Aguarde...
Mundo dos Bichos

COLUNISTAS

De onde vem o som da cigarra?

Parece cantoria, mas o som emitido pela cigarra é mais uma proteção do que arte

| ACidade ON


Foto: © Pedro Alanis 2019

Nestas noites quentes e úmidas que precedem o verão começamos a ouvir o cantar, o barulho que vai longe. Quando se percebe, o som torna-se contínuo, enquanto que em alguns momentos é possível ouvir mais de uma melodia ao mesmo tempo. Para algumas pessoas, elas incomodam, para outras, os barulhos que elas fazem são parte do ambiente, integram a memória afetiva. É dessa forma que as cigarras anunciam sua presença nos arvoredos de Araraquara. E quando não aparecem, há quem sinta a falta.


As cigarras são provavelmente mais conhecidas por seu zumbido. Elas também são famosas por sua propensão a desaparecer por completo por muitos meses (mas calma, irei explicar o sumiço), apenas para reaparecer em vigor em um intervalo regular. Existem cerca de 3.000 espécies de cigarras, mas apenas algumas possuem este comportamento de emitir som. As cigarras pertencem à classe Insecta, ordem Hemiptera, Família Cicadidae e as espécies mais abundantes no estado de São Paulo são: Quesada gigas, Quesada sodalis, Fidicina pronoe, Fidicina mannifera, entre outras menos abundante. 

Foto: Jonathan Newman
Metamorfose 

A cigarra é um inseto de metamorfose incompleta, um processo que, na Biologia, se chama hemimetabolismo e consiste na transição ovo- ninfa- adulto. Dependendo da espécie de cigarra, as ninfas podem viver sob a superfície do solo na terra de um a 17 anos, alimentando-se da seiva de raízes de plantas. Após esse período de suas vidas, elas cavam túneis, sobem nas árvores e passam por uma metamorfose, conhecida como ecdise, tornando-se adultas e prontas para o acasalamento!    

Para não serem devoradas pelos seus predadores, as ninfas de cigarras esperam o anoitecer para sair pelos túneis que elas construíram. Em seguida, procuram a primeira superfície vertical que encontram, como árvores ou uma parede. A escalada, que pode alcançar até dois metros de altura, é longa e cansativa para as cigarras. Por isso, após alcançar a altura almejada, a ninfa permanece parada por algum tempo, até surgir uma fenda em suas costas, e é por essa fenda que a cigarra adulta emergirá. Primeiro surge a cabeça com os enormes olhos que brilham à luz. Depois, parece que o corpo mole do adulto que escorrega vagarosamente pelo exoesqueleto até liberar as pernas. Finalmente, já fora da carapaça, mas agarrado à ela, as asas começam a inflar até se formarem completamente.    


O acasalamento aumenta nesta época da primavera e esse é um dos motivos da cantoria, pois os machos emitem o som forte e repetitivo para conquistar as fêmeas. Após a cópula, as fêmeas põem os ovos em galhos de árvores. Depois de se reproduzirem, as cigarras têm mais um ou dois meses de vida. Outro motivo para a cantoria das cigarras é quando elas estão em perigo. Nesse caso, o objetivo do som é de assustar os predadores. Diferentemente do que muitos pensam, há cigarras em outras estações, mas é nesta época que a maioria das espécies estão preparadas para o acasalamento.   

Da cantora até a cantoria

O som que se ouve é produzido apenas pelos machos que possuem uma membrana em ambos os lados do primeiro segmento do abdômen, chamada de tímbalo, que são conectados aos músculos. Os músculos realizam movimentos de contração e relaxamento sucessivos deformando essa membrana em uma frequência que pode variar de 120 a 600 repetições por segundo. A ressonância é feita graças aos sacos de ar presentes no abdômen. Outras estruturas, os sacos aéreos e os opérculos, auxiliam os tímbalos na ampliação do som.  


 

 A Cigarra e a Formiga é uma das fábulas infantis mais famosas nos dias que correm, e continuam muito presente nas nossas memórias. Fábulas são histórias curtas que pretendem passar uma mensagem ou ensinamento a quem as escuta.  

A narrativa costuma ser atribuída a Esopo, autor da Grécia Antiga e precursor desse tipo de gênero literário. Mais tarde, foi contada em versos pelo francês La Fontaine. Desde aí, surgiram inúmeras adaptações, incluindo a do autor brasileiro Monteiro Lobato.    


 

A Cigarra e a formiga  

Num belo dia de inverno as formigas estavam trabalhando muito para secar suas reservas de comida já que os grãos tinham ficado molhados depois de uma chuvarada. De repente aparece uma cigarra:  

- Por favor, amiguinha, me dêem um pouco de comida! 

As formigas pararam de trabalhar, coisa que era contra seus princípios, e perguntaram: 

-Mas por que? O que você fez durante o verão? Por acaso não se lembrou de guardar comida para o inverno? 

Falou a cigarra: 

-Para falar a verdade, não tive tempo. Passei o verão todo cantando! 

Falaram as formigas: 

- Bom...Se você passou o verão todo cantando, que tal passar o inverno dançando? E voltaram para o trabalho dando risadas. 

Fábula de ESOPO 

Moral da história: 

Os preguiçosos colhem o que merecem.

 

Agradecimentos: Dr. Hélcio Reinaldo Gil Santana pela revisão do texto e ao Ricardo Brugnera por ceder imagem.
Fontes: MARTINELLI, Nilza M. and ZUCCHI, Roberto A.. Cigarras (Hemiptera: Cicadidae: Tibicinidae) associadas ao cafeeiro: distribuição, hospedeiros e chave para as espécies. An. Soc. Entomol. Bras. [online]. 1997, vol.26, n.1 [cited 2020-10-02], pp.133-143.
J.A. Rafael; G.A.R. Melo; C.J.B. de Carvalho; S.A. Casari& R. Constantino. Insetos do Brasil: diversidade e taxonomia. Ribeirão Preto, Holos Editora, 810p.

Mais do ACidade ON