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Messi percebe não ter nada a perder e se aproxima de Maradona

| FOLHAPRESS

FOLHAPRESS - "Cantei porque me deu vontade de cantar". Um ato tão simples como acompanhar as palavras do hino nacional antes do jogo fez os argentinos perceberem que aquele não era o Lionel Messi que estavam acostumados a ver. Ele jamais havia feito aquilo antes. A Copa América dentro de campo acabou mal para a Argentina. Continua o jejum de 26 anos sem títulos. Mas fora das quatro linhas, Messi foi mais maradoniano do que nunca na sua carreira. Até seus colegas de elenco perceberam a diferença. "Nós não deveríamos fazer parte dessa corrupção", disse sobre a recusa a ir a campo para receber a medalha pela terceira colocação. Ainda incomodam os dois possíveis pênaltis não revisados pelo VAR na semifinal, diante do Brasil. Há a inevitável comparação com a imagem de Maradona insultando o então presidente da Fifa, João Havelange, após a Argentina perder para a Alemanha a final da Copa do Mundo de 1990 graças a uma penalidade inexistente marcada pelo árbitro mexicano Edgardo Codesal. Alguma chave virou na cabeça de Lionel Messi aos 32 anos. O atacante, que antes carregava um eterno ar de enfado nas entrevistas e que evitava a imprensa a todo custo, se tornou desbocado, sincero e disposto a ser entrevistado. Um Messi irascível foi algo que muitos jamais pensaram ser possível ver. Talvez tenha percebido, após nove eliminações com a seleção argentina, que ele é Lionel Messi, um dos maiores jogadores da história e cinco vezes eleito melhor do mundo. Se ele não puder dizer o que lhe vier à cabeça no mundo do futebol, quem mais dirá? Além dos gols, dos dribles e dos títulos, algo mais o separava do amor da torcida argentina: contestar. Ser mais Maradona o aproximaria da sua gente e o distanciaria da Espanha. Pessoas do seu próprio país ainda dizem que ele é espanhol, não argentino, por ter se mudado para a Europa aos 12 anos. Seus filhos falam catalão e nasceram em Barcelona. Pouco importa que, 20 anos depois de ter deixado sua cidade natal, Messi ainda fale espanhol com sotaque de Rosário. A Copa América de 2019 viu um Lionel líder. Algo que antes era inimaginável, já que todos sempre disseram que ele comandava com a bola nos pés e não no discurso. Era uma desculpa para afirmar que o camisa 10 não era bom com as palavras. Foi Messi quem, depois da derrota na semifinal com o Brasil, reuniu os companheiros no vestiário e afirmou que a missão estava apenas começando. Lembrou que aquele grupo tinha muito a dar. Esse é o mesmo jogador que, ao ser escolhido capitão por Maradona na partida contra a Grécia, na Copa do Mundo de 2010, não conseguiu dizer nada aos colegas antes de entrar em campo. Na saída do Mineirão na última terça (2), deu também o recado público que a torcida tinha de apoiar a nova geração de jogadores argentinos. Ele fez apenas um gol no torneio: de pênalti, contra o Paraguai. Mas contra o Brasil teve uma de suas melhores partidas nos últimos tempos pela seleção. Vinha bem na disputa do terceiro lugar até ser expulso após discussão e troca de trombadas com Gary Medel, do Chile. Messi expulso de campo? Isso é mais coisa de Maradona. "Acho que o cartão vermelho foi uma revanche pelo que disse depois do jogo contra o Brasil", disparou na Arena Corinthians. Ter na cabeça perseguições e que o mundo conspira contra si também faz parte do psicológico do futebol argentino. Diego incentivou essa linha de pensamento algumas vezes na carreira. Não é nem possível a Conmebol, entidade que teve três ex-presidentes presos por corrupção, reclamar de injustiça nas declarações do argentino neste sábado (6). E ele sabe disso. O atacante pode ter visto que não há liberdade maior do que perceber que não há nada a perder. O que os dirigentes da Conmebol podem tirar dele? Quem é maior? Alejandro Domínguez, presidente da confederação sul-americana, ou Lionel Messi? Quem o torcedor conhece entre os dois? Messi percebeu que, calado, não tem nada a ganhar. E pelo menos nisso fez igual ao seu ídolo (e de todos os demais argentinos) Diego Armando Maradona.

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