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Cotidiano

Cubano recebido com vaias é surpreendido com fim de parceria: 'Não sei como fica'

| FOLHAPRESS

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O rosto de Juan Melquiades Delgado, 54, se tornou um símbolo do programa Mais Médicos, assim que o médico cubano colocou os pés no Brasil, em 2013. No aeroporto de Fortaleza, onde desembarcou, ele foi vaiado e chamado de "escravo" por médicos brasileiros que protestavam no local. Nesta quarta-feira (14), ele voltava do trabalho em uma aldeia indígena para a zona urbana de Zé Doca, no interior do Maranhão, onde vive há cinco anos, quando foi surpreendido com a notícia de que Cuba anunciou que deixará o programa. "Não sei como vou ficar agora. Estou esperando as orientações de Cuba", diz ele.  Em Zé Doca (a 313 km da capital, São Luís), o médico se casou com Ivanilde Lopes da Silva, agente de saúde na região. "Construí uma vida no Brasil. Eu gostaria de continuar e terminar meu segundo contrato, que vai até fevereiro de 2020. Depois, voltar para Cuba e começar uma vida nova com a minha mulher lá." O médico diz que irá seguir as ordens de Havana. Segundo ele, o país nunca atrasou o pagamento dos repasses aos médicos cubanos no Brasil. Sobre o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), usado como justificativa pelo governo cubano para deixar o programa, o médico se limita a dizer: "Acho que ele fala o que acredita ser o melhor para o Brasil".  Nesta quarta-feira (14), o governo de Cuba anunciou o fim de sua participação do programa Mais Médicos no Brasil. Em nota divulgada pelo Ministério da Saúde do país caribenho, a decisão é atribuída a questionamentos feitos pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), à qualificação dos médicos cubanos e à exigência de revalidação de diplomas no Brasil. "Condicionamos a continuidade do programa Mais Médicos à aplicação de teste de capacidade, salário integral aos profissionais cubanos, hoje maior parte destinados à ditadura, e a liberdade para trazerem suas famílias. Infelizmente, Cuba não aceitou", afirmou Bolsonaro, por meio de sua conta no Twitter, após a decisão do governo cubano.  Pelas regras do Mais Médicos, profissionais sem diploma revalidado só podem atuar nas unidades básicas de saúde vinculadas ao programa "nos primeiros três anos", como "intercambistas". A renovação por igual período só pode ser feita caso esses profissionais tenham o diploma revalidado e o aval de gestores nos municípios. No ano passado, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu que a ausência de revalidação do diploma era constitucional. Um dos programas mais conhecidos na saúde, o Mais Médicos foi criado em 2013, na gestão da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), para ampliar o número desses profissionais no interior do país. Atualmente, o programa Mais Médicos soma 18.240 vagas. Destas, cerca de 8.500 são ocupadas por médicos cubanos, selecionados para vir ao Brasil por meio de um convênio com a Opas (Organização Pan-americana de Saúde).  À Folha de S.Paulo o ministro da Saúde, Gilberto Occhi, disse que a pasta ainda não foi comunicada oficialmente da decisão do governo de Cuba.  "Estamos avaliando ainda. Precisamos ser comunicados oficialmente para saber como será a transição", disse.  Em geral, os médicos cubanos ficam em municípios menores e mais distantes das capitais, onde há menos interesse de brasileiros em ocupar as vagas --pelas regras do programa, médicos brasileiros têm prioridade na seleção, seguido de brasileiros formados no exterior, médicos intercambistas (outros estrangeiros) e, por último, médicos cubanos.

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