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'Intriga Internacional' expõe técnicas que consagraram Alfred Hitchcock

Obra é geralmente citada como a primeira da história do cinema a apresentar o uso estendido da tipografia cinética

| ACidade ON - Circuito das Águas

Cena do filme "Intriga Internacional" (Foto: Divulgação)
 O enredo do filme "Intriga Internacional" gira em torno de um homem inocente que é perseguido nos Estados Unidos por agentes de uma misteriosa organização que tenta impedi-lo de bloquear o plano de contrabandear microfilmes que contêm segredos do governo.  

Este é um dos vários trabalhos de Hitchcock que apresentam a trilha sonora de Bernard Herrmann e a sequência dos créditos iniciais realizada pelo designer gráfico Saul Bass, a qual é geralmente citada como a primeira da história do cinema a apresentar o uso estendido da tipografia cinética. 

Com o advento do cinema e da animação gráfica, surgiu a possibilidade de combinar texto e movimento. Os primeiros exemplos de animação de letras surgiram em 1899, no trabalho de publicidade de George Méliès.  

Nos filmes iniciais, a grande parte do texto era estático. Foi a partir de 1960 que começou a abertura de filmes com títulos com autêntica característica de tipografia cinética.  

Estudiosos reconhecem que o primeiro filme a usar extensivamente a tipografia cinética foi "Intriga Internacional", de Alfred Hitchcock. Com textos dos créditos que "voam" de cima para baixo e de baixo para cima, e finalmente desaparecem no filme em si. Uma técnica semelhante foi empregada também por Bass no filme "Psicose" (1960), que também é de Alfred Hitchcock.  

Desde então, o uso da tipografia cinética tem se tornado comum nos títulos de abertura de filmes e de anúncios de televisão. É também muitas vezes produzida usando programas de animação padrão, incluindo o Adobe Flash, Adobe After Effects e Apple Motion. 

E em 1959, embora ainda com contrato com a Paramount (para quem realizaria seis filmes), Alfred Hitchcock filmou o seu único filme para a mais conservadora Metro-Goldwyn-Mayer.  

Contando com a sua habitual equipe (Herbert Coleman, Robert Burks, Bernard Herrmann, George Tomasini, Robert F. Boyle), Hitchcock contou com um argumento de Ernest Lehman para filmar aquele que ficou conhecido como a síntese da sua fase americana.  

"Intriga Internacional" estreou em julho de 1959 no Festival de San Sebastian, na Espanha, onde recebeu a Concha de Prata. O júri preferiu dar a Concha de Ouro para o melodrama hoje quase esquecido "Uma cruz à beira do abismo" (1959), de Fred Zinneman, com Audrey Hepburn e Peter Finch, por sinal um ótimo filme.  

Hitchcock nunca fez segredo dos métodos e macetes usados em seus filmes. O mais famoso artifício do mestre é o "MacGuffin", recurso desenvolvido por ele. Trata-se de um artefato, ou arranjo, que põe em movimento a trama do filme. Trata-se de um pretexto ou objeto ou qualquer outra coisa que seja muito importante para os personagens, mas muitas vezes não para o espectador. 

Hitchcock dizia que em "Intriga Internacional" estava o melhor MacGufin segundo ele, "o mais vazio, o mais inexistente, o mais visível".  

Principalmente quando existe na trama um microfone escondido numa estatueta, que é de grande importância para os atores, mas para quem vê o filme, tanto faz o que há em cena.  

Estes recursos criados pelo mestre do suspense foram utilizados por muitos cineastas em diversos filmes e em especial na série 007 James Bond.  

Até 1960 Hitchcock nunca tinha sido valorizado pela crítica cinematográfica norte-americana e creio que até pelos brasileiros. Foram os críticos e futuros cineastas da revista francesa "Cahiers Du Cinemá" que o tiraram do limbo e o valorizaram como merecia.  

O prestígio deste cineasta na França gerou um movimento nos EUA, e porque não dizer no Brasil, entre os jovens críticos e estudantes de cinema que passaram a analisar e utilizar recursos do mestre. Foram muitos os diretores que assumidamente tentaram e tentam imitar o estilo "hitchcockiano".  

Entre eles cito: François Truffant, Claude Chabrol, Stanley Donen, Brian De Palma, Mel Brooks, Roman Polanski, Anselmo Duarte, Glauber Rocha, Roberto Farias e tantos outros. Os ensinamentos de Hitchcock estão presentes nas academias de cinema e fazem parte do currículo. Os prêmios que Hitchcock começou a receber a partir do final de 1960 foram reflexos disso. 

Dentre outras técnicas utilizadas pelo mestre era que ele aparecia repentinamente nos seus filmes. E em "Intriga Internacional", Hitchcock aparece no início do filme, correndo para pegar um ônibus e por volta dos 45 minutos, ele pode ser visto no interior de um vagão de trem, em que Cary Grant viaja escondido, ao lado direito uma senhora sentada de perfil que certamente é Alfred Hitchcock vestido de mulher. 

Em "Intriga Internacional" temos muitas cenas marcantes com sequências emblemáticas, como Cary Grant fugindo de um ataque de um avião num campo árido, que dura cerca de sete minutos sem palavras, e se tornou um dos momentos mais conhecidos do cinema americano  

Tem ainda a sequência onde ele se livra da perseguição num leilão, recordando a conferência de "Os 39 degraus", outro grande clássico de Hitchcock, e as cenas onde Grant é perseguido sobre as cabeças dos presidenciáveis: George Washington, Thomas Jefferson, Theodore Roosevelt e Abrahan Lincoln, que estão esculpidas no Memorial Nacional do Monte Rushmore, em Black Hills, em Keystone, Dakota do Sul. São cenas brilhantes e muito bem feitas. 

O filme foi um enorme sucesso junto do público, sendo ainda nomeado para três Oscars (melhor montagem, melhor design de produção e melhor argumento), no ano em que "Ben-Hur", de William Wyler, arrematou 11 estatuetas.  

Este filme foi selecionado em 1995 para preservação no National Film Registry pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos como sendo "cultural, histórica ou esteticamente significativo".  

Em "Intriga Internacional", Alfred Hitchcok não deixa de lado a qualidade técnica perfeccionista e a marca autoral que o tornou um mestre no suspense e nos envolve numa produção bem cuidada, cheia de muito suspense com um elenco de astros impecáveis que garantem o espetáculo.

Ficha Técnica
Filme:
"Intriga Internacional"
Direção: Alfred Hitchcock
Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM)
Ano: 1959
Elenco: Cary Grant, Eva Marie Saint, James Mason,, Jessie Royce Landis, Leo G. Carroll, Josephine Hutchinson, Philip Ober, Martin Landau
Argumento e roteiro: Ernest Lehman
Música: Bernard Herrmann
Fotografia: Robert Burks [filmado em VistaVision)
Direção artística: William A. Horning e Merrill Pye
Cenários: Henry Grace e Frank R. McKelvy
Efeitos especiais: A. Arnold Gillespie e Lee LeBlanc
Montagem: George Tomasini

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