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Eutanásia: Procedimento médico ou escolha?

É justamente no cerne dessas questões, entre a naturalidade e a opressão da morte, que surge o tema da eutanásia, recurso médico carregado de aspectos sensíveis

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Nos séculos passados, a morte era tratada como um fenômeno místico, de natureza sobrenatural ou sacralizada, que deveria ser simplesmente aceito pelo homem ou, quando muito, recebido por meio de rituais.
Nos dias de hoje, graças aos avanços da ciência, a morte é tida como um evento biológico natural, forçosamente destinado a roubar a vida dos organismos animados.
O problema é que a naturalidade que configura a morte não é tão perceptível, ou tão viável, quando ela incide sobre algum ente querido. Nesses casos, o que constitui um processo inevitável e esperado se mostra como um acontecimento traumático, que desperta sentimentos de dor, negação e impotência.

É justamente no cerne dessas questões, entre a naturalidade e a opressão da morte, que surge o tema da eutanásia, recurso médico carregado de aspectos sensíveis.

"Eutanásia" vem do grego (eu = bom; thanatos = morte) e significa algo como "boa morte".

Por mais contraditória que possa parecer, essa é a sua função básica: estabelecer condições para que o animal (racional ou "irracional") disponha de uma morte "boa", livre de sofrimentos físicos e emocionais.

De acordo com o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), que regulamenta a atividade veterinária no Brasil, a eutanásia animal deve ser executada apenas pelo médico veterinário, desde que não haja recursos alternativos e que o profissional adote procedimentos éticos fundamentais. Nesse sentido, um dos princípios mais importantes é o do bem-estar animal, que determina medidas como o mínimo impacto ambiental, elevado grau de respeito aos animais e a ausência ou redução máxima de desconforto e dor. O profissional que não seguir essas diretrizes pode ser processado pelo CFMV e pelos órgãos de Justiça competentes.

Leishmaniose  


Um exemplo
O conceito da "boa morte", expresso dessa maneira, soa poético e expressivo. Mais do que evocar o lirismo, contudo, a eutanásia tem o poder de mobilizar as pessoas e de gerar discussões acaloradas. Um exemplo ocorreu recentemente, com o polêmico caso do cachorro Scooby. O episódio envolvia ações de maus tratos por parte do dono de Scooby, animal diagnosticado com leishmaniose visceral (LV). A questão assumiu alcance nacional quando o cachorro foi "sentenciado" à eutanásia, em decorrência da portaria que determina o sacrifício obrigatório dos cães com LV. Com o intuito de impedir a morte do animal, criou-se nas redes sociais uma campanha chamada "Salvem o Scooby". A iniciativa conseguiu a adesão de mais de 13 mil pessoas e contribuiu para derrubar a regulamentação judicial que "condenava" o cachorro. Essa decisão, que liberou o tratamento dos cães infectados, gerou questionamentos de natureza ética. Segundo especialistas, uma vez infectado pela leishmaniose, o cachorro está condenado a viver com o protozoário pelo resto dos seus dias, ainda que receba tratamento e os sintomas da doença desapareçam. O maior problema, nesse caso, é que os cães continuarão sendo fontes de infecção para o vetor, atuando como "reservatórios do parasita" mesmo depois de aparentemente curados condição que configura um problema de saúde pública e justificaria a eutanásia. O biólogo Vagner José Mendonça, especialista em Saúde Pública e doutor em Parasitologia, afirma que os estudos nesse sentido ainda não chegaram a um consenso. "Muitos avanços têm ocorrido nos últimos anos, mas a despeito do grande número de testes disponíveis para o diagnóstico da LV, nenhum apresenta 100% de sensibilidade e especificidade", explica. "O Brasil é o único país no mundo que faz da eutanásia obrigatória uma medida de controle" A advogada Vivi Vieri, defensora das causas animais, é contra a eutanásia nos casos de leishmaniose visceral. "O Brasil é o único país no mundo que faz da eutanásia obrigatória uma medida de controle", afirma. De acordo com ela, existem meios mais éticos e eficazes para combater a doença. "O que a OMS [Organização Mundial de Saúde] recomenda é um programa de controle de zoonoses dentro de padrões éticos e morais, como controle de natalidade de cães e gatos, e não a matança indiscriminada que o Brasil adota."

Direito de escolha

As discussões se agitam sobretudo quando o tema envolve situações de saúde comprometida ou de vida em fase terminal. Nesses casos, o problema diz respeito à liberdade de escolha da família: de um lado, a escolha pela eutanásia como maneira de aliviar o sofrimento do animal e garantir a ele uma morte pacífica; do outro, a escolha pela esperança como instrumento de luta pela vida.

Francisca Miranda passou por esse dilema. Na noite em que levou Tobby, seu bacet de 10 anos, para o habitual passeio no condomínio onde moravam, ela não imaginava que um acidente haveria de mudar decisivamente suas vidas. Era período de férias, época em que seu condomínio costuma ficar repleto de crianças e adolescentes. Ao circular com o cachorro pelo pátio, uma das crianças que brincavam não viu o pequeno animal e caiu sobre ele, fraturando a coluna do bicho.

Foi o início de uma luta que durou três meses e terminou com o sacrifício do bacet.

"Eu o amava muito, como se fosse um filho", afirma Francisca, comovida.

Apesar disso, o sofrimento que Tobby enfrentava diariamente fez com que a família optasse pela eutanásia.

O acidente tinha deixado o animal paraplégico, e nem o tratamento que ele recebia, incluindo acupuntura, aliviava suas dores. Segundo a criadora, a decisão pela eutanásia, que já tinha sido sugerida pelo veterinário, foi difícil.

"O pior era saber que a gente ia levá-lo à clínica, mas voltaria sem ele", relata Francisca.

"Meu filho não conseguia levá-lo, ficava sempre protelando. Mas depois me agradeceu por eu ter tido essa coragem."


A médica veterinária Jaqueline Fiochi considera a eutanásia uma medida válida apenas em casos extremos.

"É preciso tentar todas as alternativas existentes antes de pensar na eutanásia."

O biólogo Vagner Mendonça concorda: "É necessário fazer toda uma varredura a respeito da doença, é preciso tentar todas as alternativas existentes antes de pensar na eutanásia."considerando diagnóstico confiável, falta de tratamento, qualidade de vida do animal, qualidade ambiental. Muitos fatores devem ser estudados e vistos com atenção antes de qualquer decisão".

Um aspecto relevante na difícil escolha sobre realizar ou não a eutanásia é o custo envolvido no prolongamento da vida do animal. Em alguns casos, os criadores não têm condições de arcar com os valores do tratamento, que podem chegar a cifras altíssimas. E o que é pior nem sempre existe a garantia de que o investimento vai assegurar a sobrevivência do animal ou a sua qualidade de vida.

O sacrifício nesses casos, no entanto, é uma das decisões mais criticadas pelos militantes das questões animais, que reclamam maior previdência por parte dos criadores. Segundo eles, é preciso estar preparado para cuidar bem dos bichos de estimação, e saber que esses animais, assim como as pessoas, também adoecem e geram despesas.

Isso aumenta ainda mais a pressão sobre a família e pode desencadear decisões precipitadas. Por esse motivo, é essencial que os criadores contem com o acompanhamento de profissionais experientes e mantenham um relacionamento transparente com eles.

A eutanásia é a melhor solução?
No meio de tantos impasses deixados no ar, apenas uma atitude é certa: a conscientização. Despertar a noção do respeito e da responsabilidade em relação aos animais é muito mais importante do que chegar a uma resposta pontual que encerre o caso. Cada circunstância precisa ser analisada de acordo com as particularidades da situação, as características do animal, a ética dos profissionais e a sensibilidade dos criadores.

A única forma de se atingir algum progresso nas controvérsias sobre a eutanásia é por meio da discussão aberta, que venha substituir o silêncio incômodo construído no interior desses temas. Seus métodos, suas implicações, seus possíveis benefícios e desvantagens devem ser trazidos à reflexão de profissionais, criadores e interessados, para que as melhores práticas sejam alcançadas.

Para além dos inesgotáveis pontos de vista que se possa levantar, ninguém discorda que o fundamental é preservar os direitos dos animais em quaisquer circunstâncias, e garantir que as condições da sua morte (por meio da eutanásia ou de outras causas) não apaguem as boas lembranças que eles proporcionaram em vida.

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