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Mundo dos Bichos

CIÊNCIA

Os animais gigantes da era do gelo

Saiba como o estudo dos animais pré-históricos pode nos ajudar a compreender melhor o nosso planeta

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Recentemente na Rússia, foi encontrada uma carcaça de rinoceronte lanudo em ótimo estado de conservação. Estima-se que este animal tenha vivido na região por volta de 20 mil anos, na conhecida Era do Gelo. A carcaça impressionou os estudiosos devido ao seu nível de conservação. O professor de paleontologia da UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Heitor Francischini, explica que estes achados têm uma grande contribuição para os estudos do período.  

"Estes animais que são encontrados congelados nas regiões mais ao norte da Rússia e do Alasca são de uma época não muito antiga. Eles morreram e ficaram congelados no último máximo glacial que a Terra passou, entre 20 e 10 mil anos atrás. Restos alimentares são frequentemente encontrados no interior das carcaças congeladas e até sangue líquido já foi recuperado de um mamute. Isso pode indicar a presença de substâncias anticongelantes no sangue destes animais, coisa que não existe nos seus parentes atuais, os elefantes. Cada novo espécime encontrado abre uma nova janela de investigação, trazendo respostas e muitas novas perguntas." - Esclarece o professor.  

Rinoceronte Lanudo
 Heitor explica também que além dos rinocerontes-lanudos, outros animais são frequentemente encontrados naquela região como mamutes-lanudos, cavalos, bisões, leões-da-caverna, ursos etc. Estas carcaças encontradas ao longo do tempo revelam aspectos interessantes sobre a biologia dos animais daquele período e região e como eles interagiam entre si.  

Os animais que viveram na Era do Gelo, ou Era Glacial, tinham algumas diferenças com os animais que conhecemos hoje. Geralmente eles possuíam uma grande quantidade de pelo e gordura, para conseguir superar as baixas temperaturas. Muitas espécies que viveram naquela época foram extintas, mas diversas delas se adaptaram e existem até hoje.  

"Durante o Pleistoceno período das glaciações - existiam lhamas e chinchilas, animais que podemos encontrar hoje no território brasileiro. Estas espécies não foram extintas, mas com a mudança climática sua distribuição geográfica ficou restrita à zona andina. Mas também houveram aquelas espécies que foram completamente extintas, como os famosos tigre-dentes-de-sabre e preguiças-gigantes." esclarece o docente da UFRGS  

Os animais encolheram com o tempo?  

Quando vemos registros de animais da Era do Gelo é muito comum nos depararmos com espécies enormes. Um exemplo muito famoso é o caso das preguiça-gigante, o mamífero Megatherium Americanum, por exemplo, chegava a 6 metros de altura e podia pesar até 5 toneladas. Bem diferente das preguiças que conhecemos hoje, que geralmente medem cerca de 70cm e pesam, em média, 6 kg.  Entretanto, o paleontólogo explica que os animais não diminuíram com o passar do tempo. O que ocorreu é que as espécies foram extintas. 

"Este é um ponto que causa bastante confusão. As espécies de animais não diminuíram progressivamente desde a Era do Gelo até hoje. O que houve foi uma extinção em massa das espécies de grande porte, mais conhecida como Megafauna. A megafauna é o conjunto de animais com mais de 100 kg. Então, dentre todos os mamíferos que habitavam a América do Sul, por exemplo, as espécies de maior porte foram as mais afetadas neste momento e se extinguiram." Comenta Heitor.  

O professor de paleontologia explica que os animais que faziam parte da megafauna foram se extinguindo gradualmente no final do período chamado Pleistoceno. Estudos apontam que as espécies de grande porte não viveram além de 10 mil anos atrás, já os animais menores conseguiram avançar um pouco, chegando a 4 mil anos atrás.  

"No nosso continente tivemos diversas espécies de preguiças-gigantes, gliptodontes (aparentados aos tatus, mas do tamanho de um fusca), toxodontes (animais semelhantes aos hipopótamos, mas sem parentesco com eles), macruaquênias (outros animais sem parentesco com os atuais, mas que lembravam grandes camelos com trombas), mastodontes, tigres-dente-de-sabre entre outros. Todos possuíam um tamanho muito maior do que qualquer uma das espécies que vivem hoje em dia no nosso continente. Hoje o nosso maior herbívoro é a anta e o maior carnívoro é a onça-pintada e ambos conviveram com a megafauna pleistocênica, mas eram muito menores que os outros animais." Esclarece Frascischini.

Ainda vivemos na Era do Gelo?  

Muita gente tende a acreditar que os períodos aconteceram de maneira única, mas na verdade eles são compostos de pequenos ciclos que se repetem. Heitor explica que desde a formação da Terra, o planeta passou por momentos de frio intenso e temperaturas muito altas, pois o clima não é constante.  

"Ao todo, tivemos pelo menos cinco grandes momentos que podemos chamar de "eras-do-gelo", que compreendiam ciclos menores de congelamento e descongelamento. O que costumamos nos referir ao falar de "era-do-gelo" é só o último destes grandes ciclos. Na verdade, ainda estamos vivendo este ciclo, que começou a mais ou menos 40 milhões de anos - ou seja, após a extinção dos dinossauros não avianos."  

O paleontólogo esclarece que na Era Mesozóica, na época dos dinossauros, não havia gelo acumulado nos polos. Então, o congelamento dos pólos norte e sul é um fenômeno relativamente recente. Há 40 milhões de anos ocorreu uma progressiva diminuição da temperatura global, que culminou no Pleistoceno. Mas é importante lembrar que este período progressivo ocorreu em pulsos, com momentos mais frios glaciais - e os menos frios - interglaciais.  

Então, o período popularmente conhecido como Era do Gelo é o último máximo glacial, que ocorreu cerca de 11 mil anos atrás e, desde então, estamos vivendo um dos intervalos interglaciais dentro do grande momento de glaciação que se iniciou há 40 milhões de anos.  

 O aquecimento global faz parte do ciclo?  

Heitor explica que o aquecimento que vivemos é parte do ciclo natural da Terra e está relacionado com aspectos extraplanetários, como a forma da órbita da Terra, por exemplo. Mas, ao comparar as temperaturas em um intervalo de tempo curto, como antes e depois da revolução industrial, fica claro que as temperaturas estão aumentando muito.  

A quantidade de gases estufa liberados pela humanidade tem acelerado o processo de aquecimento que viveríamos de qualquer forma neste momento interglacial. Entretanto, ele explica que o aumento na temperatura não é um fator isolado. A mudança no ritmo e intensidade das chuvas, o aumento no nível dos oceanos, mudanças de salinidade e pH da água marinha, incêndios mais frequentes e intensos, todos estes fatores têm um grande impacto na fauna, flora e na biosfera de maneira geral.  

"O clima é um dos fatores que interfere na extinção das espécies e essa "dança" entre era do gelo e períodos de intenso efeito estufa são naturais e esperados. A questão é que estamos manipulando os ciclos naturais em uma velocidade que não sabemos como a Terra vai responder. Provavelmente, a humanidade e diversas outras espécies não estarão mais por aqui para dançar a próxima música." - Comenta o docente.