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A descentralização da energia e o empoderamento dos consumidores.

Impulsionando uma infraestrutura cada vez mais inteligente

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O arranjo do setor elétrico vem passando por importantes mudanças no país e no mundo. O tradicional fluxo unidirecional de energia, onde a geração é feita em grandes usinas, longas linhas de transmissão e com os elétrons sendo distribuídos pelas concessionárias, já não é mais a tendência para o futuro. Sem contar os grandes impactos ambientais causados pelas usinas e linhas e também as perdas causadas pelas longas distancias da geração ao consumo.  

A figura do consumidor passivo já não tem mais sentido em um mundo dinâmico que vivemos. Estar conectado à rede da concessionária e apenas pagar uma conta com as tarifas reguladas, pré-estabelecidas e inegociáveis já não é um meio que estamos acostumados a ver nos novos modelos comerciais de bens e serviços, como o "shared market concept" que já temos no mundo de transportes, hotelaria, entretenimento etc. Eu, que trabalho no setor de energia a mais de 15 anos estou começando a sentir que o rumo da comercialização de eletricidade seguirá para um caminho mais alternativo e inteligente. 

A energia descentralizada, que é a geração próxima ao centro de consumo, os veículos elétricos e os novos conceitos de armazenamento através de baterias têm como tendência e praticamente uma necessidade: sua interconectividade através da digitalização. 

O perfil dos consumidores está mudando assim como o perfil da geração também sofrerá suas adaptações para uma forma mais "smart".  

Os consumidores, sejam residências, comércio ou indústrias, buscam tradicionalmente três requisitos de consumo inteligente. Primeiro: a redução de custos com melhores tarifas. Segundo: melhorar a qualidade na entrega de sua energia reduzindo as falhas e blackouts e em terceiro, a busca por fontes limpas e renováveis com um apelo de sustentabilidade voltada aos valores de seus negócios. 

Já estamos vivenciando conceitos disruptivos e podemos ver regularmente telhados de residências e estabelecimentos comerciais com placas solares fotovoltaicas instaladas e gerando energia para seu próprio consumo. Isso é o que chamamos de "prosumidor" - produtor e consumidor de energia - que respaldado por um recente marco regulatório, permite produzir energia, consumi-la simultaneamente ou mesmo exportar o excedente gerado para a rede e consumi-la em outro período.  


Todo esse novo fluxo bi-direcional de energia requer investimentos em tecnologia e digitalização, o que forçam as adequações das redes para o que chamamos de "smart grids". Uso de medidores inteligentes e interconectados também farão parte da constante evolução do sistema que também poderá usar estes dados para entender o perfil de consumo elétrico e o perfil de pagamento destes usuários. Através de big data analytics podemos iniciar o próximo passo para abrir demandas de comercialização de diversas possibilidades que podem ir do oferecimento de eficiência energética através da troca/venda de eletrodomésticos e equipamentos até o oferecimento de créditos financeiros. 


Outro salto tecnológico que podemos ter num futuro não tão distante, serão os ambientes de comercialização de todas as energias geradas de forma descentralizada. O setor elétrico brasileiro está iniciando discussões para estudar a tarifação de energia de forma horária. Em outros países esta modalidade já é uma realidade. Já temos diversos casos no EUA e Europa onde softwares conseguem fazer a gestão da geração de energia produzida nos telhados das casas de certos bairros e consolida todo excedente em um ambiente de comercialização virtual, onde através da tecnologia de blockchain esses pequenos lotes de energia são transacionados entre os produtores e consumidores desta "micro-rede" do bairro. 


O armazenamento através de baterias também começa a aparecer nas possibilidades de geração de energia inteligente no mercado brasileiro. Os custos desta tecnologia vêm caindo drasticamente cerca de 80% de 2010 a 2019 com potencial de mais redução para os próximos anos. Essa tecnologia tem diversas aplicações, porém no momento as soluções mais utilizadas são para uso em horário de ponta geralmente entre 18hs e 21hs dos dias úteis. O consumidor pode carregar a bateria em um momento que a tarifa é mais barata e despachar essa energia na hora de pico, onde as tarifas podem ser de 4 a 8 vezes mais cara, dependendo da concessionaria. Essa é uma aplicação tecnológica que faz a arbitragem da eletricidade em benefício de otimização de custos.  


Já em uma análise geral de negócios, a energia descentralizada proporciona uma excelente oportunidade de alocação de capital para investidores de pequeno e médio porte. Tradicionalmente, os projetos de energia são de longo prazo, de capital intensivo e com longos fluxos de caixa atrelados. O caso das pequenas usinas de geração Solar Fotovoltaica estão nessa rota, com o beneficio de ainda apresentarem uma tecnologia relativamente de baixo risco. No cenário atual onde temos a taxa Selic no patamar dos 6%, diversos investidores e fundos buscam maneiras mais rentáveis para suas estratégias. Estima-se que nos últimos 2 anos, este setor movimentou mais de R$ 4 bilhões de novos investimentos em projetos sem a mesma complexidade das tradicionais usinas de grande porte. Um volume interessante também analisando as projeções da necessidade de pelo menos mais R$ 10 bilhões para os próximos 3 anos. 


Na linha social, os ganhos também são expressivos na geração de empregos. Em um país com aproximadamente 13 milhões de desempregados, a energia solar fotovoltaica descentralizada gerou cerca de 35 mil novos postos de trabalho neste mesmo período de 2018 e 2019.  


Portanto, do ponto de vista do consumidor, já é possível se optar por mais formas de consumo de energia e com alternativas mais econômicas e sustentáveis. 


Do ponto de vista da geração de energia, estamos abrindo um mercado relevante e gerando novas oportunidades de alocação de capital atraindo investimentos em um setor estruturante do país.
Esse círculo virtuoso só traz benefícios a economia brasileira já que o tema energia é um dos mais relevantes custos operacionais de diversas atividades industriais. A possibilidade de se pagar menos na tarifa de eletricidade, é um fator fundamental para impulsionar a competitividade dos produtos nacionais em uma economia global cada vez mais dinâmica. 


Escrito por Guilherme Barros Mattos Diretor de Energia Distribuída e Eficiência Energética da Siemens