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Curadoria Hilst
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    Desmonotonia dos Livros - Um conto de Leo Cassettari

    Acordar. Levantar. Ir para a sala. Sentar na frente do computador. Repetir.

    | ACidade ON

    DESMONOTONIA DOS LIVROS

    Um conto de Leo Cassettari 

    parte 1   
    REPETE 

    Acordar. Levantar. Ir para a sala. Sentar na frente do computador. Repetir. É essa a rotina a qual estou acostumado, hoje em dia é assim, repetir, repetir e repetir e mesmo o mais diferente, tem sempre a mesma diferença. Repetir. Repetir. Repetir.  

    Levanto-me da mesa, junto de mim se levantam vários olhos de seus afazeres para espiar, uma surpresa discreta invade a sala, mas logo todos voltam ao que estavam fazendo, perdendo o interesse. Ando pela sala com passos leves, quase escorregando, junto de mim escorregam também todos os olhos curiosos pela minha fuga da rotina, mas logo o interesse acaba e todos voltam a suas telas. Olho pela janela, junto de mim olham também todos da sala, curiosos para saber o que estou fazendo, mas logo o momento acaba e todos voltam a seus afazeres. A cada movimento meu, mudar o apoio dos pés ou coçar a cabeça a cena repete. Repete. Repete. Repete.  

    Lá fora há uma grande e importante avenida, enormes e modernos postes, grossas calçadas de concreto, com altos meio fios, os carros passam rápido sem nem dar chance aos pedestres, que passam receosos. Ao fundo, prédios e mais prédios, até aonde a vista alcança.  

    Assistir a um acidente na nossa rua também já é quase parte da rotina, basta apenas olhar pela janela. Os carros atropelam as pessoas sem nem se preocupar, como se fosse normal, o que na verdade chega a ser, "acontece" eles pensam. É parte da velocidade em que anda a cidade, os lentos ficam para trás e morrem de sede, enquanto os rápidos apenas os olham por cima do ombro. Lá fora é assim.  

    Os carros passam rápido. Zum! Zum! Zum! E as buzinas ao longe berram em resposta. Béé, Biouu, ióióióió, bibi, bibi, biiiii. E a música alta dos carros que passam corta o ouvido. pampampampampampampampampam  

    Tudo normal.
     

    parte 2
    O ENCONTRO


    Tédio. É sempre a mesma coisa, o próprio tédio é sempre igual. Mas porque ficar aqui sentindo tédio, porque continuar com essa rotina que se repete?  

    Decido faltar à rotina hoje.  

    Todo o resto do dia se torna monótono e entediante.  

    Não há escapatória, apenas o tédio. Mas decido não desperdiçar o dia, e desço ao térreo do prédio, lá embaixo já foi muito bonito, havia árvores e grama, agora com essa tecnologia de hoje em dia, há apenas concreto e câmeras, portas automáticas e grades. Mas ao passar por lá, pela primeira vez sem pressa ou afobação, eu vejo, em um canto, bem no cantinho, uma árvore, e na sombra dessa árvore há um banco, simples e branco encostado no tronco, decido sentar-me lá. Em poucas horas eu decubro muito sobre a vida. Eu nunca havia sentado para pensar, nem que por um momento, para refletir sobre a vida.  

    Durante um bom tempo, várias pessoas passaram, rápidas e sérias, nem olharam para mim, elas, como eu, provavelmente nunca nem notaram a pequena árvore e o banco, mas então, aparece um senhorinha, de idade avançada e, diferentemente dos outros, ela me percebe e vem em minha direção:
     
    - Oi! - É o que ela me diz, sentando-se ao meu lado.


    parte 3
    AS HISTÓRIAS 


    Depois disso, ela não diz mais nada, apenas se senta e tira algo de dentro da bolsa. E para a minha surpresa é um livro!!! Um livro, para aqueles que não sabem, é um conjunto de papéis dobrados um dentro do outro que contém um monte de palavras e essas palavras formam uma história. Ora, isso é realmente incomum!! Na verdade, ninguém mais lê livros hoje em dia. E por que o fariam? Meu amigo me disse um dia:"ler pode gerar criatividade. Quem iria querer criatividade? Para se divertir? Ha! Além disso ler é chato e cansativo é muito mais fácil buscar algum entretenimento na internet, ou, quem sabe, talvez, assistir TV?", isso ele disse com um sorriso, "E o tempo!! Ler é demorado!! Ora, não temos coisas mais importantes para fazer? Porque pegar um monte de papel e ficar olhando um bando de letras e palavras?"  

    De qualquer modo, ela começa a ler o livro, e parece apreciar, a cada 5 minutos, ela muda de expressão, de feliz para triste, de triste para confusa, de confusa para alegre, de alegre para angustiada e assim por diante.  

    A senhora passa página por página calmamente e a curiosidade me invade aos poucos. Depois de cerca de meia hora, não posso mais me conter:  

    - Perdão senhora, desculpe interromper, mas o que você está lendo?  

    - Ah, bem, é um clássico, um dia foi muito conhecido, sabe? Mas hoje é apenas um livro, chama-se "Sherlock Holmes".  

    - Hum.  

    E ela volta a ler.  

    Pouco tempo depois:  

    - Ahn, eu não quero ser rude, mas, o que você vê de tão interessante nesse livro? - ela me olha com cara estranha - Eu quero dizer, a maioria das pessoas acha os livros dispensáveis e inúteis.  

    A senhora me olha por um bom tempo, tempo demais até, parece analisar-me, ela faz uma cara de quem já está cansada de ouvir essa pergunta, mas, ainda assim, demora um longo tempo para responder:  

    - Bom, isso se dá pois a sociedade, e as pessoas, passaram, aos poucos, a odiar a cultura e desprezar o saber por causa de sua própria preguiça e ociosidade, passando a idolatrar a ignorância e amar a incultura. Hoje em dia as pessoas passam com seus carros exibindo o quão rápido ele corre, passando zunindo a 150 km/h e não se importam se atropelam alguém, além disso se contentam com atividades como ver filmes e assistir vídeos de pessoas se machucando.  

    Passo a próxima hora refletindo sobre isso e quando me dou conta, já está escurecendo e a senhora já foi embora.  

    Volto para casa e todos já estão jantando, como de costume, sento-me à mesa com todos me olhando, calados, fazendo questão de que eu me explique, mas não explico nada, apenas como minha comida normalmente, como se nada tivesse acontecido.  

    No dia seguinte acordo bem cedo e vou para o meu novo lugar favorito, o banco debaixo da pequena árvore, dessa vez, a senhora já está lá, lendo:  

    - Dessa vez eu trouxe um para você - diz ela entregando-me um livro bem menor que o dela. -  Um pequeno para começar. -  e volta a ler seu livro.  

    Decido experimentar, não pode ser tão ruim.  

    Leio durante duas horas o livro todinho e me surpreendo incrivelmente, eu adorei!!!  

    Há cavaleiros e princesas e uma grande luta, bruxas malvadas e ogros feiosos, a história é surpreendente, diferente de tudo que eu já experimentei. Completamente fora do normal e da monotonia do dia a dia. Um lugar maravilhoso, onde tudo é possível e a imaginação corre solta. Um sonho.  

    Estou ávido por outro, mas quando termino de ler a senhora já havia sumido outra vez.  

    No dia seguinte eu volto ao local, e lá está ela de novo, com mais um livro, dessa vez um pouco maior.  

    Isso se repete durante algum tempo, sempre com livros maiores, mais difíceis e cada vez mais interessantes. Até que ela me convida para visitar sua casa.  

    Subimos de elevador e chegamos ao apartamento. Ao entrar eu fico em choque, todas as paredes são revestidas de estantes, cheias de livros, eu chegaria a apostar mais de mil. Estão em todos os cômodos, até na cozinha, mesmo que sejam livros de culinária. Livros na sala, no quarto, no banheiro, em todos os lugares possíveis, de todos os tipos e tamanhos, eu nunca tinha visto uma aglomeração tão grande de papel, a senhora Antônia, que é o nome dela, diz que eu posso vir e pegar um livro sempre que quiser. E é aí que percebo que, a partir de agora, eu tenho uma motivação, uma meta de vida, desejo, com todo o meu coração, ler todos esses livros.

    Leo Cassettari é um aficcionado por livros. Lê tudo e de tudo, gosta de ler. E escreve. Neste conto de estreia, que temos a honra de publicar, apresenta esta alegoria distópica do que parece ser nosso mundo atual contra o qual ele se rebela. 

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