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Não há dilema sobre as redes sociais

As empresas que controlam as redes sociais criaram ótimo ambiente para conduzir o eleitorado e definir suas decisões

| ACidade ON - Circuito das Águas -

Trump está ameaçando banir algumas redes sociais chinesas do mercado americano. O motivo é que fazem exatamente o mesmo que Facebook, WhatsApp, Instagram, Twitter e todas as outras, desde o finado Orkut. Como denunciado no filme Dilema das Redes, elas encontraram um caminho muito pouco ético para vender com imensa efetividade.

"Vender" é levar alguém a tomar uma decisão, a decisão de comprar alguma coisa. Mas vamos pensar no jeito como fazem isso. Conduzir alguém a comprar é muito mais efetivo se o vendedor conhece bem a pessoa com quem ele fala, isto é, se ele sabe seus gostos, seu passado, seus princípios religiosos e políticos, sua orientação sexual, idade, gênero, raça, estado civil e se tem filhos ou não, além de inúmeros outros detalhes da vida do eventual comprador. As redes sociais têm este montão de informações a respeito de todos nós, inclusive quem nunca teve uma conta lá. Assim, fica fácil para as suas clientes (empresas, com seu catálogo de produtos), produzir um anúncio que chega apenas a um grupo imensamente preciso de prováveis consumidores (um exemplo seriam homens entre 25 e 35 anos, solteiros, negros, com renda mensal entre R$ 5.000,00 e R$ 15.000,00, heterossexuais e cristãos, que já compraram passagens de avião, compraram bebida alcoólica e votam à esquerda, outro poderiam ser mulheres gaúchas, entre 45 e 55 anos, sem filhos, que praticam esportes, compram pacotes de viagens internacionais e comida pronta). As empresas produzem peças publicitárias, memes, textos, vídeos engraçados e até produtos diferentes para cada grupo, vendendo diferentes características para cada um, isto é, se mostrando de maneira um pouco diferente para cada pessoa. Assim se pode conduzir aquele grupo específico a tomar as decisões mais úteis (para quem o conduz).

A segunda parte é o método para usar destas informações. A pesquisa em psicologia social tem conseguido avanços que a maioria de nós nem imagina. O que as empresas fazem não é convencer ou persuadir de maneira racional, mostrando as melhores qualidades ou utilidades do produto. Nem tampouco se trata de incluir uma peça obviamente publicitária no site. São detalhes insuspeitos que se conectam subliminarmente com pedaços muito íntimos de nossas personalidades, torcendo e reorganizando o nosso jeito de fazer as coisas, moldando nossos pontos de vista e até nossas crenças mais profundas.

Para a gente proteger nossa própria autonomia, a recomendação geral é a de utilizar as tais redes sociais de maneira moderada e consciente, procurando compreender que nem tudo o que se vê ali é verdade ou correto. Se a gente entra desatento, acaba fazendo compras de impulso, mudando levemente nossas opiniões sobre o mundo e nós mesmos ou concordando na entrega de dados privados, tudo isso sem pensar direito no que estamos fazendo ou dizendo. A privacidade e a permanente reflexão a respeito das nossas ações dariam a sensação de uma proteção razoável, se levamos enconta apenas as consequências individuais dessas decisões. Dou como exemplo levíssimo um amigo que comprou uma roupa esquisita, que eu não usaria e acho que ele mesmo nunca usou. Mas foi o dinheiro dele, decisão exclusivamente individual e não está causando qualquer dano a ninguém.

Mas agora estão chegando as eleições, portanto as decisões e suas consequências deixam de ser apenas individuaispara se tornarem coletivas. Digo que as decisões são coletivas porque misturam as escolhas individuais em uma decisão maior, da coletividade inteira. O momento do voto, por exemplo, é só aparentemente individual. Antes de chegar na urna a gente conversa com os amigos, participa em panelaços, passeatas, discussões públicas, lê mensagens, sites, jornais, assiste discussões públicas, vídeos "engraçados", opniões de especialistas e... frequenta as redes sociais! Então aquele momento do voto, que parece tão individual e solitário, é o resultado de um monte de atividades coletivas, de interações que a pessoa teve antes de chegar na frente da urna. A consequência também é coletiva, obviamente, já que o eleito vai governar todo mundo e votar leis que serão obrigatórias para todos nós. As decisões políticas, especialmente nas eleições, são coletivas. Suas suas consequências também.

Por isso é importante regulamentar o uso político das redes sociais. Elas são poderosíssimas formas de condução do povo, inclusive para favorecer interesses que não são os nossos (não custa nada lembrar que nenhuma dessas empresas é brasileira). Há tecnologias desenhadas até mesmo para impedir qualquer fiscalização, com sofisticadas criptografias e nenhum registro eletrônico das mensagens trocadas pelos usuários. É o sonho do crime organizado e um ataque frontal à soberania do país. Precisamos, como povo, decidir os limites sociais desse tipo de atividade. Não podemos pertimir que empresas estrangeiras tenham tanto poder na escolha dos nossos representantes.

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Sobre o colunista

Luiz Marcello de Almeida Pereira é advogado e escreve sobre Direito Constitucional para quem gosta de política.

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