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A (paleo)biodiversidade brasileira

O Brasil ocupa as primeiras posições de qualquer lista de biodiversidade

| ACidade ON -

O Brasil ocupa as primeiras posições de qualquer lista de biodiversidade que se possa levantar: o país possui grande parte dos mamíferos, das aves e dos anfíbios do mundo, sem contar os répteis, peixes, insetos, orquídeas, bromélias, fungos e muitos outros grupos de seres vivos.

Em toda a dimensão continental deste nosso país, temos um vasto número de biomas e paisagens, que variam das dunas potiguares aos pampas gaúchos, passando por um sem número de florestas, campos, manguezais, cavernas, serras. Dados científicos ainda apontam que não conhecemos mais que 10% de todo o nosso patrimônio vivo e que muitas das espécies ainda não catalogadas por cientistas já estão em vias de extinguir-se. 

Logicamente, a posição do Brasil no planeta Terra é favorável para a ocupação de diferentes tipos de ambientes. Temos um território que se estende de um hemisfério a outro, com diferentes padrões de relevo, de clima, pluviosidade e solo, que nos permite ter um nordeste semiárido e uma serra catarinense com geadas e neve frequente. E todos estes fatores proporcionam uma riqueza e uma diversidade de espécies tal como encontramos neste país.  

Mas, se por um lado, temos grandes extensões de florestas, cerrados e campos, pequenas variações locais transformam estes ambientes em colchas de retalhos, cuja provincialidade e endemicidade são muito bem quistas. Assim, o Brasil possui não só espécies que ocorrem em praticamente todos os biomas, como a suçuarana (Puma concolor), como também muitas espécies endêmicas. O mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia) vive somente nas matas úmidas do Rio de Janeiro; o tuco-tuco (Ctenomys minutus) é exclusivo da costa gaúcha; o cacto mandacaru (Cereus jamacaru) só ocorre na Caatinga, e por aí vai!    


Outro fator que influencia a biodiversidade é o "histórico" biológico brasileiro. Os biomas estão sempre se modificando no decorrer do tempo. Para quem olha uma floresta imponente como a Amazônia, fica difícil imaginar que aquela região já foi coberta por vegetação savânica, como o cerrado, e até por um braço de mar. O mesmo aconteceu com o sertão nordestino: ele já abrigou uma imensa quantidade de espécies de peixes, tubarões, tartarugas e outros animais marinhos. Sabemos isso graças aos fósseis!  

Fóssil é um resto corporal ou vestígio de um organismo que viveu em períodos geológicos passados: ossos, dentes, escamas, placas, folhas, penas, ovos, pegadas, fezes ou até mesmo um organismo inteiro são exemplos de fósseis. E o Brasil possui muito deles! Se em pouco mais de 500 anos de história (decorridos desde a chegada de Pedro Álvares Cabral a Porto Seguro) sabemos tão pouco sobre as espécies que vivem ou viveram no nosso país, imagine se aumentarmos este tempo para dez mil anos. E para um, dez ou cem milhões de anos?  

Se voltarmos no tempo, poderíamos encontrar faunas e floras muito diferentes das que conhecemos hoje. No interior do Ceará e do Pernambuco atual, na região conhecida como Chapada do Araripe, encontramos árvores e arbustos típicos da caatinga, caules grossos, espinhos, folhas coriáceas. Mas se voltarmos ao Período Cretáceo (72 milhões de anos atrás), na mesma região, encontraremos um grande lago onde dinossauros esperam silenciosamente pelo melhor momento de abocanhar um peixe e pterossauros voam exibindo suas cristas possivelmente multicoloridas. Neste mesmo período, em São Paulo e Minas Gerais, saurópodes desfilam com seus longos pescoços entre pequenos crocodilos que mais parecem tatus. Ao retroceder mais no tempo, até chegar ao Período Jurássico (há 145 milhões de anos), o mesmo território paulista e mineiro estariam cobertos de areia, formando o maior deserto que já houve no mundo, com pequenos dinossauros bípedes e mamíferos saltitantes.  

Quanto mais retrocedemos na cronologia, mais diferente é a paisagem vislumbrada: no Triássico do Rio Grande do Sul (mais ou menos 230 milhões de anos atrás), manadas de dicinodontes alimentando-se de plantas parecidas com as cavalinhas atuais eram comuns. Raro é observar que os grandes predadores, com quase dois metros de altura e pernas adaptadas para a corrida, eram parentes distantes dos crocodilos. Já no Permiano (290 milhões de anos) do mesmo local, um grande braço de mar de águas frias banhava a região, na qual pequenos répteis, os mesossauros, nadavam em busca de crustáceos. Por falar nestes incríveis animais, os mesossauros são endêmicos do Brasil, do Uruguai e da costa oeste da África, sendo testemunhas de um passado em que América e África formavam um único grande continente, o Gondwana, juntamente com a Antártica, a Austrália e a Índia.   

Mesosaurus


O entendimento da biodiversidade é uma atividade muito complexa. Se variações no espaço (sobretudo na latitude e na altitude) podem revelar uma mudança na composição faunística e florística, variações no tempo (estas viagens ao passado que os fósseis nos proporcionam) mostram toda a evolução geológica, climática e biológica que uma região sofreu.
Os ambientes mudam lentamente, num quadro de estabilidade dinâmica, em que o que existe hoje é o resultado de colonizações, extinções e interações das mais diferentes espécies de animais, vegetais e micro-organismos com o ambiente físico. Um mergulho nas profundezas do tempo pode revelar histórias e personagens incríveis, que só estão disponíveis para nós, humanos, como singelas criaturas petrificadas: os fósseis.

Texto: Heitor Francischini - biólogo formado pela UFSCar e mestrando em Geociências (Paleontologia) pela UFRGS

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