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Mundo dos Bichos

CIÊNCIA

Cobra Naja: mais um animal vítima do tráfico

De origem asiática, cobra Kaouthia era mantida em casa por estudante de veterinária

| ACidade ON

O acidente ofídico (relativo a ou próprio de serpente) de um estudante de Medicina Veterinária causado por uma espécie de Naja (Naja kaouthia) em Brasília (DF) ganhou grande repercussão nos noticiários, uma vez que envolveu uma espécie exótica. É considerada espécie exótica aquela que não é da fauna nativa.  

 

Cobra naja que picou estudante em Brasília Foto: Ivan Mattos/Zoológico de Brasília


Esse acidente revelou um comércio ilegal de animais que ocorre no Brasil e também um risco à saúde das pessoas: termos em nosso território uma espécie peçonhenta cujo antiveneno (soro anti-ofídico) geralmente não está disponível e nem os profissionais da saúde terem experiência em lidar com essa situação muito peculiar por aqui.   

Saiba mais sobre o tráfico de animais 

Essa espécie de Naja (Naja kaouthia) é nativa da Ásia, existente em vários países deste continente, dentre eles: Bangladesh, Birmânia, Camboja, Índia, Butão, Laos, Malásia, China, Tailândia e Vietnã - onde os acidentes ofídicos com ela são comuns. Pertence à família dos elapídeos, que incluem também as corais-verdadeiras da América, a taipan da Austrália, mambas da África, outras espécies de najas da África e da Ásia, entre outras, famosas por serem muito venenosas. 

Seu nome em inglês é "Monocled Cobra", e se deve ao desenho na parte posterior, semelhante a um olho (monóculo), que pode servir como um mecanismo de defesa intimidando potenciais predadores que, ao verem isso, podem pensar que a serpente esteja de frente para eles. Na natureza se alimentam de anfíbios (principalmente as serpentes juvenis), roedores, outras serpentes e outros animais.   

 

Cobra naja que picou estudante em Brasília Foto: Ivan Mattos/Zoológico de Brasília

A Naja kaouthia apresenta um potente veneno e pode até levar a vítima a óbito em menos de uma hora, após a mordida em casos graves. Nessa espécie em particular, o envenenamento geralmente se apresenta com dor e edema, podendo surgir necrose local extensa e manifestações sistêmicas em menor grau. Sintomas neurológicos e neuromusculares podem se desenvolver precocemente, e também sonolência, paralisia, insuficiência respiratória, dentre outras manifestações.  

Na ausência do soro antiofídico para essa espécie de serpente, a chance do envenenamento evoluir para óbito é maior. No Brasil são produzidos soros para as serpentes presentes em nossa fauna. Mesmo o soro anti-elapídico destinado para as corais-verdadeiras, pertencente a mesma família das najas (Elapidae), não teria efeito, pois o veneno das serpentes são diferentes, e assim os anticorpos necessários para a neutralização do envenenamento também serão.  

Manter um animal peçonhento de forma ilegal no Brasil é crime, e a indisponibilidade do antiveneno, coloca em risco a vida das pessoas. 

Alguns anos atrás uma naja foi capturada em Camboriú, que provavelmente tinha escapado de algum criador ilegal. 

Fica o questionamento: quantas outras serpentes peçonhentas, exóticas de outros continentes, e que não deve existir o antiveneno (soro) no país, estão, por aí, sendo criadas, oferecendo um risco a saúde pública? As autoridades precisam urgentemente investigar a existência desse mercado ilegal no Brasil.  

Cobra naja que picou estudante em Brasília Foto: Ivan Mattos/Zoológico de Brasília


Dr. Paulo Bernarde
Biólogo Professor da UFAC Campus Floresta
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