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A medalha das medalhas

A medalha Barão de Coubertin premia atletas e pessoas envolvidas com o esporte que demonstrem alto grau de esportividade e espírito olímpico

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A medalha das medalhas. Foto: Canva
O que será que passou pela cabeça daquelas pessoas além do desespero? Elas eram amontoadas em trens que, antes da Segunda Guerra Mundial, eram usados para transportar animais.  

O regime nazista perseguiu, roubou, sequestrou, prendeu, torturou, escravizou e matou mais de seis milhões de pessoas em campos de extermínio espalhados pela Europa, 1,5 milhão só em Auschwitz, na Polônia.  

Eram judeus, comunistas, presos políticos, desertores, ciganos, negros, homossexuais e pessoas com deficiência. Na visão do chanceler alemão Adolf Hitler estes sujeitos não se encaixavam nos padrões que a supremacia branca ou a superioridade ariana exigiam e precisavam ser exterminados.  

Shaul Ladany, um judeu nascido na antiga Iugoslávia (atual Sérvia), conseguiu sobreviver ao horror nazista e, com apenas oito anos, foi libertado do campo de Bergen- Belsen na Alemanha. Quando o Estado Nação de Israel foi criado, Shaul se mudou para junto de seu povo.  

Seis anos depois, Shaul começa no esporte e escolhe o atletismo, mais especificamente a marcha atlética. Disputou as Olimpíadas de 1968 na cidade do México e a de Munique em 1972.  

O atleta não imaginava que 27 anos após o fim da Segunda Guerra - que o horror e o ódio se aproximariam dele novamente e na mesma Alemanha.  

As Olímpiadas de Munique foram marcadas por um ataque terrorista à Vila Olímpica nos apartamentos em que estavam hospedados a comissão técnica e os atletas de Israel.  

Oito terroristas do grupo terrorista palestino conhecido como Setembro Negro, um braço da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), invadiram o local. Ao todo 11 israelenses foram mortos. Shaul conseguiu sobreviver. De novo!  

Dois meses após o atentado, Shaul voltou a competir e não parou mais (mesmo depois dos 60 anos). Em 2007, ele foi homenageado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) com a medalha Barão de Coubertin, uma das maiores honrarias do esporte mundial.   



A coragem do saltador alemão
Na memória olímpica, um outro ato de coragem foi homenageado com a medalha Barão de Coubertin.  

Nas Olimpíadas de Berlim, na mesma Alemanha, só que em 1936, o atleta de salto alemão, Luz Long, não se intimidou com os nazistas e com o contexto político/social vigente em seu país e ajudou o seu adversário americano, o atleta negro Jesse Owens.  

Na disputa pela vaga na final olímpica do salto em distância, o americano já tinha queimado dois dos seus três saltos e o atleta alemão aconselhou Owens a saltar algumas polegadas para trás da tábua para que reduzisse a chance de queimar o último salto.  

A lenda Jesse Owens escutou o alemão, saltou, não queimou, foi pra final, bateu recorde olímpico e ganhou o ouro. De quem? De Luz Long que ficou com a prata.  

É interessante ressaltar que, o gesto de Long que hoje parece simples, foi feito no estádio olímpico de Berlim com a presença do ditador alemão às vésperas da Segunda Guerra Mundial com um atleta negro e de nacionalidade inimiga.
A coragem de Long foi reconhecida em 1964, 21 anos após a sua morte. Ele foi condecorado com a medalha Barão de Coubertin. 

A medalha das medalhas
A medalha Barão de Coubertin é uma premiação concedida pelo COI à atletas e pessoas envolvidas com o esporte que demonstrem alto grau de esportividade e espírito olímpico dentro e fora das competições.  

No caso de Shaul, por exemplo, pesou ainda na sua premiação, as inúmeras contribuições dele ao esporte como professor e acadêmico.  

Em 125 anos de história dos Jogos Olímpicos, apenas 21 personalidades do universo esportivo conquistaram a medalha das medalhas criada em homenagem ao idealizador dos primeiros Jogos da Era Moderna, Barão de Coubertin.  

Destes 21 seres humanos fora da curva, apenas um atleta sul-americano obteve esta proeza. O maratonista brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima foi condecorado com a medalha Barão de Coubertin no final de 2004, seis meses depois que tiraram dele a medalha de ouro nos Jogos disputados da Grécia.  

Vanderlei liderava a maratona olímpica a 7km do final em Atenas quando foi literalmente abraçado e tirado da prova por um torcedor. O tempo perdido custou ao Brasil o inédito ouro na maratona. Vanderlei até voltou à corrida, mas não conseguiu mais que a medalha de bronze.  

Por todo seu espírito esportivo e humildade em seguir na disputa, mesmo após ser atacado covardemente na reta final da competição que tradicionalmente encerra os Jogos Olímpicos... Vanderlei colocou no peito a medalha das medalhas. Ela, ninguém tira. Nem o ex-padre irlandês descompensado!