Aguarde...
Mundo dos Bichos

MEIO AMBIENTE

A relação íntima do ser humano com a água

A água é o elemento que permite o surgimento da vida como a conhecemos. Entenda como essa substância básica é crucial para a história do homem

| Mundo dos bichos

Gigante pela própria natureza
No princípio era a areia. O vento e as intempéries castigavam as dunas, e ao castigá-las, poliam a face dos grãos de areia, deixando-os arredondados. A areia foi coberta pelo vulcanismo, pela glaciação e por milhares de anos de atividade geológica. Esmagada pelas camadas do solo, a areia foi transformada em um tipo de rocha, a que chamaram arenito, e o arenito tem absorvido a água do solo desde então. Assim foi feito o Aquífero Guarani. Nele está a água, e a água é a vida dos homens.

O primeiro dos livros da Bíblia, o Gênese, descreve o surgimento do mundo por meio da vontade criadora de Deus. Porém, antes mesmo de proferir o famoso "Faça-se a Luz", o espírito Divino já pairava sobre a superfície das águas. Já o hinduísmo narra que Vishnu, divindade responsável pela manutenção do universo, descansava sobre as águas antes da criação dos ciclos cósmicos. Por isso, um dos seus nomes é Narayana, que significa "o que está sobre a água".

Narrativas como essas revelam que a ligação do homem com a água é muito mais profunda do que a mera urgência biológica, e se projeta sobre a religião, a filosofia, a economia, a política e as mais distintas expressões da atividade humana. Na atualidade, a ênfase dos assuntos relacionados à água gira em torno da sua progressiva escassez e deterioração em diferentes regiões do globo, e dos transtornos de ordem ecológica e social que podem decorrer desse desequilíbrio. Diante de um cenário tão pouco animador, existe uma perspectiva que ainda inspira otimismo: o Aquífero Guarani.



Grandeza continental


O Aquífero Guarani tem esse nome em virtude da sua distribuição geográfica, praticamente a mesma dos índios da etnia guarani, que ocupavam vastos territórios da América do Sul. Cabe lembrar, entretanto, que outros países costumam utilizar também outros nomes para o aquífero. No Brasil, ele é constituído pelas formações geológicas Botucatu (majoritariamente), Guará e Piramboia. No Uruguai, por exemplo, as formações Botucatu e Guará são denominadas Formação Tacuarembó.

Considerado um dos maiores reservatórios subterrâneos de água doce do planeta, o Guarani é um aquífero transfronteiriço, que se estende por mais de um milhão de quilômetros quadrados e abrange os territórios de 4 países: Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. É sob as terras brasileiras, porém, que se concentra a maior parte da sua extensão, que invade cerca de 840 mil quilômetros quadrados ao longo de 8 estados das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul. 

Aquífero Guarani

Ao contrário do que se pensava inicialmente, o Aquífero Guarani não constitui um oceano subterrâneo de água doce praticamente inesgotável. Atualmente, já se sabe que ele consiste em um conjunto heterogêneo de formações geológicas, cujo volume e a qualidade das águas podem variar largamente. Além disso, o título de maior aquífero do mundo é bastante controverso. Apesar das dimensões continentais do Guarani, há aquíferos na África com praticamente o dobro da sua extensão. De acordo com Heitor Francischini, biólogo formado pela UFSCar e mestrando em Geociências pela UFRGS, "É importante lembrar que, quando o Aquífero se formou, os continentes da América do Sul e da África estavam unidos. Ou seja, alguns aquíferos atuais da África são homólogos ao Guarani em sua origem". E a enorme extensão é uma dessas semelhanças.

A classificação baseada apenas no tamanho, todavia, é um dado pouco relevante. O fator que realmente determina a importância e a grandeza de um aquífero para a sociedade é seu potencial para abastecimento e uso humano. Nesse sentido, embora as características do Guarani não sejam tão fabulosas quanto suspeitado a princípio, ele representa, sim, um recurso natural de inestimável valor, já que se alastra por uma das regiões de maior atividade econômica e concentração populacional da América Latina.


A cidade de Ribeirão Preto, que conta com mais de meio milhão de habitantes, abastece 100% do seu município com água retirada do Guarani. A cidade está sobre uma das zonas de afloramento do aquífero, frequentes também nas regiões ao centro-sul do país, como o sul de Goiás, Triângulo Mineiro, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Com uma grande reserva de água doce sob o solo, as cidades dessas regiões não ficam reféns de outras fontes como rios e lagos para abastecer sua população.



Tão importante quanto sua localização estratégica, as características geológicas do aquífero constituem um fator fundamental para sua possibilidade de uso nas atividades humanas. Considerado um aquífero do tipo poroso, a estrutura das rochas do Guarani atua como uma espécie de filtro natural, absorvendo a água que infiltra através do solo e purificando-a lentamente. Além disso, essas rochas porosas, que absorvem a água infiltrada como uma esponja, são recobertas por uma espessa camada de basalto, uma rocha impermeável que protege o aquífero de possíveis contaminações. Assim, graças ao derramamento basáltico que ocorreu sobre a região do Guarani, a maior porção dele permanece vedada embaixo da terra, o que contribui para preservar a pureza das suas águas.

Isso não significa, porém, que o Aquífero Guarani seja imune aos impactos ambientais causados pelo homem. Segundo Francischini, a poluição e a contaminação da água subterrânea é um grave problema para o consumo humano, sobretudo nas áreas de recarga (locais onde as rochas do aquífero encontram a superfície). "Pesticidas, herbicidas e fertilizantes usados nos latifúndios onde as rochas sedimentares afloram, além de lixões e esgoto não tratados nessas regiões, são os principais agentes poluidores."

Além dos riscos de poluição, a excessiva extração das águas do aquífero pode comprometer a renovação dos seus recursos e a infraestrutura das cidades. "A recarga natural do Aquífero não é tão rápida quanto a retirada da água. Isso pode causar esgotamento dos recursos hídricos e rebaixamento dos níveis do solo", explica Francischini. Recentemente, pesquisadores descobriram que a idade das águas do Guarani chega a 600 mil anos. Isso significa que o líquido que hoje é retirado pelo homem começou a penetrar no solo em direção ao aquífero 600 mil anos atrás. E significa também que, se o homem esgotar esse manancial, a reposição do mesmo volume de água, com a mesma qualidade, só se concluirá daqui a outros 600 mil anos.

Ao contrário do que se pensa, a água é um recurso não renovável na escala humana, em decorrência do tempo necessário (alguns milhares de anos) para a renovação de alguns ciclos. A água é sempre a mesma, mas sua renovação é lenta. O homem, ao contrário, se modifica sempre, e suas gerações se sucedem incrivelmente rápido. Esse descompasso faz com que as comunidades humanas ameacem o equilíbrio dos recursos hídricos.

A água disponível da natureza, hoje, é a mesma que esteve presente nos primórdios do planeta, há 4,5 bilhões de anos. O mesmo líquido que sai das nossas torneiras é aquele que encubou o desenvolvimento dos primeiros organismos unicelulares, que inundou as pegadas dos dinossauros e que matou a sede dos nossos ancestrais nas cavernas.

Por outro lado, isso não equivale a dizer que os aquíferos não podem ser utilizados pela sociedade. O potencial do Guarani é gigantesco, e a demanda de água das populações instaladas nas suas áreas de ocorrência é muito grande para que ele não seja empregado em benefício humano. O fator chave nesse impasse é a gestão correta dos seus recursos.

No Brasil, estima-se uma taxa de 40% de desperdício da água desde o momento em que ela é captada até sua distribuição. Isso sem mencionar o desperdício na hora do consumo doméstico e industrial e a contaminação dos mananciais.

É indispensável a elaboração de políticas que regulem o manejo sustentável e o tratamento de efluentes, e promova medidas para estimular a redução do consumo e o reaproveitamento dos recursos. Alinhado a esses propósitos, Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai assinaram um acordo com o intuito de gerir a exploração do Guarani. O tratado de gestão compartilhada de águas subterrâneas prevê a soberania desses países no uso do recurso hídrico, e propõe medidas estratégicas para preservar o aquífero e responsabilizar quem contaminar as suas águas.

Embora não disponha da mesma atenção da mídia e não seja tão estudado pelos pesquisadores, o Aquífero Alter do Chão, situado na região Norte do Brasil, pode acumular incríveis 85 mil quilômetros cúbicos de agua, quase o dobro do volume estimado do Guarani. Estima-se que a soma da agua desses 2 aquíferos daria para abastecer a população do mundo inteiro ao longo de 200 anos.


Mas o gigantesco potencial dos aquíferos, e particularmente do Guarani, dadas as suas características continentais, não se restringe à sua importância ecológica e social. Os aquíferos representam também uma singular fonte de poder.



Economia/política


A água é o principal recurso que viabiliza e atrai a instauração de comunidades humanas, e a presença do homem é o que atrai e movimenta os processos da economia. Homens precisam de casas (mercado imobiliário), alimentos (agricultura, pecuária, indústria alimentícia), bens de consumo (mercado tecnológico, indústria automobilística), roupas (indústria têxtil), remédios (indústria farmacêutica), serviços básicos (assistência médica, educação, lazer) e uma infinidade de recursos (infraestrutura, redes bancárias, comércio, etc.). Homens constituem famílias e se multiplicam, fundam empresas, contratam mão de obra estrangeira, elevam seu padrão de vida, investem em novos negócios, começam novas famílias, geram dívidas, ampliam seu consumo, comprometem sua renda, liquidam seu patrimônio, recomeçam do zero. E na origem de toda essa dinâmica, está a água. Sem ela, os mecanismos da economia emperram.

Desde as culturas mais antigas, a água guarda íntima relação com o desenvolvimento social. O declínio da sociedade maia teve como estopim a escassez da água. No Egito, o Nilo permitiu o florescimento de uma cultura extraordinária, cuja dinâmica acompanhava as cheias do rio.


Diante desse cenário, os aquíferos representam um extraordinário recurso econômico, e constituem não apenas uma reserva de água, mas uma reserva de capital. E, obviamente, se aquífero significa dinheiro, significa também poder politico. Dessa lógica, surgem dois desdobramentos imediatos. Por um lado, ter em seu território um dos maiores aquíferos do mundo coloca o Brasil e seus 3 vizinhos em uma situação privilegiada no contexto mundial. Por outro, deter tamanho potencial de riqueza e de influência política pode tornar esses países um alvo para o resto do mundo.

Em 2012, diferentes veículos da mídia divulgaram informações de que os Estados Unidos estariam instalando uma base de operações no Paraguai, país abrangido pelo Guarani. A intenção era ocupar um aeroporto internacional construído em uma região praticamente despovoada. O aeroporto, que estranhamente dispõe de uma megaestrutura, tem 3,5 quilômetros de extensão, sistema de aterrisagem noturna, bombas de rastreamento e numerosos radares.

Com o suposto intuito de abastecer camponeses, foram perfurados poços para extração de água do Guarani nessa região. Fontes revelam que moradores paraguaios nunca receberam essa água. Apesar disso, o governo estadunidense alega não ter nenhum interesse no aquífero, e justifica seu avanço com o intuito de combater o narcotráfico e oferecer suporte humanitário ao país. Seja como for, a proximidade da base à região do aquífero constitui uma coincidência no mínimo peculiar.

A busca por recursos hídricos é uma questão primordial para diversas nações ao redor do mundo, e as perspectivas indicam que esse problema vai se tornar cada vez mais intenso, frequente e globalizado, e pode motivar o surgimento de graves conflitos. Essa não seria, porém, a primeira vez que a temática da agua levaria a guerras.

Guerras motivadas pela agua não é um fenômeno recente na historia da humanidade

Grande parte dos países assolados pela falta de água está no Oriente Médio, área naturalmente conflituosa por motivos históricos. Nesses territórios, a disputa por uma região estratégica tem motivado diversas batalhas entre israelenses, palestinos e jordanianos. A região das colinas Golã, palco desses conflitos, é estratégica não por causa do seu posicionamento geográfico ou de questões religiosas, mas sim porque abriga um recurso extremamente valioso: água.

Ter um aquífero em seu território equivale a ter uma jazida de ouro em estado líquido. Ouro que flui, que se renova lentamente, que é desejado por todas as nações do mundo e que, por esse motivo, torna-se cada dia mais raro. Nos dias de hoje, cerca de 1/3 da população mundial não dispõe de acesso à água potável, e esse número não para de crescer. Em meio a esse cenário desastroso, os aquíferos surgem como uma das grandes esperanças de salvação da humanidade. E o país que contar com um aquífero em seu solo terá nas mãos, ou sob os pés, o recurso mais importante de todos.

Sabe-se que a água garante o equilíbrio ecológico, estrutura a sociedade, fortalece a economia e amplia o poder político. Mas a propriedade mais importante da água é outra: água significa vida.


Fonte de Vida 


Quando os astrônomos vasculham o universo à procura de vida, a primeira coisa que eles se perguntam ao descobrir um novo corpo celeste é: existem sinais de água? Isso porque a água é a substância por excelência que viabiliza o surgimento da vida como a conhecemos. Nessa lista, evidentemente, está incluso o ser humano, que nasce dentro de uma bolsa d'água. Tanto assim que, após a quinta semana da gestação, o feto humano desenvolve fendas branquiais (que vão dar origem a outras estruturas), um vestígio evolutivo que comprova sua conexão íntima com a água e com a comunidade biológica do planeta.

 

Água é o corpo humano

O ser humano tem muito em comum com o planeta. Sua constituição, assim como a da Terra, contém aproximadamente 70% de água e 30% de matéria sólida. Seu corpo também é movido por um líquido que circula em camadas superficiais e profundas, fluindo e refluindo enquanto transporta nutrientes e alimenta processos vitais. Seu organismo possui veias e artérias que se estendem como rios conectados entre si, além de um sistema metabólico que renova essa massa líquida como uma versão adaptada do ciclo hidrológico.  


Apesar disso, a relação do homem com os mananciais e aquíferos costuma ser altamente destrutiva, grande parte das vezes em decorrência da falta de conhecimento. Antes de mais nada, é vital compreender que os aquíferos não se resumem a meros reservatórios de água. Muito além disso, eles são formações cruciais ao equilíbrio da biosfera, já que alimentam os rios nos períodos de seca, ajudam a regular os ciclos biogeoquímicos e abastecem as mais distintas comunidades. Nas sociedades humanas, os aquíferos são indispensáveis para a irrigação, a agricultura e a cadeia produtiva de alimentos, para as atividades industriais em geral e os mais variados modos de ocupação sobre o globo. Sem água não existe cultura, não existe religião, não existe arte, não existe história, não existe vida. E, sem o Aquífero Guarani, existem menores probabilidades de um futuro próspero e pacífico.

Nos mitos e nas mais distintas tradições culturais, assim como na constituição dos organismos vivos e dos corpos celestes, é sempre a presença de água que garante a possibilidade da vida. Afinal, parece que a água é não apenas o solvente universal, mas a substância universalmente genesíaca, que permite, de maneira que nem a ciência consegue explicar, o fabuloso surgimento da vida nas mais diversas formas e sob as condições mais extremas.