Publicidade

Blogs e colunas   -   Lextra

Governo é condomínio: a Petrobras foi o começo da arrumação

As mudanças no comando de estatais e outros órgãos adaptam o governo a novos arranjos entre os grupos de apoio

| ACidade ON - Circuito das Águas -

Onde tem gente, tem conflito. Até as alianças mais harmoniosas têm lá suas divergências internas. A vida ensina isso para todos nós, seja em namoros ou casamentos, sociedades empresariais, amizades ou mesmo na relação entre colegas de trabalho ou estudo. As pessoas têm sonhos diferentes, valores que se chocam, ritmos e situações de vida que não são os mesmos.

Por isso tudo, governos são condomínios. São ambientes de convivência entre pessoas e grupos diferentes, muitas vezes até mesmo divergentes. Sempre é assim, por isso é que todo governo tem incoerências ou tenta realizar planos incompatíveis entre sí. Cada sócio ajuda o governo a caminhar no sentido dos seus interesses. Apoio, afinal de contas, não é cheque em branco, para o cabeça fazer o que lhe der vontade. O apoio de alguém vai para quem melhor fizer o que é da sua própria vontade.

O condomínio de Bolsonaro tem alguns sócios visíveis:
a) o capital financeiro e das grandes fortunas, ultra-liberal e radicalmente contrário a planos de desenvolvimento nacionalista;
b) evangélicos e católicos de matiz radicalmente conservadora e contrários ao iluminismo e ao Estado Laico;
c) forças de segurança e estruturas autoritárias de funcionamento paralelo ao Estado, especialmente contrários aos direitos humanos;
d) militares e simpatizantes que olham com suspeição o Estado de Direito e a democracia;
e) lavajatistas;
f) ruralistas contrários à função social da propriedade e ao direito ambiental;
g) profissionais liberais, gerentes, pequenos comerciantes e industriais contrários aos direitos trabalhistas e previdenciários.
h) o capital internacional, especialmente atraído para a venda de armas e a aquisição de nossas riquezas naturais e empresas estatais;
i) o Centrão, formado por bancadas que representam os interesses acima e que também têm seus interesses próprios interesses, de manutenção dos seus mandatos e áreas de influência no Estado (ministérios e outros órgãos e entidades públicas).

Existem religiosos, militares, pequenos empresários e policiais que não se identificam com os valores e objetivos do bolsonarismo. A lista é dos seus apoiadores, não de seus opositores. Também existem grupos de apoio que não se vêm, como em qualquer governo. A lista acima foi a aliança que venceu a eleição e com a qual bolsonaro vem governando, sempre com a ajuda de poderosas estruturas de propagação eletrônica de mensagens. Existe, no bolsonarismo, um núcleo de políticas públicas apoiados por todos estes setores, como a renúncia ao planejamento econômico e a redução de direitos sociais prestados pelo Estado. Mas eventualmente acontecem conflitos entre eles, como se viu na política de fixação de preços de combustíveis.

A política de preços da Petrobrás está alinhada com o capital financeiro e com os grupos internacionais que vêm comprando os pedaços mais lucrativos das empresas nacionais, como refinarias. O efeito de aumento generalizado de preços acaba, entretanto, por machucar a popularidade do goveno. Entre um e outro, Bolsonaro preferiu acenar para a popularidade, aproveitando-se da oportunidade abrir mais um naco do governo para o emprego de militares. Como compensação para os interesses contrariados, acelerou a entrega da Eletrobrás, geradora de 1/3 de toda a energia elétrica do país e que foi contruída com investimentos públicos efetuados durante 60 anos. Os passos para a entrega de outros setores da economia nacional também estão se acelerando.

Medidas como estas vêm promomendo a harmonia entre os interesses dos grupos que apóiam o governo, reequilibrando e reorganizando a arquitetura de poder entre os apoiadores. Enquanto isso, Bolsonaro vai retirando viabilidade dos rivais eleitorais. Conseguiu sacar Moro do governo e manter o apoio dos lavajatistas, mesmo com as suspeitas de corrupção que recaem sobre sua família e aliados cariocas. O fim da Lava Jato ainda abriu caminho para estreitar as relações com o Centrão e para obter o apoio legislativo necessário para aprovar legislação favorável aos outros sócios. Demitir Paulo Guedes e manter a confiança do capital financeiro vai requerer alguma habilidade, mas para conseguir isso já deu um passo importante, com a autonomia do Banco Central. O desafio é tornar inviáveis quaisquer candidaturas que representem os interesses dos grupos acima, como Luciano Huck ou Dória. Se os apoiadores da direita não tiverem alternativa e houver uma candidatura viável no campo oposto, todos os sócios vão apoiar sua reeleição, mesmo que insatisfeitos com este ou aquele ato do governo.

Quem mora em condomínio pode não gostar muito de um vizinho ou de outro, mas antipatia é motivo para ir morar na rua.

Lextra

Sobre o colunista

Luiz Marcello de Almeida Pereira é advogado e escreve sobre Direito Constitucional para quem gosta de política.

Publicações



Facebook



Publicidade

Publicidade