Franz Waxman. Tem uma lindíssima fotografia (em Technirama) que capta toda a beleza natural, arquitetônica e estética do Japão. Muitas cenas externas foram filmadas em Kobe, Hyogo, Tóquio, Isaka, Ilha de Takamatsu, além das internas nos estúdios da Warner Bros, em Hollywood.  

Gosto muito deste filme porque aborda as relações que se desenvolveram entre militares americanos e mulheres japonesas no pós-guerra, assim como os obstáculos que os preconceitos criaram para eles.  

"Sayonara" apesar de antigo é um filme muito atual, porque aborda a questão da intolerância e deve ser conferido pelo público do século XXI. A mensagem e a moral da história ainda são relevantes diante deste mundo moderno cheio de intolerância e preconceitos. É um dos filmes mais humanos que já vi nas telas do cinema.  

Tem um valor imensurável pela sua mensagem de bondade, resignação e de dedicação que o diretor Joshua Logan quis transmitir e isso ele conseguiu com enorme sucesso. Diante de uma história humana e sincera ao final do espetacular filme, o público de 1965, num verdadeiro impacto emocional no Cine Amparo, aplaudiu de pé.  

Ficha Técnica
Filme:
"Sayonara"
Direção: Joshua Logan
Produção: Warner Bros
Ano: 1957
Elenco: Marlon Brando, Patricia Owens, James Garner, Red Buttons, Martha Scott, Miiko Taka, Miyoshi Umeki, Kent Smith, Douglas Watson, James Stacy e Dennis Hopper
Roteiro: Paul Osborn (baseado no romance de James A. Michener)
Música: Franz Waxman
Fotografia: Ellsworth Fredericks
Figurino: Norma Koch

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