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Mundo dos Bichos

CIÊNCIA

Híbridos

Como os cruzamentos permitem ao homem criar novas espécies

| ACidade ON

A primeira hibridação (ou cruzamento) de espécies foi realizada, ainda sem total ciência disso, no século XVIII por Joseph Gottlieb Kölreuter, utilizando espécies de tabaco. O híbrido foi realizado por meio do cruzamento das espécies Nicotiana rustica e Nicotiana paniculata, e é considerado um estudo visionário, tanto para a botânica quanto para a genética. O estudo era de fato avançadíssimo, uma vez que, na época, era repugnante a ideia de que vegetais tivessem sexualidade e que pudessem realizar cruzamento.

Mais tarde, com o avanço da pesquisa de Joseph e de outros estudiosos da área, chegou-se ao conceito de que híbrido é o indivíduo gerado a partir do cruzamento genético entre duas espécies vegetais ou animais distintas. Os híbridos muitas vezes são criados para fins comerciais, sobretudo no caso dos vegetais, que podem ter suas características melhoradas. Esse é o caso do maracujá roxo que é mais doce do que o fruto amarelo, do milho vermelho que é mais macio, da abóbora laranja que é mais gostosa e rica em betacaroteno, e do pomelo anão que é mais fácil de descascar e diminui o colesterol.

Os híbridos animais, por sua vez, são produzidos por razões diferentes. Costumam ocorrer ao acaso, pela interação natural de espécies distintas, ou pela interferência do homem, que busca reunir características de animais diferentes. A hibridização pode ocorrer ainda porque alguém simplesmente diz: "vamos cruzar para ver o que dá?", e então cria animais como o javaporco, cruzamento entre porco e javali com características muito similares ao porco, porém com menor porcentagem de gordura em sua carne, tal qual o javali.

No caso da intervenção humana, deve haver uma vantagem financeira para que os cruzamentos continuem a ser feitos. Um exemplo é o híbrido da abelha africana com a abelha europeia, produzido para se buscar um mel de boa qualidade (característica da abelha africana) e produzido por abelhas mais dóceis (característica da abelha europeia). Mas o resultado foi o contrário disso: um mel de baixa qualidade produzido por abelhas de difícil manejo. Por esse motivo, a reprodução deixou de ser realizada.

Os híbridos criados pelos humanos são tidos como um "melhoramento" genético, como é o caso do zebralo (zebra x cavalo), híbrido listrado mais forte do que o cavalo; do beefalo (boi x búfalo), híbrido mais resistente ao frio e a secas, e com teores mais baixos de gordura e colesterol em sua carne; do cama (lhama x dromedário), híbrido mais forte que a lhama e mais dócil que o camelo; e mesmo o ligre (leão x tigre), que possui comportamento social do leão e habilidades de natação do tigre, criado somente para apreciação.  

O ligre Hercules, considerado o maior felino do mundo, vive em uma reserva nos Estados Unidos
Zebralo
Beefalo - Autor: Karl Young

Também somente para apreciação está sendo "recriado" o mamute, paquiderme pré-histórico extinto há milhares de anos e que agora será hibridado com elefantes, inseminado artificialmente em fêmeas dessa espécie. Essa pesquisa é possível porque foi coletado sêmen de mamutes congelados em diversas partes do planeta.

Embora a apreciação humana seja o motivo principal do cruzamento entre mamutes e elefantes, acredita-se que se esses animais tivessem convivido em um mesmo tempo-espaço, a chance de que eles se cruzassem não seria absurda, já que hibridação natural entre animais é mais comum do que se imagina. Existem, por exemplo, casos de híbridos naturais entre iguanas marinhas e terrestres; tigres de bengala e siberiano; coiotes, lobos, cães selvagens, chacais e cães domésticos; rinocerontes preto e branco; crocodilos marinho e siamês; e algumas espécies de tubarão. Até mesmo a mula e o burro são híbridos naturais.

Acredita-se ainda que o próprio ser humano seja um híbrido de outras espécies. Essa hipótese se baseia na suposta convivência entre as espécies H. sapiens e H. neanderthalensis, que teriam vivido em regiões próximas. Tal convivência teria sido tão conturbada a ponto de culminar com a extinção dos neandertais. Porém, antes da extinção, teriam ocorrido diversas disputas de território e até estupros, produzindo filhotes híbridos entre as espécies.

O interesse dos humanos por manipular geneticamente outros seres vivos é indiscutível, e talvez se explique por ser ele próprio, o homem, um produto híbrido. Entretanto, é necessário um controle da produção e utilização dos híbridos, uma vez que são escassos os estudos que tratam do assunto e, sem dúvida, sua utilização é no mínimo polêmica.  

 

Texto: Andréa Mourão