SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em vez de serial killers ou pessoas com má reputação social, os estupradores de “Bela Vingança” são como a maioria dos que existem fora das telas, homens que cometem violências sexuais longe de becos escuros -em geral, nas casas das vítimas, deles próprios ou de algum conhecido– e que dificilmente viram alvo de investigações.
Assim como uma imensa quantidade de abusadores ao redor do mundo, os criminosos da ficção criada por Emerald Fennell são jovens bem-sucedidos, repletos de amigos e familiares que não os poupam de elogios e carinho.
Ninguém ousaria chamá-los de estupradores, nem mesmo quem os vê numa balada apalpando e beijando mulheres visivelmente inconscientes.
“Bela Vingança”, que estreia no Brasil em maio, concorre nas categorias de melhor filme, melhor direção, melhor atriz, melhor roteiro original e melhor montagem da 93ª edição do Oscar, que ocorrerá neste domingo (24).
Dirigido e roteirizado por Fennell, o longa chega aos cinemas quase quatro anos após a eclosão do MeToo, o movimento feminista que trouxe à tona uma série de denúncias contra poderosos de Hollywood, e marca uma nova geração de produções do chamado “rape-revenge”, o gênero do audiovisual que explora narrativas de vingança contra crimes sexuais.
O filme gira em torno de Cassie -papel de Carey Mulligan-, uma mulher que semanalmente vai a bares e boates sozinha para se fingir de bêbada e, assim, se deparar com “um cara legal” lhe oferecendo ajuda.
Após ser levada à cama do “bom moço”, que tira suas roupas sem nenhum consentimento -e ignora seus sussurros de reprovação e confusão mental-, Cassie sai do personagem, que já está quase em coma alcóolico, e se revela plenamente sóbria, apavorando o estuprador da vez.
É assim que ela enfrenta o trauma da morte de sua melhor amiga, Nina (causada implicitamente por suicídio). Ambas estudavam medicina juntas e largaram o curso após Nina ser abusada sexualmente por alunos da universidade e não receber nem sequer algum tipo de apoio institucional ou local.
A obsessão de Cassie pelo seu passado traumático se intensifica após reencontrar um ex-colega de classe, Ryan –papel de Bo Burnham–, com quem ela se envolve romanticamente e, por meio de conversas, descobre que o principal abusador de Nina está com a carreira bem encaminhada e prestes a casar. A partir daí, a personagem traça um plano de vingança contra todos aqueles que participaram ou foram negligentes com o estupro de sua amiga.
Assim como a própria protagonista, “Bela Vingança” é um “rape-revenge” agridoce, marcado por cenas engraçadas, macabras e de suspense.
“O que torna o filme tão interessante é que ele é um [produto] mainstream olhando para o estupro e a violência sexual a partir da ótica de um problema sistêmico, em vez de individual”, diz Alexandra Heller-Nicholas, que estuda o gênero no cinema há mais de uma década e é autora do livro “Rape-Revenge Films: A Critical Study”, reeditado neste ano.
Para a pesquisadora, “Bela Vingança” já pode ser considerado o filme de 2021. “Além do fato de ser muito bem feito, ele encara [o assunto] como uma questão atrelada a um sistema falido, o que é muito importante”, justifica. “Isso é o que devemos fazer, de forma mais ampla.”
Quando a pesquisadora Sarah Projansky lançou o livro “Watching Rape”, em 2001, ela dividiu o gênero dp “rape-revenge” em dois tipos de narrativa. Numa delas, há uma moça, que é vítima de estupro, em busca de vingança.
Na outra, há um protagonista masculino buscando vingança pela vítima, uma mulher que, embora seja bem próxima a ele, tem sua presença apagada na trama. Um exemplo é o clássico “A Fonte da Donzela”, de Ingmar Bergman, vencedor da categoria de melhor filme estrangeiro do Oscar e do Globo de Ouro, em 1961.
Existem ainda outras características comuns entre a maioria dos filmes desse tipo, como a exibição explícita de cenas de violência contra as mulheres, um teor minimamente sensual em cenas de estupro, o destaque dado à masculinidade, o vilão como um completo desconhecido da vítima, o distanciamento de críticas à estrutura cultural de gênero e a individualização da culpa e do trauma.
A maioria dessas características, no entanto, passam longe de “Bela Vingança”. A grande exceção é uma longa e dura cena de feminicídio, que dividiu opiniões e gerou uma série de críticas negativas à obra.
Ainda assim, ao contrário de muitos filmes desta categoria, a protagonista em si não é vítima de estupro –palavra que, aliás, nunca é citada no longa, embora seja o motor da história–, e sim uma mulher vingando a amiga.
“Bela Vingança” também retrata tentativas de redenção, o que é pouco comum no gênero. E seu maior diferencial, em relação à maioria das obrasdo gênero, é que o grande vilão da história não é um estuprador ou um grupo de criminosos, e sim a própria cultura do estupro.
“Sinto que mulheres fazem –ou tentam fazer– o que vemos como ‘cinema e TV da era MeToo’ há muito tempo”, diz Heller-Nicholas. “Mas só agora, no contexto desse movimento, é que isso é viável, tanto em termos comerciais quanto em de recepção do público.”
Anna Vitória Rocha, que é pesquisadora sobre o impacto do MeToo na construção da opinião pública sobre gênero, afirma que o movimento já nasceu como um olhar às estruturas socioculturais e dispensa individualizações.
“No audiovisual, que é o berço do MeToo, temos cada vez mais vozes e linguagens, o que é uma premissa deste movimento”, diz Rocha, que destaca outras produções do tipo pós-eclosão do movimento, como a aclamada série “I May Destroy You”, da HBO, e o filme “A Assistente”, de Kitty Green, que rompem com muitos dos clichês da categoria.
“I Hate Suzie”, da Sky, e “The Morning Show”, da Apple, também integram a lista de sucessos desse tipo.
Mas se por um lado o MeToo vem abrindo portas para uma nova era da representação da cultura do estupro no mainstream, por outro, o público que a consome ainda é de nicho e pouco diverso.
“Recorte de classe está diretamente atrelado ao acesso a essas ficções. Estamos falando de salas de cinema, TV paga, serviços de streaming e plataformas sob demanda”, diz a especialista em séries audiovisuais Clarice Greco. “Isso ainda precisa chegar à TV aberta, e com mais força.”
BELA VINGANÇA
Quando: estreia em 13 de maio
Onde: nos cinemas, com restrição devido à pandemia
Elenco: Carey Mulligan, Bo Burnham e Alison Brie
Produção: EUA, 2020
Direção: Emerald Fennell
