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Conhecido por preciosismo, João Gilberto já tocou em festival no raiar do sol

| FOLHAPRESS

SALVADOR, BA (FOLHAPRESS) - O sol começava a raiar no Parque de Exposições da Bahia, histórico palco de shows de artistas populares em Salvador, quando nada menos que João Gilberto, morto neste sábado (6) aos 88 anos, subiu ao palco empunhando seu violão. Conhecido por seu preciosismo em relação à qualidade do som, afinação dos instrumentos e silêncio nos ambientes em que se apresentava, João Gilberto já fez show em um festival na Bahia e entrou no palco às 4h da manhã. O fato insólito aconteceu em 1986, no evento Feira do Interior, no qual cidades do interior da Bahia montavam seus estandes, divulgavam seus produtos típicos em meio a uma programação musical. Acostumado a fazer shows em teatros, João Gilberto subiu ao palco do festival representando Juazeiro, cidade do sertão da Bahia na beira do Rio São Francisco, onde nasceu. "Ninguém acreditava que ele viria", lembra o músico Tuzé de Abreu, amigo de João e produtor daquele show na Bahia. O show era esperado pelo público para começar por volta das 23h, logo após a apresentação do cantor Luiz Caldas, na época um dos artistas baianos de maior sucesso, nos primórdios do que depois viria a se chamar axé music. Enquanto João não chegava, o público se espalhou pelas barracas montadas no entorno do palco ouvindo música mecânica. Nas rodas de conversa, boatos sobre um possível cancelamento do show e apostas entre amigos sobre se João tocaria ou não. Era 1h, quando começou a circular o boato de que João havia chegado ao Hotel da Bahia, centro de Salvador. Às 3h, chegou a confirmação: o cantor estava à caminho do Parque de Exposições. Eis que ele subiu ao palco às 4h da manhã. O clima não era o mais propício para um show tão intimista. Bêbados gritavam e dançavam em meio ao público e até sorveteiros caminhavam em frente ao palco chacoalhando seus sinos de metal. Mas quando João subiu ao palco com seu violão, o público o acompanhou com palmas e vozes músicas como "Chega de Saudade", "Aquarela do Brasil" e "A Felicidade". "Foi um show lindo, inesquecível", lembra Tuzé, que conta que o horário da apresentação foi proposital - João queria para reproduzir o cenário de um outro show que ele havia feito ao alvorecer em Minas Gerais. Em cima do palco, com a luz do sol surgindo no horizonte, João parecia à vontade. Pediu desculpa pelo atraso e celebrou estar na Bahia. E arrematou com uma quase heresia frente ao anedotário joãogilbertiano: elogiou a afinação da plateia que resistiu até o nascer do sol. 

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