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Mundo dos Bichos

MEIO AMBIENTE

Dia da Amazônia: Não se tem muito a comemorar.

Somente no mês passado, foi alcançado o pior mês de queimadas da última década

| ACidade ON

Neste dia 5 de setembro é celebrado o Dia da Amazônia, mas diante do cenário atual, não se tem muito a comemorar. Somente no mês passado, foi alcançado o pior mês de queimadas da última década segundo dados do Inpe - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.  

A floresta amazônica possui mais de quatro milhões de quilômetros quadrados de extensão e abrange países como Brasil, Guiana Francesa, Suriname, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia e Paraguai. E mesmo com toda este tamanho e relevância, os problemas que afetam este patrimônio natural parecem ainda muito distantes da maioria da população.

Você, que mora há milhares de quilômetros de distância da floresta pode estar pensando que o intenso desmatamento e os quase 30 mil focos de incêndio mensais não vão afetar a sua vida. Mas é aí que você se engana, pois os efeitos são catastróficos, impactam a rotina de todo o mundo (literalmente falando).

Como resposta aos recentes acontecimentos a Apib - Articulação dos povos indígenas do Brasil - em parceria com o Observatório do Clima lançou uma campanha "Defund Bolsonaro" com o objetivo de pressionar empresas e investidores estrangeiros a não financiar o desmatamento. A iniciativa das organizações responsabiliza o governo pela situação atual e incentiva a retirada de investimentos para o Brasil.  


Como esse desmatamento nos afeta hoje?

O desmatamento neste ano pode ser maior do que 12 mil quilômetros quadrados e mesmo que não houvessem mais queimadas a partir de hoje, os efeitos na região podem ser irreversíveis. Segundo o biólogo Izar Aximoff, doutor em Botânica, Especialista em Queimadas e integrante do Laboratório de Radioecologia e Mudanças Globais/UERJ, algumas espécies da flora podem desaparecer e afetar todo o ecossistema da região.

"O impacto sobre a vegetação é tremendo, na medida que muitas espécies nativas são perdidas e muitas vezes não conseguem regenerar. Assim como na Mata Atlântica, os Biomas Amazônia e Pantanal possuem espécies da flora que são sensíveis ao fogo. Uma vez queimadas essas podem desaparecer e afetar uma série de interações que envolvem desde a ciclagem de nutrientes até a interação entre espécies, como por exemplo com polinizadores que dependem dos recursos florais para sobreviver, ao mesmo tempo que garantem a reprodução das espécies vegetais." explica o biólogo

O doutor em botânica também comenta que a ocorrência de queimadas frequentes em uma mesma área é extremamente prejudicial, pois dificultam a sua recuperação. A perda da diversidade é uma das consequências mais graves do desmatamento pois suas consequências são irreversíveis.
 

Efeitos no clima - tempo mais seco e quente

Ano passado foi possível presenciar um efeito direto das queimadas aqui no sudeste. Em agosto de 2019, a capital paulista escureceu por volta das 15h da tarde devido à fumaça dos incêndios. A convergência de ar poluído com uma frente fria vinda do sul fez com que a fumaça chegasse até São Paulo.

Então, mesmo que as queimadas ocorram somente em uma região do país, ela pode afetar o aumento da temperatura de diversos lugares e afetar outros países e continentes.

"Se nós considerarmos o efeito imediato das queimadas na qualidade do ar e mesmo nas condições climáticas, sendo essa última, considerada fundamental para produtividade das plantações, o impacto do fogo é devastador. As queimadas potencializam o aquecimento do planeta na medida em que são transferidos para atmosfera toneladas de partículas e cinzas. Em anos com influências de fenômenos climáticos como El Ninho ou La Ninha, os efeitos das secas e elevadas temperaturas afeta diretamente as lavouras e aumentam o risco de novas queimadas, como estamos vendo ocorrer em 2020 em todos os biomas brasileiros." esclarece Aximoff.

Menos chuvas

Além da temperatura, o avanço do desmatamento também afeta diretamente o regime de chuvas. Segundo um estudo realizado pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa,
a cada 10% de área desmatada, a ocorrência de chuvas no mesmo local é encurtada em 0,9 dias, em média. Isso sem considerar o efeito das mudanças climáticas. E sem chuvas, a qualidade da produção de alimentos é comprometida, encarecendo o preço dos produtos para os consumidores finais.

Ainda de acordo com a mesma pesquisa, o comprometimento das áreas verdes, além de diminuir o período de chuvas, também atrasa o início delas. Então, o desmatamento contribui para prolongar os períodos de seca e compromete a qualidade de vida de todos.

"Todo o clima brasileiro está relacionado principalmente com a umidade da amazônia. Uma vez que a floresta é perdida essa umidade deixa de ser transportada pelos rios voadores carregados pelas massas e correntes de ar para outras regiões centrais e do sul do Brasil, fazendo com q a seca e a poluição do ar afete essas regiões de maneira a causar prejuízos econômicos e de saúde da população." comenta o biólogo.  



Conscientização e políticas públicas

A data deve servir de alerta para que a população entenda a dimensão do problema que a Amazônia está enfrentando. É necessário cobrar a execução de políticas socioambientais efetivas que impeçam o avanço do desmatamento. Com o desmonte de órgãos do governo que tem o objetivo de fiscalizar os incêndios criminosos, é praticamente impossível de combater esta tragédia ambiental.
 

Texto: Juliana Baptista