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    Cidades Culturais: É Mais Caro Consertar do que Preservar

    Em artigo anterior falamos de como o investimento das empresas na cultura local cria valor social, econômico e humano, e como isso afeta positivamente o negócio

    | ACidade ON

    Existem impactos negativos sobre a Cultura local quando da chegada de novos empreendimentos. Novas fábricas, novas estradas, novas pessoas, tudo isso causa mudanças e afeta o equilíbrio cultural de um lugar. Desequilíbrio é o princípio da queda, mas é também o início da Dança.  

    Efeitos negativos ou potencialmente destrutivos podem ser mitigados com investimento social responsável, mas para isso é necessário estudo e planejamento.  

    Primeiro por que esses efeitos negativos à Cultura não são facilmente mensuráveis e tampouco são perceptíveis no curto prazo. É o tipo de dor de cabeça que vai aparecer quando já não houver mais possibilidade de impedir o estrago, apenas a esperança de uma restauração. Vale a máxima chinesa de que o melhor momento para se criar a sombra de uma árvore foi há 30 anos atrás...  

    Fazendo novamente um paralelo ambiental, a extinção da baleia Jubarte só foi evitada com quase quarenta anos de moratória à pesca e milhões e milhões de investimento em propaganda. Sim, por que a visão que temos hoje de baleias boazinhas e inteligentes é bem diferente do conceito que se fazia desses "monstros do mar" no tempo em que Melville escreveu "Moby Dick". O mesmo vale para culturas destruídas e manifestações extintas, ou quase extintas.  

    Em suma: é mais caro remendar a queda. O melhor é chegar e entrar na dança.  

    Muito melhor é ter a sensibilidade de observar, conhecer e preservar as culturas locais desde a pedra fundamental do empreendimento. Incluir nos orçamentos um investimento contínuo e constante na valorização e até mesmo na estruturação de manifestações culturais.  

    Isto por que a cultura e as artes são representações e sintomas de uma comunidade estável, dinâmica e feliz. Mas como é possível um grupo de pessoas ao mesmo tempo dinâmico e estável?! Pois é a Cultura, amiga. É o óleo que faz as engrenagens sociais girarem mais e melhor, sem solavancos, travamentos, quebras. É a válvula de escape, dirão uns, mas é também a câmara de compensação dos conflitos, o espaço social em que a sociedade se discute e cria suas soluções. A Ágora grega era o lugar em que tanto a política, quanto a arte e o comércio aconteciam, possivelmente ao mesmo tempo...  

    Evitar que esse equilíbrio tão instável se desfaça é condição básica para o sucesso de qualquer negócio, especialmente se considerado o longo prazo. Melhorar e incentivar o desenvolvimento cultural e artístico de um lugar, não tem preço. Situação política estável e competente, atração, retenção e desenvolvimento local de talentos, imagem corporativa sólida -  são todos subprodutos desse investimento. E, para completar, constrói-se autonomia para que a comunidade não fique dependente do seu negócio.
     

    Renato Musa é Consultor de Negócios Culturais, diretor executivo da RMusa Responsabilidade Cultural e Diretor do Instituto Hilda Hilst. Escreve às quintas-feiras.

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