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Cultura de Todos os Cantos

Cultura de Todos os Cantos

As origens de cores, sons e sabores do interior paulista

Imigrantes, migrantes e a diversidade cultural fomentada pelos ciclos econômicos

| ACidade ON

A principal marca da miscigenação cultural são as festas juninas que colorem e animam o interior paulista todos os anos. (Foto: Divulgação)

O interior paulista, assim como todo o canto do Brasil, vivenciou diversas fases econômicas que movimentaram os fluxos imigratórios e migratórios de populações que, através do natural processo de miscigenação cultural, ajudaram a construir a identidade regional rica e diversificada que encanta a quem se dispõe a conhecer.

O café, o algodão e a cana-de-açúcar em seus ciclos produtivos e, posteriormente, a industrialização foram alguns dos responsáveis pela movimentação geográfica que, via de regra, beneficiava os dois lados, aliviando a demografia nos territórios de origem e garantindo mão de obra abundante no destino.

Praticamente desde o descobrimento, o território nacional recebeu povos de todos os cantos do mundo, acolhendo e misturando hábitos, tradições, religião, música, culinária e também material genético. Europa, África e Ásia se encontraram nos trópicos e, em momentos diferentes e por motivos também diversos, ajudando a formar a identidade cultural em todo território nacional. Olhando especificamente para o interior do estado de São Paulo, alguns momentos econômicos foram determinantes para a formação da população e do caldeirão cultural que se observa em suas cidades.

Povos africanos

A chegada de povos africanos ao território brasileiro não foi voluntária e muito menos pacífica. Não é datada com total precisão, mas a tese mais aceita é que teriam sido trazidos, já como escravos, em 1538 para a extração de Pau-Brasil, e assim sucederam os séculos.

O auge do tráfico de negros e da escravidão aconteceu entre 1700 e 1822, quando o Brasil se tornou independente. Os povos africanos, em sua maioria angolanos, estiveram presentes nas plantações de cana-de-açúcar, algodão, tabaco e café, de norte a sul do país, sendo difícil conseguir separar a formação de qualquer cidade da presença negra.

No caso do interior paulista, essa presença marcante se observa em diversos aspectos, e se destaca na música, que foi objeto de pesquisa de Mário de Andrade no livro "Aspectos da música brasileira", em que há a forte presença do batuque no interior paulista. O Jongo, Batuque de Umbigada, Samba de Bumbo, entre outros, são chamados de Samba Rural Paulista por Andrade.

A culinária também tem forte presença africana. A feijoada, o cuscuz, o uso de leite de coco em preparados, o consumo de inhame são algumas das características da presença africana no interior paulista. No esporte, a capoeira, na dança. Na música, o samba. Nas expressões mais contemporâneas, a cultura Hip hop. Na moda, miçangas, rendas e estampas são alguns dos exemplos que permeiam o cotidiano do interior.

Os povos africanos conseguiram resistir e manter sua cultura viva, seja pela música, pela alimentação, pela religião, pela prática esportiva, mas principalmente por não deixar morrer a lembrança do passado através da oralidade, da narração de histórias.

Hoje, a presença da cultura afro-brasileira pode ser observada, além do nosso cotidiano, em eventos como feiras e festivais com essa temática. Muitos deles ocorrem em novembro, graças ao dia da consciência negra, e são abertos a todo o público, pois embora o fortalecimento cultural seja necessário, a integração é indispensável em um território tão miscigenado.

Os povos africanos foram os primeiros a chegarem ao interior de São Paulo, mas não foram os únicos. As marcas culturais oriundas destes povos já estavam presentes devido ao longo período da escravidão, bem como a de italianos e outros povos europeus que substituíram os negros após a abolição.

Um novo horizonte para o Sol nascente

O início do século XX marca a chegada dos povos orientais no interior do estado de São Paulo. Em 1908 chegaram os primeiros japoneses, em virtude de um acordo entre o governo do estado de São Paulo e o Japão. Vieram para trabalhar nas lavouras de café, e, alguns anos mais tarde, já em suas próprias terras, passaram ao cultivo de algodão. Inicialmente concentrados na região noroeste do estado, região de Ribeirão Preto (SP), mais de 90% desses imigrantes eram dedicados à agricultura. Durante o período de guerra, esse povo sofreu com proibições, isolamento e até confisco de bens, entretanto, décadas mais tarde, nos anos 60, já haviam "nikkeis", descendentes dos primeiros japoneses, ocupando cargos públicos e se destacando em outras atividades econômicas. 

 

O consumo de hortaliças e chás é uma marca da cultura oriental presente na alimentação do brasileiro. (Foto: Divulgação)

A miscigenação cultural pode ser observada em diversas práticas, inclusive no esporte. A primeira arte marcial introduzida no estado de São Paulo foi o "ju-jutsu", que, aprimorado pelos brasileiros, se tornou o jiu-jitsu, mas o karatê, o judô e o aikidô também são atividades bastante presentes. No cotidiano, o consumo de hortaliças e chás são uma marca da cultura oriental na alimentação, e na moda, até as tão brasileiras sandálias de dedo foram inspiradas em sandálias japonesas chamadas "zori", feitas de palha de arroz. Exemplos não faltam: o videokê, o mangá, os animes, o sushi, o yakisoba, o shoyu e tantos outros. Entre as festividades tradicionais no Japão que mantiveram no Brasil pode-se destacar a floração das cerejeiras, que marca o início da primavera e que aqui acontece no mês de agosto, em cidades como Garça (SP), São Roque (SP), Campos do Jordão (SP), Itapecerica da Serra (SP), Ibiúna (SP) e Indaiatuba (SP), além da capital.

Migração é a solução

Paralelamente a esse processo vivenciado pelos japoneses, nos anos 30 a ascensão do nacionalismo fez com que a chegada de povos estrangeiros diminuísse drasticamente, entretanto, a necessidade de mão de obra para as regiões de cultivo ainda existia. A solução perfeita para tal situação foi a migração em território nacional. Se nos estados do Nordeste a população sofria com crise econômica, escassez de recursos e excedente populacional, o estado de São Paulo ofertava recursos e possibilidades de trabalho.

Até os anos 50, a migração dos estados nordestinos para o interior de São Paulo aconteceu majoritariamente para o universo rural. As lavouras de algodão, café e de forma ainda um pouco menos expressiva, a cana-de-açúcar, necessitavam de trabalhadores. A partir dos anos 50, essa migração se desvinculou da agricultura para se tornar essencialmente urbana, graças ao desenvolvimento do setor industrial, principalmente na capital paulista.

Nos anos 80, a política Proálcool fez com que novamente a cultura da cana-de-açúcar fosse responsável por um fluxo em direção ao interior do estado. Nas décadas seguintes, embora esse movimento tenha se tornado menor, ainda se manteve motivado pelas oportunidades junto à construção civil. 

A literatura de cordel é expressão viva da cultura nordestina e revela talentos preservados no interior paulista. (Foto: Divulgação)

O estado de São Paulo é o principal destino de migrantes vindos da região Nordeste: 5,6 milhões em 2015, 12,66% da população do estado, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE. Se hoje esse fluxo migratório já não é tão acentuado, o resultado de tantas décadas desse movimento é facilmente visto nas expressões culturais do interior paulista. A ascensão do forró em sua versão universitária demonstra a miscigenação cultural, que também pode ser observada na culinária, na literatura, na dança, na comédia e em outras expressões artísticas e também do cotidiano, presente nos sons de fala, nas cores e estampas de tecidos e na fé. A principal marca desse processo no interior paulista são as festas juninas que colorem e animam praças e quintais nos meses de junho e julho todos os anos.

A beleza da diversidade que se vê e ouve pelas ruas do interior de São Paulo, assim como na capital, são o reflexo das fases econômicas que se desenvolveram, principalmente ao longo do último século. Na busca por melhores condições de vida, essas pessoas deixaram tudo para trás, mas trouxeram consigo seus hábitos e gostos e, dessa forma, acabaram por contribuir com o enriquecimento cultural não apenas do interior do estado, mas do Brasil como um todo.

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