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Distritão é ataque do governo à inteligência política

Entenda a proposta que proíbe o voto em legenda e facilita a vida dos caciques da velha política dos partidos de aluguel

| ACidade ON - Circuito das Águas -

O adágio popular diz que os despreparados discutem fatos, os intermediários conversam sobre pessoas e os mais cultos debatem sobre ideias e projetos. O distritão, projeto dos partidos que participam do governo Bolsonaro, reduz toda a política a fatos e pessoas. Os projetos coletivos, que precisam de organização social e econômica, de planejamento e inteligência, perdem força com o sistema proposto. Só é possível entender a proposta no conjunto do pior ataque da ultradireita à democracia nacional.

A proposta proíbe o voto em legenda. Conta apenas os votos dados aos candidatos e, pior ainda, desprezam os votos dados a candidatos que não forem eleitos. Então, se um partido tem 10 famosos, como Tiririca ou a Mulher-Abacate, conseguindo 1 milhão de votos nesses 10 famosos, eles são eleitos. Se outro partido consegue o mesmo número de votos, só que distribuídos por 100 candidatos, ele pode ficar sem nenhuma vaga. Isso destrói os partidos que têm algum significado. A gente joga fora os projetos partidários de fôlego e fica só com a dança dos famosos.

Uma origem para esses "grandes nomes", capazes de capturar a atenção do eleitor durante a campanha e se eleger, são estrelas de popularidade instantânea, movidos por fatos e situações momentaneamente favoráveis. Outra origem é o próprio sistema partidário: os grandes líderes dos partidos, reconduzindo linhagens hereditárias e outras parentalhas da velha política. Todos os votos dados a novas ideias serão jogados no lixo, junto com as esperanças da sociedade se tornar melhor.

Por isso tudo, o "distritão" é útil para:
a)candidatos que já têm alto cacife político, como os donos dos partidos do Centrão;
b)candidatos "ricos", que conseguem desviar os recursos do Fundo Partidário e de financiamentos em caixa dois para apenas a sua candidatura. Coincidentemente, a mesma proposta dificulta muito a fiscalização do dinheiro eleitoral;
c) candidatos famosos, mesmo que não tenham qualquer proposta para a sociedade.

E o "distritão" é ruim porque:
a) joga fora todos os votos em candidatos de início de carreira, gente nova na política e que precisaria dos votos partidários para as primeiras eleições;
b) proíbe o voto na legenda, calando o eleitor que está indeciso quanto às pessoas, mas tem certeza quanto ao tipo de proposta que prefere;
c)distorce a vontade popular, elegendo pessoas populares em partidos com menos votos e diminuindo partidos com grandes projetos e mais votos, mas poucas estrelas de popularidade.

Luiz Marcello de Almeida Pereira escreve às quintas. É advogado, mestre em Direito Constitucional e professor da disciplina. Visite Lextra para mais informações ou envie mensagem para marcello@lextra.com.br em caso de dúvida, crítica, ou sugestão.

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Sobre o colunista

Luiz Marcello de Almeida Pereira é advogado e escreve sobre Direito Constitucional para quem gosta de política.

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