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    Novos Antropofágicos (in Cartas de um Sedutor)

    Nesta edição das Pílulas Poéticas a atriz Paula Santiago lê o primeiro dos "Novos Antropofágicos", contidos no livro "Cartas de um Sedutor

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    Nesta edição das Pílulas Poéticas a atriz Paula Santiago lê o primeiro dos "Novos Antropofágicos", contidos no livro "Cartas de um Sedutor", hoje publicados em "Da Prosa" pela Companhia das Letras e também em Porno-Chic, da Globo Livros .

    Novos Antropofágicos  

    Comecei degustando seus dedinhos. Eram expressivos, contundentes. Quantas vezes seu rombudo dedo indicador roçara meu rosto! Ela repetia continuamente seus "veja bem" bastante frios e impessoais. Sou doutor em Letras. Ela dizia-se autodidata.
    autodidata?!?!
    autodidata da vida, bestalhão, canalha, ela rosnava.
    Suportei-a vários anos. Casara-me com ela à cause daquele buraco enterrado fundo nas nádegas cremosas. Depois que lhe enfiei a vara sorri quente e prolongado. Depois fiquei triste. Intuí haver cometido um grande equívoco. Mas todas as noites com "veja bem" ou sem, metia-lhe a vara. Entre o gaiato e o choroso fui aguentando seus trejeitos, sua sinistra domesticidade. Uma noite, durante o jantar, o bife escapou-se-me do prato. Ela começou seus "veja bem" e noções de polidez à mesa. Escutei-a atenciosamente e até com certa cerimônia íntima, assim como se escuta a fala de um prêmio Nobel no dia da premiação. Em seguida, ordenado por dentro e por fora, fiz o primeiro gesto criterioso: buscar o bife. Sua trajetória havia terminado debaixo da escada. Ela começou a rir histericamente e repetia "veja bem veja bem", és um perfeito imbecil, um bufo, um idiota. Peguei o bife e recoloquei-o no prato. Limpei a poeira dos joelhos. O chão estava imundo. Ela nunca limpava debaixo da escada. Dei, em seguida, um grande urro, como um grande animal e num salto Nureiev, de muita precisão, enterrei-lhe a faca no peito. Ela ficou ali ainda sorrindo, cristalizada. Neste preciso momento, corto-lhe o dedo indicador, aponto-o para seu próprio rosto e repito: "Veja bem, senhora, no que dá um autodidatismo de vida". Limpo-lhe a unha porque era sempre essa que ela me enfiava na rodela. Eu gostava sim. Ela não sei. Agora, sujo de ódio, atiro o dedo pela janela. A noite está fria e há estrelas. São atos como esse, vejam bem, que fazem desta vida o que ela é: sórdida e imutável.

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