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Quem mente para si mesmo se dá mal. Para os outros, nem tanto.

Uma análise curta da estratégia negacionista sob a perspectiva dos planejamentos público e eleitoral.

| ACidade ON - Circuito das Águas -

A obra do economista Carlos Matus é uma referência em planejamento de políticas públicas, com vários modelos bastante úteis para campos do Direito como o Finanças Públicas e Administração. No livro Política, planejamento e governo ele faz uso do conceito de poder explicativo, bastante interessante para quem gosta de política.

Quem planeja, para fins públicos ou privados, precisa confiar no que sabe sobre o mundo, especialmente sobre o que é relevante para os seus planos. Para construir as políticas públicas de saúde, por exemplo, é importante contar com dados confiáveis sobre a pandemia. Para estes efeitos, conhecer marcenaria é muito menos importante. Para funcionar bem, um plano precisa estar fundado em conhecimento confiável e relevante. Sobre a produção desse conhecimento indico esta aula do Professor Rodrigo Araújo, em 40 minutos muito bem recheados.

Outra coisa é que a gente não planeja sozinho. Na imensa maioria dos casos tem alguém com interesses e projetos rivais aos nossos, que partem de noções diferentes a respeito da situação em que nossos planos vão se desenvolver. A disputa entre os dois (ou mais) lados envolve também uma disputa entre as diferentes noções sobre a realidade. Assim, se um lado acha que a economia vai melhorar e o outro acha que vai piorar, muito do sucesso deles vai depender do que acontecerá de verdade. Pronto: o melhor conhecimento é o que tem melhor "poder explicativo", ou seja, o que nos ajuda a entender o mundo de maneira mais precisa e nos dá segurança a respeito do futuro (no qual os nosso planos vão se desenrolar).

Por isso é que mentir para si mesmo é mau negócio, seja a mentira a respeito do mundo ou de nós mesmos. A consequência das mentiras a respeito do mundo é esperar por coisas que não vão acontecer, como tratamentos miraculosos para doenças virais. O desastre, neste caso, é o investimento de recursos e energia nestas fantasias. Já as mentiras que as pessoas contam para si mesmas, sobre suas competências e habilidades, criam o risco de confiarem em possibilidades que não existem. Estas pessoas agem de maneira imprudente e se colocam em perigo, imaginando que poderão lidar com situações muito além das próprias forças. Muitas vezes, esse delírio pode colocar em risco até pessoas próximas.

Mas, há exceções. Na política pode existir vantagem em construir comunicação diferente dos fatos. Acho que um exemplo pode ajudar. Imaginemos o candidato "A", que fundamenta seus projetos políticos no terraplanismo. O cálculo "se a terra for plana, vou ser eleito" não tem muita chance de sucesso. Agora imaginemos o candidato "B", que fundamenta seus projetos no fato de muita gente acreditar no terraplanismo. Como ele sabe disso, faz pose de simpático à ideia, para conseguir os votos desse pessoal. O cálculo seria "se os terraplanistas se identificarem comigo, votarão em mim". A diferença é que, no caso de "A", a hipótese tem baixíssimo poder explicativo (não custa reafirmar, o planeta é uma bola). No segundo caso, a hipótese tem grande poder explicativo (as pessoas votam em quem parece pensar como elas). Se mentir para si mesmo é se aproximar do desastre, mentir para os outros pode ser o caminho da vitória.

Erro gravíssimo é desprezar o adversário que se comporta como um iludido ou um comediante, achando que ele realmente acredita no que fala e faz. Quem menospreza o perigo para a ordem constitucional raramente se prepara da maneira mais acertada para o enfrentar. Enquanto isso, a barbárie espreita.

 

Luiz Marcello de Almeida Pereira (marcello@lextra.com.br) é advogado, mestre em Direito Constitucional e professor da disciplina. Mais informações no lextra.com.br/marcello.

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Sobre o colunista

Luiz Marcello de Almeida Pereira é advogado e escreve sobre Direito Constitucional para quem gosta de política.

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