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Consequências tempestuosas da Covid para a cidadania

Já é possível prever algumas dificuldades orçamentárias, políticas e jurídicas da permanência da Covid na sociedade brasileira

| ACidade ON - Circuito das Águas -

A pandemia poderá, a médio prazo, exigir novos esforços na luta por solidariedade e igualdade, que a constituição prestigia. Vamos começar por três fatos:
a) a Covid veio para ficar, como reconhecido em recente editorial da Nature;
b) até 70% dos casos, mesmo que leves, são acompanhados de sequelas e sintomas persistentes, inclusive neurológicos, como noticiado pela agência Lupa;
c) quase 100% dos internados não foram vacinados, conforme esta matéria;

Sequelas e sintomas persistentes atingem o corpo inteiro, com grande prevalência da falta de ar e fadiga, mas alcançando ainda palpitações, dores abdominais e diarreias, complicações renais e hepáticas. Aqui, entretanto, gostaria de dar atenção aos sintomas neurológicos, como lapsos de memória, falta de concentração, depressão, dor de cabeça, tontura, perda de olfato e paladar e alterações de consciência. Estes são sintomas que podem reduzir a capacidade cognitiva das vítimas, especialmente as não vacinadas.

Como a pandemia não vai embora, imaginemos a situação daqui a dez anos. Haverá um grupo de pessoas que teve acesso a vacinas, cuidados e máscaras, conseguindo se proteger da infecção, não contraindo a doença ou a contraindo poucas vezes. Mas haverá outro grupo que terá tido Covid muitas vezes, mais de uma vez por ano. Se existe grande chance de sequelas e sintomas persistentes ao se contrair a doença uma vez, quando se multiplica esta chance ao longo de tantas situações se chega à certeza de que todo este grupo de não vacinados e descuidados terá alguma complicação neurológica no final do período.

Haverá pessoas sâs e outras com baixo suprimento de oxigênio para um sistema nervoso escangalhado por sequelas e sintomas persistentes. Imaginemos como será uma sociedade assim, com duas categorias de cidadãos cuja diferença é exatamente a característica mais humana de todas: o uso do cérebro e do conhecimento para enfrentar problemas no cotidiano.

Dentre as vítimas estarão os que não tiveram acesso às vacinas por decisão governamental e os que se simplesmente recusaram aos cuidados mais óbvios. Será necessário que a sociedade preste socorro a estes sequelados mentais, mantendo a solidariedade e cuidando de suas necessidades. Eles serão um desafio a mais para os que estarão às voltas com a reconstrução do país, após o atual período. Provocarão permanente estresse nos sistemas de saúde e assistência social, por exemplo, demandando investimentos públicos neste campo e pesando também sobre os orçamentos familiares.

O futuro que descrevi não é inevitável, obviamente. Ainda existe alguma chance de resgatar nossos concidadãos, concentrando esforços para que vacinas, esclarecimentos e cuidados cheguem a todos, especialmente os que não têm acesso nem mesmo ao SUS. Em face desta perspectiva tempestuosa, deve haver também esforços para conduzir os reticentes a cuidar de si mesmos ainda hoje, antes que sejam clinicamente incapacitados de fazer isso. As consequências da sua falta de juízo recairão sobre toda a sociedade.

Luiz Marcello de Almeida Pereira escreve às quintas. É advogado, mestre em Direito Constitucional e professor da disciplina. Visite Lextra para mais informações ou envie mensagem para marcello@lextra.com.br em caso de dúvida, crítica, ou sugestão.

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Sobre o colunista

Luiz Marcello de Almeida Pereira é advogado e escreve sobre Direito Constitucional para quem gosta de política.

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