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    Formação Cultural e Artística - Autogestão e a Rês Pública

    "Não se pode alterar os modos musicais sem alterar ao mesmo tempo as leis fundamentais do Estado" - Platão, in a República

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    Autogestão


    A Inovação Musical é cheia de perigos para o Estado e é importante proibi-la. Não se pode alterar os modos musicais sem alterar ao mesmo tempo as leis fundamentais do Estado. in A República, Platão, 400 a.c. - trad. Livre  

    "O ser humano só joga (brinca) quando é plenamente humano, e é apenas completamente humano quando joga (brinca)." In "A Educação Estética do Homem", Friederch Schiller (trad. Roberto Schwarz e Márcio Suzuki - 1989)  

    "Quando todos se tornarem lideres, quem será o liderado? Quando todos se tornarem liderados, quem ficará para ser o líder? Quem ficará para ser líder ou liderado, quando todos forem seguidores e lideres". - In "O jogo teatral no livro do diretor", Viola Spolin - (trad. Ingrid Koudela/Eduardo Amos 2000)  


    Uma sociedade saudável protege, produz e usufrui da Arte. A Arte que definirá uma sociedade, um lugar ou uma época, aquela da qual se ouvirá falar ainda daqui a 100 anos, só acontece onde há muita arte sendo criada pela maior quantidade possível de pessoas e sendo usufruída, vivida e discutida também por uma parcela grande da população.  

    Para que isso seja possível, faz-se necessário um investimento coordenado em Cultura, tanto na manutenção e sustentação de grupos de "alta performance" - para emprestar uma expressão da área de Esportes - quanto na circulação, difusão e acesso às mais variadas expressões artísticas, de maneira diversificada e descentralizada.  

    No centro ou na base - como queiram - de tudo isso, está o investimento em políticas de formação cultural e artística, incluindo programas de iniciação e aprendizado para crianças, jovens e adultos, programas de aprimoramento técnico ou profissionalizante nas várias linguagens artísticas, e programas de formação nas áreas técnicas que darão suporte aos produtos artísticos: sonorização, iluminação, cenotecnia, montagem, edição de imagens, etc..  

    Foi com esse pensamento em mente, e construindo sobre outras políticas já implementadas em gestões anteriores, que Paulo Rodrigues, chefe de Gabinete da gestão de Carlos Augusto Calil à frente da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, promoveu a criação da Divisão de Formação Cultural e Artística, em 2008.  

    A Divisão, então sob meu comando e integrada ao Departamento de Expansão Cultural DEC, dirigido por Branca Ruiz, coordenava a Escola Municipal de Iniciação Artística EMIA, o programa Vocacional, o Programa Nós do Centro, e a então incipiente parceria entre a SMC e a SME para a implantação de novas "EMIAs nos CEUs".  

    Aproveito para apontar aqui a importância da continuidade incremental de programas que a Prefeitura paulistana mantém na Cultura, sob o mandato de partidos diferentes e até mesmo antagônicos. Não creio que isso se dê apenas na Cultura, mas é sobre esse aspecto que estamos falando aqui e é a experiência de que posso falar. A EMIA, hoje instituída pela Lei Municipal 15.372/2011, existia desde 1981; o Vocacional se iniciou em 2003 na linguagem de Teatro e foi se expandindo e diversificando até incluir Dança (2007), Música (2009) e Artes Visuais (2010); o Piá Programa de Iniciação Artística, nasceu em 2009 e já supera hoje os 10 anos de atuação ininterrupta.  

    Nada garante essa continuidade a não ser a pressão social das comunidades e dos participantes dos programas. Isso foi tema, por exemplo, das discussões que nos levaram à aprovação da Lei que instituiu a EMIA, 30 anos depois de fundada. Ao contrário do que se poderia esperar, a comunidade da EMIA receava não apenas a interferência da iniciativa privada, sob a forma de parcerias público-privadas, mas a própria interferência da Prefeitura. O que garantiria que um secretário menos interessado na EMIA ou interessado em modificar suas metodologias e pedagogia não pudesse prejudicar ou adulterar um trabalho construído a tantas mãos e por tanto tempo? O poder do executivo é quase ilimitado nesses casos.  

    O mesmo foi verdadeiro para o Vocacional que, após um período de liderança autocrática que ameaçou a continuidade do programa, soube se reinventar sob a gestão engajada e desprendida dos próprios artistas e coordenadores contratados à época, evoluindo também para uma autogestão.  

    O PIÁ, consolidação da parceria inicial entre a SMC Secretaria Municipal de Cultura e a SME Secretaria Municipal de Educação para implementar EMIAs nos CEUs, pôde se expandir justamente por sua estrutura inicial autogerida, descentralizada e em rede. O grupo de gestores que possibilitou a criação e implementação do programa, com Celso Santiago e Cristiane Hyppolito depois Edmara Musso pela Educação, e Renato Musa e Márcia Soares, pela Cultura, compreendeu e propôs um modelo diferente em que criamos um novo programa, inspirado na EMIA, mas adaptado à realidade de gerir muitas unidades em localizações variadas, em equipamentos culturais de naturezas diferentes, sob diferentes diretores locais e secretarias. Aproveitamos nesse sentido as experiências e processos já consolidados do Vocacional na Secretaria de Cultura. Promovemos desde o início uma gestão compartilhada em rede pelos próprios artistas contratados, inicialmente coordenados por mim. E logo após a minha saída imediatamente os coordenadores do PIÁ já estavam preparados e seguros para assumir a gestão, uma vez que o fizeram desde o primeiro dia juntamente comigo. Dos pés à cabeça ou do cóccix até o pescoço o PIÁ é assim: um trabalho de muitas mãos, cabeças e corações.  

    Em um universo em que nada é absoluto e no qual um átomo existe apenas em relação a outro átomo, é a relação que é importante e não o átomo. É nesse sentido que esses programas se estruturam, com base nas relações entre indivíduos, professores, artistas-orientadores, artistas-educadores, coordenadores, alunos, orientandos, gestores de bibliotecas, CEUs e Centros Culturais. O PIÁ traz em seu DNA pedagógico, inspirado na EMIA, essa mesma estruturação do conhecimento na relação entre os indivíduos e não em cada indivíduo. É nesse aspecto único e extraordinário que o PIÁ e a EMIA e o Vocacional se diferenciam e se integram entre si, formando um organismo coordenado de atuação formativa na cidade.  

    Esse tipo de autogestão que se perpetua nos três programas mencionados não tem previsão na legislação brasileira, que se prende rigidamente à dicotomia estatal-privado. Uns defendem cegamente um lado, outros defendem o outro e alguns mais desprendidos propõe parcerias público-privadas, mas, na prática, nossa sociedade continua incapaz de normatizar a coisa pública. A verdadeira coisa pública, não estatal, não privada: Pública. A Rês Pública continua um conceito cuja compreensão nos escapa como sociedade.
     

    Renato Musa é Consultor de Negócios Culturais, diretor executivo da RMusa Responsabilidade Cultural e Diretor do Instituto Hilda Hilst. Escreve às quintas-feiras.

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