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Torcedor solitário da arquibancada do Santa Cruz vira presidente com duas taças no RS

| FOLHAPRESS

PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) - Com 15 minutos de jogo, o Santa Cruz balançou a rede do goleiro Victor, do Grêmio, e abriu o placar em partida de 11 de fevereiro de 2012 pelo Campeonato Gaúcho. Enquanto cerca de 6,7 mil gremistas no estádio lamentavam o gol tomado, do outro lado, Tiago André Rech, 34, o único torcedor no setor dos visitantes, comemorava.

Naquele sábado à noite, ele saiu do plantão na redação do jornal onde trabalhava em Porto Alegre e foi a pé até o estádio Olímpico Monumental, assistir ao time de coração na antiga casa gremista. O placar terminaria em uma goleada de 4 a 1 para os tricolores.

Tiago chegou alguns minutos antes da partida e perguntou aos seguranças se a "Barra do Galo", a torcida do Galo Carijó de Santa Cruz do Sul, já havia chegado, mas ouviu que tinha apenas ele por ali até então. E assim foi pelo resto da noite.

As imagens do torcedor sozinho na arquibancada, flagradas pelas câmeras de TV na transmissão ao vivo, correram o mundo.

Nove anos e meio depois e com menos cabelo, Tiago repetiu, no último dia 4 de julho, a cena solitária nas arquibancadas. Desta vez, no Estádio dos Plátanos, depois do fim da partida e ao lado de duas taças, os únicos títulos oficiais do Santa Cruz, conquistados em um intervalo de cerca de sete meses e com ele na presidência do clube.

O mais recente, a Segunda Divisão Gaúcha, veio em partida histórica. O adversário, Sport Club Gaúcho, tinha a vantagem do placar de 2 a 0 no jogo de ida. Logo no início do confronto de volta, o Santa Cruz ficou com um jogador a menos em campo. Depois de abrir o placar, viu o adversário virar para 2 a 1 com apenas dois minutos do segundo tempo.

Ou o Galo Carijó marcava três gols e levava a decisão aos pênaltis ou o título já era da equipe de Passo Fundo. O milagre foi realizado pelo volante Leylon, que entrou no intervalo. O jogador conseguiu marcar três gols em seis minutos -o primeiro aos 5 minutos e 36 segundos, e o terceiro, de bicicleta, aos 11 minutos e 33. Nos pênaltis, o Santa Cruz conquistou a taça.

"É algo que não tem como descrever, foram emoções gigantes", diz Tiago, contando que correu para dentro do campo com os jogadores assim que o último pênalti foi convertido. "Digamos que ainda não caiu a ficha".

A relação com o Santa Cruz, diz ele, vem de família. O avô costumava levar o pai de Tiago ao estádio, que depois passou a levá-lo. O estádio ficava a algumas quadras de casa.

"Esse clima de estádio pequeno, cachorro-quente, cerveja, todo mundo se conhece, eu acho mais genial que as grandes arenas", afirma o hoje presidente do clube.

O Galo virou paixão de vez na adolescência. Quando fez intercâmbio nos Estados Unidos, estudando inglês e entregando pizza, ele recorria a transmissões piratas na internet para seguir os jogos do time no Gauchão.

Naquele 2012, o Santa Cruz jogou o suficiente para escapar do rebaixamento, mas no ano seguinte, centenário do clube, não conseguiu evitar a queda.

No final de 2013, Tiago voltou a morar na cidade natal e passou a trabalhar no Santa Cruz, acompanhando de perto os bastidores, desde reuniões, rifas e outras iniciativas para levantar renda, até brigas internas. Na metade de 2014, sem adversários na eleição, assumiu a presidência.

O primeiro mandato não saiu exatamente como ele imaginava. Com cerca de três meses, o clube já não conseguia cumprir a folha de pagamento dos jogadores e ele tinha que pedir paciência no vestiário --o jogador mais caro, na época, ganhava em torno de R$ 1.500 por mês. Tiago chegou a fazer empréstimo com o pai para tentar reverter o cenário.

Ele deixou a presidência depois de um ano e seguiu apenas como torcedor. Em 2018, porém, com o clube sem presidente e comandado por uma espécie de conselho, ele resolveu voltar. Ao contar para o pai sobre a decisão, prometeu que entã faria diferente.

O Santa Cruz jogou em 2019 com jogadores da cidade. Em 2020, durante a pré-temporada, veio a pandemia do novo coronavírus. Até aparecer a chance da Copa FGF (Federação Gaúcha de Futebol), a Copinha, no segundo semestre.

Com caixa de patrocínios e um reforço de R$ 150 mil recebido pelo mecanismo de solidariedade da Fifa, graças à venda de atletas que começaram na base do clube, como o goleiro Tiago Volpi, do São Paulo, o Santa Cruz entrou no campeonato que valia uma vaga na Copa do Brasil, além da chance de ganhar cerca de R$ 500 mil pagos aos times na primeira fase.

A aposta terminou por levar o Santa Cruz ao primeiro título de sua história.

"Surgiu a competição da Copa FGF, a gente conseguiu montar um time, o clube acreditou no projeto e deu certo, conquistando aquele primeiro título que abriu as portas para muitas coisas esse ano", diz o técnico William Campos, que foi atleta, jogou no clube por três temporadas e foi ainda auxiliar em 2019.

Entre os jogadores a disputar a Copinha estava David Fontoura da Cunha, 25. Ele começou 2020 no Villa Nova, de Minas Gerais, mas também viu tudo parar com a pandemia e voltou a Antônio Prado (RS).

Passou a trabalhar, então, em uma plantação de melancia até aparecer o convite do Santa Cruz. No time, ele ainda marcou seu primeiro gol como jogador profissional.

"Jogamos às vezes cinco meses no ano e ficamos parados. Tem que procurar alguma coisa para manter a família. A maior parte dos atletas procurou algum lugar para trabalhar. Eu, como moro no interior, a plantação foi o que surgiu", diz David.

"Antes de vir ao Santa Cruz, acho que todo mundo conhecia a história do Tiago, pela repercussão do título da Copinha. Por mais que não tivéssemos torcida no estádio, depois desse título de agora eu pude ver o tanto de torcedor que tem o Santa Cruz", diz Leylon, 26, o autor dos três gols no título da Segundona, que chegou em janeiro e teve que lidar com lesões no início.

"[Foi] Algo surreal, eu imaginava que poderia ajudar a equipe, estava com a confiança elevadíssima naquela manhã gelada, mas três gols, realmente, foi algo assim... Foi Deus que me iluminou naquele dia."

Depois do título, o clube recebeu ainda a chave da cidade pelas mãos da prefeita Helena Hermany (PP), que é também a única conselheira mulher do Santa Cruz. O presidente Tiago Rech trabalha com ela na prefeitura hoje.

"A gente está acostumado com grandes clubes, Série A, mas tem muitos times pelo país, de interior, pequenos, com torcedores fanáticos que amam esses clubes. Acho que eu mostrei que o Santa Cruz, um time do interior, tem gente apaixonada por ele", completa Tiago.


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