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Mundo dos Bichos

MEIO AMBIENTE

Tráfico de animais

O Ibama divulgou uma lista de 130 espécies sob risco de extinção no Brasil. Você acredita que este número possa ser maior?

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Os maus-tratos aos animais sempre foram motivo de espanto para o antropólogo Felipe Vander Velden, professor do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).  

Suas memórias pessoais resgatam vivências no Sul de Minas, onde passou parte da infância. "Lembro de pessoas que capturavam e mantinham presos em suas casas animais como macacos e papagaios, o que era relativamente comum", afirma. "Também tinha amigos cuja paixão eram aves canoras e que as mantinham aprisionadas."  

Ao se graduar e enxergar esses acontecimentos pela ótica de sua formação, passou a buscar compreender, no campo da Antropologia, o que leva as pessoas a aprisionar animais. Hoje, canaliza seus estudos para questões ligadas à proteção ambiental e animal, e tenta responder perguntas sobre as origens do tráfico e da captura animal, suas motivações e também encontrar saídas para conter estas práticas.

Mundo dos Bichos Qual a sua atuação no combate ao tráfico de animais?  

Felipe Vander Velden: Tenho me interessado em estudar a circulação de animais vivos e/ou em partes na Amazônia, o que inclui o tráfico ilegal de animais silvestres. Faço uma investigação antropológica das modalidades de captura, cativeiro e intercâmbio de espécies animais entre os diferentes grupos sociais amazônicos, como povos indígenas, populações ribeirinhas, moradores de periferias urbanas e suas conexões com mercadores e estabelecimentos que comercializam ilegalmente animais selvagens no Brasil e no exterior, além de seus clientes, colecionadores ou simplesmente gente que gosta de ter animais exóticos em casa. O tráfico de animais em si é de interesse da antropologia: formas de circulação e intercâmbio são um tema clássico da disciplina, assim como as relações entre humanos e animais. No entanto, pouco foi feito para compreender o entrelaçamento entre esses dois campos, ou seja, o bicho como objeto de intercâmbio entre grupos sociais. Ademais, os animais são parte fundamental da história da humanidade e de suas relações atuais e, até por isso, o cuidado e o respeito para com eles se tornam questões ainda mais sérias pois todas as formas animais têm tanto direito ao planeta quanto nós, seres humanos.

De que maneira o tráfico contribui para o desaparecimento de animais silvestres e quais são suas motivações?  

Sua contribuição é decisiva em processos de extinção de espécies por duas razões: o valor concedido a sua raridade e o volume crescente do comércio. No primeiro caso, quanto mais escasso um bem, maior seu valor monetário isso vale também para animais. Espécies encontradas em número reduzido ou restritas a regiões geográficas específicas, como ilhas ou vales isolados, alcançam maior preço no mercado ilegal e são, por isso, mais procuradas pelos traficantes. Eles abastecem o gosto excêntrico pela raridade e pelo exotismo. A procura dos traficantes por espécies raras conduz à redução dessas populações e cria um círculo vicioso: espécies que são continuamente capturadas se tornam mais escassas, o que eleva seu preço e estimula mais procura, e por aí vai, até a extinção da espécie. A outra razão que leva o tráfico de animais a contribuir com o desaparecimento de espécies é o volume crescente desse negócio ilegal. Como sabemos, o comércio internacional de animais silvestres movimenta cifras astronômicas e não cessa de se expandir. A quantidade de indivíduos capturados e negociados, aliada ao aumento da procura por esses animais silvestres seja para coleções de animais vivos ou mortos, formam um cenário que desencadeia a extinção.  

Animais domésticos também são vítimas   

 "O tráfico de animais domésticos é pouco conhecido. Fala-se muito em comércio ilegal de espécies selvagens, mas há também, no mundo todo, um mercado ilícito de espécies domésticas, incluindo o abate clandestino de bovinos, suínos e aves, além da comercialização por rotas obscuras e da criação sem critérios mínimos de higiene e bem-estar de cães, gatos e outras espécies. 

Tudo isso deve ser levado em conta se pensamos em desenvolver modos de relação menos exploratórios e violentos com as demais formas de vida que partilham a Terra."

Segundo o Fundo Mundial para a Natureza (WWF), o tráfico de animais no Brasil gera 1 bilhão de euros por ano. Você acredita que as autoridades e a sociedade dão pouca importância para o fato?  

As autoridades têm feito pouco para combater o tráfico de animais. Muito é em função do descaso, da pouca estrutura e do próprio despreparo dos indivíduos e agências responsáveis pela proteção ao meio ambiente e pelo combate ao comércio ilegal de animais no Brasil e em outros países, especialmente no mundo em desenvolvimento que, por sinal, concentra os países mais pobres e mais biodiversos. Há dificuldades adicionais, como por exemplo o fato de que esse comércio ocorre, muitas vezes, em regiões de acesso difícil, em áreas distantes no interior do país. Também existem as fronteiras, que no caso brasileiro são muito extensas e de fiscalização complexa. Mas não podemos esquecer que a sociedade contribui decisivamente para a tragédia do comércio ilegal de animais, afinal, só há traficantes porque há compradores. Há aqueles grandes colecionadores, muitos compradores em nível global, que pagam pequenas fortunas por animais de certas espécies. Há também os cidadãos endinheirados principalmente nos Estados Unidos, Europa e Japão que compram animais silvestres ilegalmente movidos por modismos ou por uma atração pelo exótico. Mas há, também, compradores ricos e com os mesmos gostos no Brasil, assim como uma imensa parcela das classes médias ou populares em especial no interior do país , que insistem em manter animais silvestres em suas casas irregularmente. Somente com o término da procura por esses animais, o tráfico terá seu fim. Se não houver compradores, não há razão para que existam traficantes e vendedores.   


O Ibama divulgou uma lista de 130 espécies sob risco de extinção no Brasil. Você acredita que este número possa ser maior?
 É possível que seja maior, sobretudo pelo fato de que ainda conhecemos pouco da enorme biodiversidade do nosso país e das dinâmicas ecológicas, incluindo as ações humanas, de várias regiões, muitas isoladas e de difícil acesso. Sabemos que é muito provável que espécies animais e vegetais entrem em risco de extinção e mesmo desapareçam completamente antes que sejam conhecidas pela ciência. Claro, extinções são também processos naturais, parte da dinâmica da vida no planeta. Basta recordar o que aconteceu com os dinossauros, milhões de anos antes de humanos andarem pela Terra. Mas o fato é que, nos últimos séculos, os homens têm sido os grandes responsáveis pela extinção de espécies de seres vivos e, quando um habitat inteiro é completamente destruído, o que não é incomum, muitas espécies podem ser exterminadas antes mesmo de ser reconhecidas. É fundamental que haja mais investimento em pesquisas, em especial as de campo, que se possa compreender melhor a ecologia das espécies animais e, desta forma, contribuir para que tenhamos uma lista mais acurada das espécies ameaçadas.  


Como acabar com o tráfico de animais no Brasil?  

Reforço que o tráfico de animais no Brasil só poderá ter fim se dois grandes conjuntos de ações ocorrerem rápida e simultaneamente. Primeiro, as autoridades oficiais, em todos os níveis federal, estadual e municipal , precisam tomar a devida consciência da tragédia que é a captura, o transporte, o encarceramento e a comercialização ilegal de animais, e materializar esta consciência na forma de políticas públicas e ações decisivas voltadas para o combate ao tráfico de espécies silvestres, como melhorar a fiscalização nas fronteiras, rodovias, portos e aeroportos, que são as rotas de circulação e de fuga de traficantes e dos animais capturados; aumentar a vigilância em parques nacionais e outras áreas protegidas; refinar a legislação contra o tráfico de animais; fomentar o diálogo internacional a respeito do tema e organizar e desenvolver campanhas de conscientização da população a respeito dos muitos impactos do tráfico de animais para o meio ambiente. É de grande importância também que a população atue, em conjunto com o Estado, no combate a estas práticas ilegais. Falo da atuação de professores em salas de aula, de padres e pastores em igrejas e templos, e mesmo da educação em casa, pois os pais podem incutir nas crianças o respeito pela vida selvagem em geral e por cada animal em particular ao não praticar e desestimular a violência e os maus-tratos contra animais e práticas clandestinas. 

 

A criação de parques e reservas é alternativa para o combate ao tráfico?  

Parques e reservas podem ajudar a combater o tráfico de animais, mas não se existirem apenas no papel, em mapas, como ocorre com a maioria das áreas protegidas no Brasil. Não basta criar uma reserva e deixá-la sem fiscalização, sem pesquisas que ajudem a compreender o funcionamento daquele ecossistema, sem educação e conscientização ambientais das populações do entorno, enfim, sem garantir efetivamente sua proteção. Sabemos como, no Brasil, a fiscalização dos parques e reservas naturais é pífia, com pouquíssimos guardas e funcionários, em geral mal treinados e com salários baixos. A maioria das pessoas sequer sabe da existência dessas áreas protegidas, mesmo aquelas que vivem nas proximidades. Criar áreas de proteção ambiental em múltiplos níveis, do federal ao particular, é importantíssimo, mas é necessário fiscalizar as fronteiras. Além de atos legislativos e administrativos, isso deve incluir as populações que estão nas regiões vizinhas a essas áreas ou no interior delas. Estas comunidades, como detentoras de um saber especializado e de uma experiência muitas vezes secular e mesmo milenar com esses ambientes e os seres que ali vivem, podem contribuir muito para a proteção dessas reservas. 

Você lançou um livro que trata da relação entre tribos indígenas e animais domésticos. O que podemos aprender com essas populações no que diz respeito ao trato com animais?  

Mesmo não sendo ecologistas no sentido estrito do termo, as tribos indígenas vêm garantindo com maior eficiência a biodiversidade das terras em que habitam, muitas vezes contribuindo para aumentá-la. As terras indígenas no Brasil são as áreas de maior concentração de biodiversidade nativa, bem como as zonas mais protegidas ambientalmente. Vale a pena ouvir e conhecer o que esses povos têm a dizer sobre a natureza e os seres vivos, pois suas práticas parecem dar resultados na conservação ambiental. Veja o caso de Rondônia: embora haja vastas áreas de proteção ambiental, como parques nacionais e estaduais, florestas nacionais e estações ecológicas, se você olhar uma foto de satélite da região, verá que as terras protegidas, de fato, são as indígenas. Clique para o livro. .