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ButanVac é óbvio benefício do investimento público

A decisão por privatizar ou publicizar uma iniciativa não deve ser ideológica. O valor das iniciativas públicas é crucial

| ACidade ON - Circuito das Águas

Na economia nova, que hoje dá certo no mundo inteiro, o Estado tem papel fundamental.

Aliás, não se trata de novidade alguma. Friedrich List, na primeira metade do século XIX, já ensinava o funcionamento das políticas econômicas vitoriosas, com protagonismo público. O nosso Celso Furtado não apenas escreveu sobre o assunto mas também atuou na implementação das políticas públicas necessárias, na segunda metade do século XX. Ha-Joon Chang explicou isso tudo com o vocabulário do século XXI na sua maravilhosa obra editada pela UNESP. Faz tempo que se sabe: sem planejamento e sem Estado, não há desenvolvimento econômico.

Nenhuma das indústrias privadas brasileiras de medicamentos sequer iniciou pesquisas para uma vacina com tecnologia própria. Por enquanto existem apenas as tentativas da União Química e da Precisa Farmacêutica importar insumos tecnológicos estrangeiros e montar vacinas por aqui. É imensamente difícil fazer o desenvolvimento inteiro de vacinas, ainda mais em tão pouco tempo como agora. As empresas privadas estão cumprindo seu papel e será um alívio que consigam se organizar com as condições sanitárias e técnicas para a produção nacional das respectivas vacinas. Elas estarão contribuindo com uma luta cada vez mais obviamente nacional, não de um político ou outro. Mas é importante notar que não tinham condições financeiras ou estruturais para a pesquisa que o Butantan fez.

A construção tecnológica de uma vacina própria é um empreendimento com enormes riscos, em interface direta com os celeiros de produção científica e com o SUS. No Brasil, quase toda a produção científica está nas universidades públicas. Nos EUA e na Europa, mesmo que haja universidades privadas de ponta, a pesquisa é financiada quase sempre pelo Estado. E não se trata de dinheiro que resulte rapidamente em produtos socialmente relevantes. Demora porque é necessário construir a infra-estrutura de laboratórios, capacitar cientistas e formar equipes produtivas, organizar os caminhos de financiamento, avaliar adequadamente os projetos prioritários ou de necessidades urgentes, relacionar os distintos campos de autação. Enfim, não se trata de investimento que fique bem na bolsa de valores, com sua obsessão pela mais urgente e imediata lucratividade. Por isso tudo, é muito difícil que uma empresa privada grande, principalmente uma SA aberta, se dedique à pesquisa com capital próprio. Já as empresas públicas não precisam se orientar por essa pauta, posto que seu objetivo é o benefício da sociedade como um todo e não precisam correr atrás de lucro.

As vacinas que primeiro foram produzidas e hoje dominam o mercado, todas, foram produzidas com amplo e exclusivo financiamento público nos EUA e na Europa, além da obviamente pública economia chinesa. O exemplo deveria servir para que olhemos com mais cuidado para os próximos programas de privatização. O Estado deixado pelos militares, ao fim da última ditadura, era um monstro de obscuridade e ineficiencia com pontuais jóias de produtividade. Após décadas, é crucial separarmos o que é necessária racionalização administrativa e o que é repetição ideológica e cega do mantra privatista.

Surpreendentemente, ainda temos empresas públicas pelas quais vale à pena lutar.

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